Outubro Rosa: câncer e autoestima

outubro rosa, o câncer e a autoestima

Mesmo perdendo os cabelos ou sendo mutiladas, mulheres não abandonam a vaidade e superam as dificuldades impostas pelo câncer de mama

No outubro rosa, vale a reflexão sobre câncer e autoestima, que precisa ser cuidada.

*Por Aline Pagotto

“Perdi todo o meu cabelo, inchei muito, extraí uma mama. Senti-me péssima, feia. Fiz a reconstrução mamária, mas o câncer voltou e comecei a fazer o tratamento novamente. Sofri muito, não me entreguei à doença. Hoje, sou vitoriosa!”

Esse é o depoimento da doceira Mirtes Carvalho da Silva, 52 anos, que enfrenta o câncer de mama desde 2010. Assim como Mirtes, muitas mulheres encaram diariamente as mazelas provocadas pela doença. Por isso, este mês é marcado pelo Outubro Rosa, campanha promovida para alertar sobre a prevenção e o diagnóstico precoce desse problema.

A cada ano, o número de vítimas aumenta. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), esse é o tumor maligno mais incidente entre as mulheres. Também está presente em homens, mas em proporções bem menores, representando menos de 1% do total de ocorrências.

Casos de câncer

Em 2018, foram cerca de 2,1 milhões de novos registros da doença, considerada a quinta causa de morte por câncer em geral, com 626.679 óbitos. Para este ano, são estimados 59,7 mil novos casos de câncer de mama.

Sessenta por cento dos casos de câncer já chegam aos consultórios do Sistema Único de Saúde (SUS) em estágio avançado. Além do diagnóstico tardio, após um exame de mamografia feito muito tempo depois do aparecimento do tumor, há a demora em iniciar o tratamento. Quanto mais prolongada ela é, mais doloroso será o processo.

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Edilson Onofre Rosa, conhecido como Kiko Tattoo, devolve a autoestima das mulheres que passaram pela reconstrução mamária tatuando as auréolas e os mamilos
Câncer e autoestima

Quando o tratamento é iniciado, muitas mulheres apresentam vários sintomas, entre eles a baixa autoestima, chegando a se sentirem improdutivas. Mirtes contou que teve alopecia (perda dos cabelos), mas não deixou de sorrir.

“Usei peruca por um tempo, mas não me adaptei. Então usei lenços que ganhei na Associação Feminina de Educação e Combate ao Câncer (Afecc). Com o trabalho que eles fazem conosco, me senti bem mais feminina, e minha autoestima se elevou”, assinalou a doceira.

Psicóloga do programa “Viver Bem”, da Unimed Vitória, Naira Delboni disse que o apoio da família nesses casos é fundamental. “Vivemos em uma sociedade que está sempre construindo uma imagem perfeita. Mexer na estética pode gerar ansiedade, frustração e até depressão.

Apoio

Por isso é necessário muito apoio dos familiares, principalmente do companheiro, se a mulher o tiver. É importante dizer o quanto ela é bonita, frisar que está ao seu lado, enfrentando o problema juntos. Outras pequenas atitudes também podem fazer a diferença”, destacou Naira.

Em paralelo, manter o pensamento positivo também ajuda a estimular a imunidade e promover uma sensação de bem-estar. “Buscar ajuda psicológica e falar o que está sentindo com o profissional ou com alguém de confiança é primordial, pois, além de ouvir palavras de apoio, a paciente vai se sentir aliviada. Isso irá ajudá-la a se sentir mais bonita e feliz”, frisou a psicóloga.

O que é o câncer de mama?

Devido ao crescimento desordenado das células anormais nas mamas, causado por mutações genéticas, um tumor se forma. Pode ser maligno (cancerígeno) ou benigno, dependendo das características. Os fatores que contribuem para o surgimento do câncer podem ser alimentação desequilibrada, tabagismo e falta de atividades físicas.

Mais comum entre mulheres, mas também em homens, pode ser raro antes dos 35 anos. Acima desta idade, sua incidência cresce progressivamente, especialmente após os 50 anos, evoluindo de forma rápida, ou não. A maioria dos casos tem bom prognóstico.
Tatuagem do bem

Uma cirurgia para extrair a mama mexe, e muito, com o estado físico e psicológico da mulher. Mas há quem ajude as mulheres que passaram pela mastectomia (retirada cirúrgica de toda a mama) a ter sua autoestima recuperada. O capixaba Edilson Onofre Rosa, o Kiko Tattoo, presta gratuitamente o serviço de redesenho das auréolas e mamilos de mulheres que já passaram pela reconstrução por meio do SUS.

Com o projeto “Semear”, que funciona desde 2015, ele tatua mulheres de baixa renda e chega a atender por semana de oito a 10 pacientes, indicadas pelo doutor Murilo Boles, do Hospital Santa Rita, em Vitória.

“A motivação surgiu a partir de um vídeo a que assisti de um tatuador norte-americano que fez uma tatuagem em uma mulher que havia se submetido à reconstrução mamária.
A partir daí, busquei a ajuda do doutor Murilo e, desde então, tenho agradecido a Deus o que Ele fez de bom em minha vida, retribuindo com as tatuagens”, observou Kiko.

