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Cinebiografia mostra outro lado de Lutero

Estrelado por Joseph Fiennes com direção de Eric Till, Lutero (2003) apresenta biografia do monge que desafiou o poder romano.

Por Mariah Friedrich

No dia 31 de outubro, é celebrado o Dia da Reforma Protestante, ocorrida em 1517, que completa 506 anos nesta terça-feira (31) e provocou mudanças que ultrapassaram os muros das igrejas com ideais que transformara a ética, política trabalho e educação.

Retratada em pinturas clássicas como o quadro “Lutero na Dieta de Worms”, de Anton von Werner, produzido em 1984, até adaptações para o audiovisual, incluindo o drama histórico “Lutero”, dirigido por Eric Till, com o ator Joseph Fiennes (conhecido por protagonizar o filme Shakespeare Apaixonado) no papel-título. 

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Cinebiografia mostra outro lado de Lutero
Lutero na Dieta de Worms, de Anton von Werner

Em 2003, a jornada de Martinho Lutero é retratada na cinebiografia germano-estadunidense com uma história lúcida e emocionalmente envolvente que se propõe a refletir questões da doutrina cristã reveladas a partir da sinistra tempestade de abertura que prenuncia o temporal de controvérsias religiosas e civis prestes a tomar conta da Europa.

Cinco anos após o lançamento, assisti ao drama histórico em uma atividade do ensino confirmatório, tradição pela qual passam os jovens luteranos neste marco do amadurecimento e da confessionalidade. Lembro-me da apresentação de um Lutero heróico, que se comove com a enganação do povo e a corrupção do clero ao visitar Roma.

O conflito que move o filme é estampado com a entrada da luz que torna o oculto visível em uma das cenas iniciais, quando a rocha de um iconoclasta quebra o rosto de um vitral da Virgem Maria e um raio de sol ardente se derrama na igreja, representando a luz da verdade.

Nascido em uma região alemã marcada por histórias violentas de feiticeiros e demônios guardadas com austeridade, o monge Martinho Lutero ficou conhecido por contestar as regras do catolicismo ao afixar na porta do castelo de Wittenberg suas famosas 95 Teses, com proposições que provocaram sua excomunhão e um movimento mundial de afirmação da salvação da pessoa humana apenas pela fé, negando o monopólio da Igreja Católica para negociar o perdão dos pecados.

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O filme também traz cenas interessantes de um Lutero que filosofa sobre a etimologia das palavras dos textos bíblicos que traduziu do grego para o alemão e comparava com a versão latina após seu falso sequestro orquestrado pelo príncipe Frederico III da Saxônia para escondê-lo no Castelo de Wartburg, onde permaneceu por cerca de um ano e também escreveu vários tratados teológicos.

Por outro lado, uma cena marcante retrata uma das revoltas camponesas por acenar para a complexidade que transpõe a obra: a relação do teólogo com os levantes populares pelo fim da exploração dos sacerdotes e donos de grandes propriedades de terra é controversa.  Durante as revoltas camponesas, ele estava abrigado no castelo de Wartburg sob proteção do Príncipe Frederico III da Saxônia desde a sua excomunhão.

Ainda que a insurreição liderada por Lutero possa ter influenciado os camponeses revoltosos com a autoridade dos senhores feudais, na sequência cena que retrata a chegada dos rebeldes à entrada do castelo, assistimos ao ex-monge condenar o levante. As cenas revelam momentos de violência, fogo e destruição, enquanto ele acusa os camponeses de covardes, avançando com uma tocha para afastá-los, e confronta o líder rebelde Thomas Münzer. “Como ousam se chamar de cistãos?”, condena Lutero. Nesse momento, Münzer responde que se deixe queimar o que está podre e é expulso pelo líder em quem acreditou e apoiou.

 Lutero - Foto MGM/ Neue Filmproduktion TV
Levante de camponeses em Lutero – Foto MGM/ Neue Filmproduktion TV

“Estou continuando a sua obra”, afirma Münzer.

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“Então essa é minha obra? Nunca foi minha obra!”, responde Lutero.

“É a obra do povo”, declara Münzer antes de deixar o local, onde se espalham atos de “barbarismo”.

Uma empreitada ambiciosa que teve um êxito dramático e artístico ao entregar atuações e  diálogos convincentes inseridos no ambiente tempestuoso representado em vários momentos cinematográficos vívidos que expressam essencialmente um drama de ideias, Lutero é também um filme falho como o homem biografado, às vezes distorcendo a apresentação de seus oponentes nas expressões mais irracionais para exibir um herói na melhor luz possível.

Se por um lado a produção em parte financiada por uma organização luterana sediada em Minneapolis possa ser chamada de panfletária por uma série de ambiguidades das quais se esquiva, o filme aspira alcançar um público amplo com um drama de consciência e resistência aos problemas. Poderia ter ido além se permitisse um pouco de ambiguidade e  um olhar mais crítico sobre seu herói, assim seria um filme para católicos, protestantes e não-cristãos assistirem juntos, discutirem e debaterem depois.

Confira o trailer a seguir: 

Onde assistir: Aluguel na plataforma Amazon Prime Video

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