Como lidar com crianças tímidas?

Veja algumas questões fundamentais sobre como lidar com crianças tímida neste artigo da educadora Rosana Marin
Rosana Marin é coordenadora da Educação Infantil do Colégio Marista Arquidiocesano, localizado em São Paulo

Muitas crianças são rotuladas como tímidas, e isso não é uma característica negativa, como muitos podem pensar

A timidez é um traço de personalidade, não uma falha, e se caracteriza principalmente pela falta de interação em ambientes novos ou vergonha em se conectar com pessoas desconhecidas. Em eventos sociais, é comum que os pais não saibam como agir quando o filho tímido não responde a um cumprimento, por exemplo.

Normalmente, eles tentam se desculpar sobre o comportamento da criança. Porém, justificar-se não é o ideal, principalmente na frente do filho. Ao contrário do que possa parecer, a timidez não significa que a criança tem insegurança ou baixa autoestima. Esses rótulos, muitas vezes, são injustos, pois muitas crianças tímidas têm uma autoimagem sólida e são seguras de si. No entanto, tratar o fato de ser tímido como um defeito pode expor a criança a uma situação desagradável.

Porém, quando o filho se esconde atrás das pernas, demonstrando estar retraído, é compreensível que seus pais imaginem que há um problema mais sério. Normalmente isso não é motivo de preocupação. Uma criança tímida, mas com autoestima saudável, faz contato olho no olho, é educada e parece feliz consigo mesma. Ela apenas é quieta e demora a se abrir para estranhos.

Para ajudar o seu filho a superar a timidez, e consequentemente, se sentir mais à vontade em ambientes cheios, como festas e encontros, é preciso encorajá-lo e apoiá-lo a construir a sua autoimagem de uma forma positiva. Essa criança precisa de pais em quem possa confiar, que a valorizem, e não que a condicionem a se comportar de uma forma socialmente mais aceita. Por isso, é importante não a forçar a cumprimentar se ela não está à vontade para isso. O melhor é respeitar o tempo dela.

Até próximo aos dezoito meses, muitas crianças são espontâneas. Isso acontece porque nessa fase, além de estarem em processo de construção da própria identidade não tendo, portanto, a capacidade de perceberem o outro, agem antes de pensar, especialmente nas relações sociais. Exatamente nesse momento do desenvolvimento infantil, Lewis (1992) e Darwin (1991), observaram o surgimento das primeiras expressões de vergonha. Seria uma espécie de “nível zero” da vergonha, em que para senti-la, bastaria a mera exposição ao olhar alheio, traduzindo-se em gestos de acanhamento (baixar os olhos, encolher o corpo), no ato de esconder-se (atrás do adulto, por exemplo) e até mesmo, apresentando rubor das faces.

A partir daí e, especialmente até quatro anos de idade, elas passam por mudanças, inclusive percebendo que é possível abrir-se e contar algo para algumas pessoas e não para outras, o que conhecemos por “segredo”, e podem alterar o comportamento diante de pessoas que não conhecem ou não têm intimidade. O recuo social é um estágio normal de desenvolvimento. Por esse motivo, antes de se desculpar com seus parentes, corar de constrangimento ou chamar um terapeuta comportamental, seja paciente. Dê incentivo e espaço para que seu filho se sinta seguro e confiante.

Saiba o que fazer para ajudar as crianças a encarar a timidez

Abrace o seu filho

Primeiro, reconheça que você tem uma criança sensível e profundamente carinhosa, mas que demora a se acostumar com estranhos e encara as relações sociais com cautela. Abraçar é um recurso muito poderoso e vai fazer com que o seu filho se sinta acolhido e apoiado em qualquer situação.

Quanto mais você forçar, mais a criança tímida se retrai

É tentador querer ajudar a criança tímida. Mas tenha cuidado – quanto mais você incentivar, mais algumas crianças recuam. Você não pode tirar uma criança da timidez. É melhor criar um ambiente confortável que permita que sua personalidade social se desenvolva naturalmente.

Não rotule as crianças

Nunca classifique uma criança como “tímida”. Ao ouvir isso, ela sente que algo está errado, e isso a fará se sentir mais tímida ainda. Se você precisar usar palavras para descrever seu filho, use “reservado” ou “discreto”. Esses são termos mais agradáveis e precisos.

