Fazem parte da estatística de acidentes, motoristas ou pedestres que desrespeitam a sinalização ou tentam atravessar a ferrovia sem observar as normas do trânsito
Por Kikina Sessa
A cada dia, milhares de pessoas cruzam linhas férreas em diferentes regiões do país. Muitas vezes, o que parece ser apenas mais um trajeto cotidiano pode se transformar em segundos em uma situação de risco, de vida ou morte. Acidentes ferroviários recentes chamaram atenção e lembraram a toda a sociedade que cruzar trilhos exige respeito às regras de segurança.
No Espírito Santo, nas linhas da Estrada de Ferro Vitória-Minas, em Flexal, Cariacica, uma adolescente foi atropelada por um trem em agosto de 2025. O atropelamento, que resultou em ferimentos graves para a jovem, destacou o perigo da travessia a pé em áreas sem sinalização e com fones de ouvido.
Já em setembro, em Araraquara (SP), um caminhão atravessou uma passagem em nível devidamente sinalizada, furou a preferência do trem e colidiu com ele, resultando no tombamento de 14 vagões e no descarrilamento de duas locomotivas; felizmente não houve feridos.
Já em Vassouras (RJ), outro caminhão tentou cruzar os trilhos no momento em que o trem se aproximava, foi atingido, e sofreu danos severos — o veículo ficou destruído, e os ocupantes sofreram ferimentos leves.
Esses episódios são parte de um panorama maior: cerca de 75% dos acidentes ferroviários têm causa atribuída à imprudência de terceiros — motoristas ou pedestres que desrespeitam a sinalização ou tentam atravessar a ferrovia sem observar as normas de trânsito. A Agência Nacional de Transporte Terrestres (ANTT), que regula e fiscaliza concessões ferroviárias no Brasil, contabiliza uma redução gradual dos sinistros ano após ano: foram 328 acidentes no primeiro semestre de 2025, contra 331 no mesmo período de 2024; no total de 2024 houve 698 acidentes, abaixo dos 748 verificados em 2023.
Com 30 mil quilômetros de linhas férreas no Brasil, por onde circula parte expressiva da produção nacional, a recomendação é: pare, olhe e escute antes de atravessar.
Em entrevista ao Fantástico da TV Globo, o diretor-geral da ANTT, Guilherme Sampaio, enfatizou que a maior parte desses acidentes poderia ser evitada se fosse respeitada a preferência legal do trem sobre outros veículos, conforme previsto no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), especialmente nos artigos que regulam a travessia de linhas férreas. Ele lembrou que o trem leva enorme peso e que sua física de frenagem não permite parar de uma hora para outra.
“Mesmo acionando buzina e freios de emergência, se há pouco espaço ou muito atraso na reação de quem atravessa, o acidente pode ser inevitável”, explicou.
Ele também falou sobre o impacto emocional para os maquinistas, que muitas vezes enfrentam acidentes mesmo quando não têm culpa e que isso, além dos prejuízos materiais, deixa marcas na vida. “Mais de 70% das ocorrências têm origem em falhas de terceiros: pressa, distração, imprudência. O trem tem a preferência, mas nada é mais importante que a vida”, reforçou o diretor-geral.
A ANTT, em resposta a esses desafios, reforça que suas medidas preventivas abrangem desde obras de infraestrutura — melhorias em passagens em nível, eliminação de travessias clandestinas, investimentos obrigatórios nos contratos de concessão, sinalização e capacitação — até ações educativas junto à população, com campanhas nas comunidades e em escolas e parcerias com concessionárias e autoridades locais.
Todos os acidentes são investigados pericialmente e os laudos devem ser apresentados em até 30 dias após cada ocorrência, para apurar causas diretas e contributivas, apontando estrategicamente o que pode ser feito e melhorado para evitar novos casos.

