Roberto de Carvalho fala sobre a retomada da Samarco

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Dependente de uma série de licenças ambientais, a Samarco, que via no início de março a possibilidade de voltar a operar no segundo semestre deste ano, precisará retardar o retorno dos trabalhos

Entraves com prefeituras mineiras modificaram os planos do grupo. Um dos percalços é com a Prefeitura de Santa Bárbara, em Minas Gerais, que resiste em liberar uma carta de conformidade, documento indispensável para o licenciamento. O mercado, que esperava a volta da companhia com 60% de sua capacidade, vai ter que esperar. Segundo a empresa, até mesmo o quadro previsto de 1,8 mil funcionários pode mudar devido aos atrasos na volta.

Estudo da Tendências Consultoria Integrada, encomendado pela BHP Billiton, apontou que com a paralisação da Samarco em 2017, Minas Gerais e Espírito Santo deixarão de arrecadar R$ 989 milhões em impostos. Esse montante representa 198% da soma dos gastos públicos dos municípios de Mariana (MG), Ouro Preto (MG), Anchieta (ES) e Guarapari (ES) em saúde, educação, saneamento e transporte, em 2015. Mas o baque vai além, caso as máquinas permaneçam paradas. As contas externas do país podem ser ainda mais prejudicadas, uma vez que o setor de mineração é o segundo maior exportador. Sem a operação da companhia, a perda nas vendas ao mercado internacional chegará a US$ 766 milhões em 2017. O valor representa 3% de toda a exportação de Minas Gerais e 8% do total do Espírito Santo. Em cinco anos, a perda chegaria a US$ 3,8 bilhões e, em 10 anos, a US$ 9,1 bilhões.

O estudo da Tendências também identificou que nos próximos dez anos a inatividade da Samarco representará uma perda média anual com relação à massa de renda de R$ 1,3 bilhão. A receita da Samarco é equivalente a aproximadamente 6,4% do PIB do Espírito Santo e cerca de 1,3% do PIB de Minas Gerais. Mas haverá luz no fim do túnel, caso se confirme a expectativa da companhia de retomar as operações no segundo semestre de 2017, já que além de a macroeconomia precisar desse gás extra, toda a cadeia produtiva ligada à empresa vai se beneficiar. São funcionários, terceirizados, fornecedores, clientes, enfim, todo um microuniverso econômico que está parado desde o fatídico 5 de novembro de 2015.

Nesta entrevista, o diretor-presidente da companhia, Roberto Carvalho, fala sobre os rumos dos licenciamentos ambientais, as expectativas para a volta das operações e como a Samarco está trabalhando como os governos para sanar os prejuízos causados pelo desastre.

A primeira pergunta, sem dúvida, é quando a Samarco volta a operar e, como consequência, suas usinas em Ubu retornam à atividade?
É difícil precisar uma data específica, porque ainda há uma série de situações que não dependem da Samarco. O processo de licenciamento envolve vários participantes. Queremos voltar o mais rápido possível. O processo de licenciamento é complexo, são várias etapas, passa pela aprovação das licenças preliminares, de instalação e operação. Foi decidido fazer o processo da maneira mais completa possível, o que é preciso, já que a sociedade tem que ter a garantia de que não vamos atropelar a questão da segurança total para a retomada. A solução que foi desenvolvida, da utilização de cava para a disposição de rejeito, é, não diria, nova, mas pouco usada. Nós temos plena confiança e certeza de que é uma solução mais segura do que barragens, já que é um espaço confinado e já há uma estrutura mais reforçada, com estabilidade maior, sem dúvida alguma.

Enquanto não acontece a retomada, como estão os trabalhos em Ubu? Há funcionários trabalhando na usina?
Sim, há funcionários na planta. Há um contingente grande de funcionários, inclusive do Espírito Santo, que está fazendo trabalhos para a Fundação Renova ainda. Temos trabalhos ao longo de todo o Rio Doce, desde Mariana (MG) até Regência (ES), e há uma equipe grande em Ubu fazendo um trabalho que chamamos de prontidão operacional. A planta precisa estar pronta para quando tivermos condições de operar. Ubu tem uma característica de agressividade, pelo ambiente costeiro, com corrosão. Então, temos uma turma que cuida disso, faz a manutenção nas estruturas metálicas, nos equipamentos. Todo esse cuidado é para que a usina esteja pronta para quando voltarmos às nossas atividades, assim que vencermos toda essa etapa de licenciamento e as instalações necessárias.