Prepare o seu filho quando for a algum evento social

Diga à criança com antecedência para onde vão e como será esse evento – se terá música, muitas pessoas ou outras crianças. Você também pode dizer o que se espera dele em termos de comportamento, de uma forma simples e educada. Se a criança apresentar timidez, não a force a agir de forma diferente, espere o tempo dela para se sentir segura.

Não exponha seu filho sem necessidade

Quando se trata de crianças tímidas, é melhor evitar pedir para que elas façam apresentações para quem não têm intimidade. Por mais que elas gostem de dançar e cantar em casa, pedir para que mostrem as suas habilidades, repentinamente, pode deixá-las assustada. Nessas situações, é melhor prepará-las com mais tempo, e elas vão se soltar à medida que o ambiente se tornar mais confortável.

Aprenda a lidar melhor com crianças tímidas
(Foto – iStock)

Por outro lado, oportunizar o contato da criança com a dança ou a música, por exemplo, especialmente se ela mostrar curiosidade poderá, naturalmente, auxiliá-la a expor-se gradativa e naturalmente, uma vez que essas modalidades de expressão, além de serem trabalhadas em grupo (o que evita que a criança tenha que lidar sozinha com essas situações), ainda associam elementos de alegria, interesse e prazer.

Também não podemos deixar de refletir sobre o fato de que dentro de cada criança, de cada ser humano de um modo geral, há um limite interior, o que Yves de La Taille chama de “fronteira da intimidade”, que para ele representa “um limite móvel cujo lugar esteja, o máximo possível, sob o controle do indivíduo e, em parte, espontânea, no sentido de corresponder a uma tendência natural da criança. Tanto a construção da personalidade como a conquista da autonomia passam pelo controle seletivo do acesso de outrem ao eu, pela construção de fronteiras da intimidade”.

Apesar de a construção dessa fronteira ser um processo natural, não significa que os pais e educadores não devam ajudar a criança a verbalizar e a se colocar diante de outras pessoas ou que devam desistir de ensiná-la certos padrões sociais. Mas eles precisam sim conhecer de maneira consistente sobre o limite interior de sua criança, no sentido de não expô-la a algo além do que ela tem condições de expressar-se em determinada fase de sua vida, afinal nem sempre falar de si, expor-se, traz bem-estar psicológico e muito menos se formos forçados a isso.

Paul Valéry proferiu em comentário bastante reflexivo: “só somos realmente íntimos das pessoas que possuem o mesmo grau de discrição que nós: o resto, o caráter, a cultura, o gosto, pouco importa”. Essa ideia nos leva a pensar sobre o quanto nossas ações podem dificultar e até mesmo bloquear a exteriorização por parte da criança, seja de suas ideias ou sentimentos, se o fizermos de tal forma, que ela se sinta invadida ou desrespeitada.

Nós adultos, conseguimos nos defender dessas invasões, porque construímos a fronteira definida por De La Taille, entretanto, as crianças precisam construir a sua e para tal, serem poupadas de ações que as levem a sentir-se mal, emocional e socialmente.

As crianças tímidas precisam de tratamento diferenciado
(Foto – iStock)

É importante observar ainda se os adultos que estão presentes na vida da criança, especialmente os que lhe representam amor e confiança, não só a estimulam a ser mais extrovertida, como também lhe dão modelos compatíveis com tal estimulação. Nessas situações, como em qualquer outra em que predominem ações educativas, o ditado “faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço”, não tem nenhuma eficácia. Uma criança que é estimulada a dizer bom dia, até logo ou a contar sobre como foi o seu dia, precisa ter modelos consistentes e coerentes com os estímulos que recebe e, essencialmente, com o que vivencia na prática.

Assim, antes de exigir dela, conte-lhe sobre como foi o seu dia, observe como você se comporta diante de certas convenções sociais e, principalmente a abrace, a respeite e a confirme como pessoa única que é!


Rosana Marin é coordenadora da Educação Infantil do Colégio Marista Arquidiocesano, localizado em São Paulo (SP).

Conteúdo Publicitário