Esposa parceira

O tatuador detalhou a técnica artística aplicada no trabalho. Ele fotografa a mama original e a reproduz na outra. Nesse projeto, ele conta com a parceria da esposa, a designer sobrancelhas Flávia Cunha Ferreira, que oferece a micropigmentação. “O desenho leva, em média, de 40 minutos a uma hora para ficar pronto. Para que a paciente não sinta dor, coloco a rotação da máquina bem baixinha e vou fazendo o desenho”, disse Kiko.

A secretária executiva Lilian Dalla Pria, 46 anos, fez a reconstrução após o tratamento do câncer de mama. Entretanto, não tinha os mamilos e auréola. Hoje, dois anos e meio após fazer a tatuagem, sente-se mais bonita e incentiva outras a também aderirem ao procedimento estético.

“Promovemos oficinas de automaquiagem e doamos acessórios como perucas e lenços para que elas se sintam lindas e motivadas” – Mariana Buaiz, vice-presidente da Afecc no Espírito Santo

“A mutilação já é algo traumático. Mesmo com as reconstruções, a falta da aureola e do mamilo era algo, no mínimo, vergonhoso para mim. Não conseguia nem mudar de roupa em um trocador de loja e ainda ficava travada ao lado do meu marido. Após a tatuagem com o Kiko, que é um mestre na arte e na bondade, minha autoestima voltou por completo. Hoje, sempre mostro às pacientes de câncer, e elas ficam impressionadas com a perfeição e com a certeza de que o caso delas também terá solução”, afirmou Lilian.

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Peças, como camisas, nécessaire e toalhas de praia, entre outras, com a temática do Outubro Rosa são vendidas no Bazar da Afecc
Afecc

Ao descobrir o câncer de mama, a maioria das mulheres se sente desnorteada e desmotivada. Hoje, a Afecc – Hospital Santa Rita de Cássia, localizada em Maruípe, presta assistência social à paciente desde a internação ao acompanhamento médico. Dessa forma, ela não interrompe seu tratamento, garantindo eficácia e maiores chances de recuperação.

Por meio da integração dos profissionais das áreas médica e social, voluntariado e familiares, o Centro de Vivência oferece tratamentos alternativos, como ioga, drenagem linfática, massoterapia, acupuntura, alongamento, terapias ocupacionais e cursos que desenvolvem a habilidade profissional das pessoas que passam pelos tratamentos.
“Na maioria dos casos, a mulher perde a autoestima e se sente muito mal.

Algumas ficam debilitadas, e muitas delas são deixadas pelos companheiros. Dessa forma, promovemos oficinas de automaquiagem e doamos acessórios como perucas e lenços para que elas se sintam lindas e motivadas”, explicou a vice-presidente da Afecc no Espírito Santo, Mariana Buaiz.

Capacitação

Mas a instituição também as ampara ofertando capacitações para inseri-las ao mercado de trabalho. “Alguns tratamentos são muito longos. Por isso, muitas delas perdem seus empregos, pois não sabem quando retornarão. São oferecidas oficinas de confeitaria, de doces, de corte e costura, entre outras, para estimular a pessoa a ter uma profissão e garantir seu sustento”, destacou a vice-presidente.

Ela disse, ainda, que os pacientes também têm orientação alimentar para garantir a saúde. “Durante os tratamentos, há pessoas que ganham e outras que perdem muito peso. Sendo assim, temos uma nutricionista especializada em oncologia que prepara cardápios e dietas especiais aos pacientes que passam pelo Centro de Vivência”, esclareceu Mariana.


Onde doar os cabelos?

Caso você queira doar cabelos que são usados na confecção de perucas para as mulheres que estão em tratamento contra o câncer de mama, basta se dirigir ao Centro de Vivência, a Casa Rosa, localizada próximo ao Hospital Santa Rita. O endereço é Avenida Marechal Campos, nº 1579, Santa Cecília, Vitória. O atendimento é das 8 às 17 horas. Mais informações: (27) 3334-8058.Perucas, outubro rosa, superação, autoexame, câncer de mama

Diagnóstico e tratamento

O principal sintoma do câncer de mama é o aparecimento de nódulo, geralmente indolor, duro e irregular, porém existem tumores que são de consistência branda, globosos e bem definidos.

Outros sinais são: edema cutâneo (na pele), semelhante à casca de laranja; retração cutânea; dor; inversão do mamilo; hiperemia (aumento do fluxo sanguíneo para uma parte do corpo); descamação ou ulceração do mamilo; secreção papilar, especialmente quando é unilateral e espontânea.

Quanto mais cedo se detectar o câncer, maior é a chance de cura. Segundo a rádio-oncologista do Instituto de Radioterapia Vitória (IRV), Anne Karina Kiister Leon, é muito importante realizar a mamografia e outros exames para se chegar ao diagnóstico.

“Por meio de exames mais detalhados, como a ultrassonografia mamária, conseguimos analisar a massa que surgiu. Se for preciso, o paciente pode ser encaminhado em um segundo momento para uma ressonância magnética, para tirar qualquer dúvida quanto ao diagnóstico. Esses exames não substituem a mamografia, mas são importantes para ver melhor o tumor”, observou a médica.

Anne Karina afirma que o tratamento pode ser executado de duas maneiras: no local em que são feitas a cirurgia e a radioterapia; e o sistêmico, que envolve quimioterapia, hormonioterapia e até terapia biológica. “A cirurgia, sem dúvida, é a mais invasiva e dolorosa, mas em alguns casos é necessário realizá-la”, finalizou.

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