“Estamos todos muito empenhados em retomar as atividades, claro que garantindo toda a segurança para a sociedade e resgatando toda a credibilidade que a Samarco sempre teve”

 

A ruptura da barragem em Mariana teve um impacto muito grande. Quais ações foram e estão sendo tomadas para minimizar os problemas causados?
O que foi feito inicialmente foram as ações humanitárias. Esta foi a prioridade da empresa e de todos nós: atender principalmente as vítimas próximas, aquelas que foram mais impactadas, com toda uma logística de colocar as pessoas em hotéis e depois alugar casas e apartamentos. Trabalhamos prioritariamente nesse processo de dar condições adequadas a essas pessoas após o acidente. Paralelamente, começamos a discutir com as autoridades quais seriam os próximos passos. Samarco, Vale e BHP assumiram totalmente a responsabilidade e deixaram claro o compromisso com a reparação, com a remediação e com a compensação. Isso foi estabelecido por meio de um Termo de Ajustamento de Conduta, que na elaboração e na concepção da ideia teve uma participação importante do Espírito Santo, que também integrou as discussões, que ocorreram a partir de janeiro, para estabelecer um acordo em cima de uma ação que foi ajuizada pela Advocacia-Geral da União. No Termo de Ajustamento de Conduta foram firmados 41 programas, nos âmbitos social e ambiental, para que fossem tomadas as providências para reparação e, eventualmente, compensação. Dentro desse termo, foi estabelecida a criação de uma fundação, responsável por gerenciar todos esses programas. A fundação foi constituída dentro do prazo, em 2 de agosto, ou seja: cinco meses após a assinatura do acordo, que foi em 2 de março, ela já estava pronta para operar. Portanto, a instituição assumiu a gestão desses programas. Então, todos os programas ligados a indenizações, cadastramento, revegetação, recuperação de mata ciliar e de nascentes e reassentamento de comunidades ficaram sob os cuidados da fundação. Isso está bem encaminhado e nos habilitou para, de maneira tranquila, nos dedicarmos à retomada.

A paralisação dos trabalhos na planta de Ubu atingiu vários setores no Espírito Santo, entre eles os empregos diretos e indiretos. Há previsão de contratação de pessoal com a volta das atividades?
Quando houve a ruptura da barragem, em novembro, nossa primeira atitude foi dar uma licença remunerada para os funcionários. Isso se estendeu por dezembro e, depois, vieram férias coletivas. Começamos então a discutir com os sindicatos a questão do lay-off. Fizemos um lay-off por cinco meses – três meses e depois mais dois – que terminou em julho. Caminhamos até julho utilizando todas as alternativas possíveis para manutenção dos empregos. Enquanto isso, trabalhávamos modelos para a retomada da Samarco. Ficou muito claro para todos nós que a retomada, acontecendo como já falamos, não tem como ser superior a 60% da nossa capacidade. Então, quando terminou o lay-off, em julho, começamos a estruturar um programa de demissão voluntária para que pudéssemos adequar o quadro da Samarco a essa nova realidade de 60%. Esse programa foi estabelecido em julho para fazer o desligamento de 40% de nossa força de trabalho, ou seja, dos aproximadamente 3 mil funcionários que tínhamos, iríamos reduzir para 1,8 mil, isso considerando Germano, em Minas Gerais, e Ubu, no Espírito Santo. Nós tivemos 924 adesões voluntárias ao programa.

Depois, com o acordo com o sindicato, a Samarco desligou, de maneira involuntária, mais 153 trabalhadores. Com isso, adequamos nosso quadro à realidade da retomada, que será de 1,8 mil funcionários. Paralelamente, tínhamos em nossas operações cerca de 3,5 mil empregados contratados, tanto em Minas quanto no Espírito Santo. Eram prestadores de serviços dentro da empresa, cuidavam da manutenção e outros serviços terceirizados. Os contratos foram suspensos ou cancelados, permitindo uma redução maior de pessoal. Hoje nós temos cerca de 600 contratados nos dois estados. O quadro da Samarco, como eu disse, já está adequado para a retomada, não vamos aumentá-lo. Contratados, sim, teremos que recompor. É algo que estamos estudando muito agora, o que nós vamos focar, para que possamos voltar com toda a segurança, como a Samarco sempre operou.

Há também os fornecedores, que sofreram com a paralisação dos trabalhos na usina. Os contratos serão retomados? Os antigos fornecedores terão prioridade nessa chamada?
Sem dúvida. Nós estamos mantendo contato com os fornecedores, assim como com nossos clientes, deixando-os a par da situação. No Espírito Santo, por exemplo, tem o pessoal de Cachoeiro de Itapemirim, que fornece todo o calcário que consumimos. É uma atividade muito importante para a região, temos conversado com esses fornecedores. Vamos retomar, dentro da nossa capacidade de 60%, os contratos com nossos fornecedores. A Samarco sempre prezou muito o relacionamento com fornecedores e mercado e vamos, sim, retomar o fornecimento, dentro da nossa capacidade produtiva.

Foto: Washington Alves / Light Press

E em relação aos clientes da empresa, já que paralelamente ao problema que ocorreu com a Samarco, há uma crise que se arrasta mundo afora?
O minério deu uma melhorada, o preço subiu e surpreendeu os setores. Temos hoje cerca de 35 clientes e nossa média de relacionamento é de 20 anos. Temos clientes conosco desde o início da operação. É uma relação forte. O que aconteceu com a Samarco foi muito grave, mas os clientes também têm problemas de tempos em tempos. Quer dizer, há maleabilidade entre as partes. Existem esse entendimento e boa vontade dos dois lados de se ajudarem. Os clientes estão com a expectativa do retorno da Samarco, demos apoio integral a eles e não vejo dificuldades, até porque há demanda e o preço das pelotas está bom. Nos contratos de longo prazo, nós rediscutimos prazo, sempre com muita boa vontade dos dois lados.

Além de empregos, fornecedores, clientes, o senhor considera que a volta da empresa vai ser importante para a economia do Estado?
Exatamente. E o governador Paulo Hartung fala muito isso, que a Samarco, no Estado, representa 50% do que é arrecadado com o agronegócio. E isso levando em conta que o agronegócio não é pequeno. Há o café, o setor de frutas no norte… então, é grande. E isso dá ideia da falta da Samarco para o Espírito Santo. Foi feito um estudo pela Tendências Consultoria Integrada que mostrou que, com a paralisação da Samarco em 2017, Minas Gerais e Espírito Santo deixarão de arrecadar R$ 989 milhões em impostos. É um valor muito expressivo. Há ainda as cidades. Anchieta, por exemplo, tem uma dependência muito grande da Samarco. Grande parte da economia de lá gira em torno dessa cadeia que foi formada, assim como em Mariana, em Minas Gerais. Precisamos realmente, com toda a segurança, voltar aos trabalhos. Para dar uma ideia, a receita da Samarco é equivalente a cerca de 6,4% do PIB do Espírito Santo e cerca de 1,3% do PIB de Minas Gerais.

Como estão os ânimos na empresa? Estão todos motivados para o retorno das atividades?
Sim, estamos todos muito empenhados em retomar – claro que garantindo toda a segurança para a sociedade e resgatando toda a credibilidade que a Samarco sempre teve. A relação dos funcionários com a empresa sempre foi muito forte. Eu tenho 32 anos de Samarco, quase metade passei no Espírito Santo, e vejo muita dedicação. O processo de licenciamento não é simples, até acertar todos os detalhes. Mas estamos empenhados e trabalhando fortemente. Hoje a turma da Samarco é totalmente diferente do que era antes do acidente. Eu costumo dizer que ninguém hoje faz o que fazia no dia 5 de novembro. Isso tudo também traz motivação, queremos resolver as coisas, está no nosso DNA esse compromisso de cumprir com o que assumimos. Isso envolve muita gente e estamos motivados. Aqui em Minas há mais obras acontecendo e há movimentação grande em Germano. Em Ubu também todos estão empenhados em deixar tudo preparado. Um ponto importante é o apoio que tivemos do empresariado, do governo, da Findes, aí no Espírito Santo. O presidente Marcos Guerra sempre preocupado e tentando nos ajudar. Isso nos deu muita força para fazermos o que deveríamos para voltar aos trabalhos.

Esta entrevista foi publicada na Revista Indústria Capixaba em março de 2017.
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