Marcos Guerra, um nome marcado pelo associativismo e trabalho voluntário

Disposição para correr riscos, vontade de trabalhar e uma busca contínua de contribuir com o setor em que atua e com a sociedade em geral.

As marcas da trajetória do empresário Marcos Guerra, cuja função mais importante exercida no Espírito Santo é a de presidente do Sistema Findes, que representa as indústrias capixabas, são os destaques desta entrevista. Conheça mais sobre a vida pública e profissional deste empreendedor de perfil multifacetado. “O principal desafio de comandar a Findes é ter a capacidade de ouvir, de entender que é um cargo passageiro e que a instituição continuará existindo depois de você.”

Sua trajetória empreendedora tem início muito cedo, aos 19 anos. Conte-nos um pouco sobre a história que o levou a se tornar diretor-presidente do Grupo Guermar.
Na verdade, eu comecei a atuar no mercado de trabalho um pouco antes, aos 16 anos. Meu primeiro emprego foi no Banestes, onde trabalhei durante seis meses como contínuo, o cara que entregava correspondência. Depois desse estágio, fui para o Café Meridiano, meu outro emprego, onde fiquei de 1975 a 1978. Em seguida, fundei meu primeiro negócio, em março de 1978, no ramo de confecção, a Incovel, indústria e comércio de vestuário. Até hoje trabalho nesse ramo. Atualmente temos uma empresa mais verticalizada, que atua no mercado nacional e possui clientes no exterior através de parcerias que firmamos, uma espécie de private label. Minha vida profissional sempre foi voltada para a indústria do vestuário, através de uma estrutura familiar, na qual eu tenho a liderança e meus irmãos são sócios.

O senhor buscou alguma formação na área de gestão, negócios ou finanças?
Tenho a faculdade da vida. Adquiri experiência empreendedora na prática, lidando com as dificuldades. Até porque não existe um curso específico para você se tornar empreendedor. É uma coisa que nasce com você, assim como liderança sindical. Não adianta tentar transformar uma pessoa num líder sindical ou empresarial; o que você pode fazer é aperfeiçoar.

E como estão seus negócios atualmente?
Continuo atuando no mercado de vestuário, setor que apresenta as maiores dificuldades no Brasil. Porém, tenho projeto para ampliar o negócio no ano que vem. Venho enfrentando as mesmas dificuldades que os outros empresários do país, mas sou uma pessoa muito persistente nas coisas em que acredito e que gosto de fazer. E eu ainda acredito na indústria do vestuário, que, se revisitada, pode se transformar num excelente negócio daqui para a frente. No Brasil, muitas empresas desse setor têm fechado as portas, porque já estamos há seis anos numa crise que veio se aprofundando a partir de 2013.

O que o setor do vestuário precisa buscar para conseguir superar essa crise?
São vários pontos que precisam ser trabalhados. Um deles está acontecendo quase que no modo automático, que é o nivelamento do dólar com o real. A gente percebe que não vai ter muito mais oscilação daqui para a frente, visto que o dólar tem se mantido nos últimos 12 meses. Deu um pico, mas tem se mantido na faixa de R$ 3,20 a R$ 3,60 e acredito que ele deva se manter em torno de R$ 3,50, em 2017. É uma cotação interessante para quem exporta, e precisamos ficar atentos a esse mercado internacional. Tenho clientes no exterior que possuem perfeitas condições de ser ampliados e estamos com projeto nesse sentido. O atual patamar do dólar também beneficia o mercado interno, que pode crescer muito. A indústria do vestuário conviveu com alguns erros nos últimos quatro anos. Por exemplo, era comum lançarem coleção de 1.000 a 1.200 peças. É suicídio. A realidade da indústria do vestuário em 2016 é a de coleções menores, mais focadas. Com isso a gente vai conseguir qualidade, produtividade, melhoria na competitividade, com mais assertividade.

Empreender é conviver com os riscos. Como o senhor convive com isso?
Você não aprende empreendedorismo na escola. E toda vez que realiza um investimento no seu negócio ou num novo, você parte para o risco, principalmente no Brasil. Nem estou analisando as empresas que possuem retorno de longo prazo. Mas na indústria do vestuário, qualquer investimento realizado só começa a ter o retorno no médio prazo, às vezes até dois anos depois. Para o empreendedor, principalmente o industrial, não existe imediatismo, o risco é constante.

A mortalidade das empresas no Brasil é muito alta, principalmente nos primeiros anos do negócios. O senhor acha que tem riscos que podem ser mitigados?
O risco existe, mas se a gente observar a mortalidade das empresas, isso acontece mais com quem não conhece o negócio. Ocorre muito com micro e pequenos empresários, que às vezes vão montar o negócio porque um vizinho teve uma iniciativa parecida ou porque ouviu falar. Esses são casos que realmente não conseguirão romper o primeiro ano. Em qualquer empresa que se abre hoje, os resultados só aparecem um ano depois, e muitas vezes elas não estão preparadas financeiramente para esperar o negócio faturar. Por isso, ficam sem recursos para se manter enquanto ainda se posicionam, buscam clientes e se fortalecem no mercado. Outro ponto é o planejamento. Quando abri minha empresa, em 1978, também não tinha planejamento, mas possuía uma perseverança muito grande. Hoje não. Está mais fácil empreender. Temos instituições como o próprio Sebrae, que ajudam a montar um plano de negócios, sindicatos que estão muito fortes e ainda experiências reais. Quando iniciei, não havia essa abertura.

Além de um dos empresários mais importantes da região de Colatina, o senhor também é um dos fundadores do Sindicato da Indústria do Vestuário de Colatina (Sinvesco). Na época, quais foram os fatores que o motivaram a criar a instituição?
Sou fundador de várias instituições, sendo que o sindicato da minha categoria é uma delas. Eu entendo que as instituições são importantes para os setores porque facilitam o trato junto aos poderes constituídos. É lógico que existem empresas muito grandes que possuem um caminho solo, mas na grande maioria das atividades, realmente é preciso ter uma instituição.

Foi isso que o motivou em Colatina?
Havia uma necessidade de ter o sindicato para atender às demandas de Colatina. Antigamente apenas o Sinconfec atendia a todo o Estado, mas Colatina acabou se tornando o maior polo de confecção do Espírito Santo. Posteriormente, a base de atuação foi ampliada para toda a região noroeste e hoje temos Sinconsul e Sinvel, além de continuar o Sinconfec. Também fui um dos fundadores da Assedic – Associação Empresarial de Desenvolvimento de Colatina.

Qual o peso do associativismo em sua vida profissional?
Sempre gostei de atuar em prol do associativismo e possuo mais de 30 anos como voluntário. Foi a forma que encontrei para deixar minha contribuição. Eu caí de paraquedas; mesmo ajudando na fundação do Sinvesco, participava pouco naquela época. Fui eleito presidente e acabei criando gosto pela coisa. Comecei a ver a instituição como uma ferramenta importante para o fortalecimento de Colatina e do setor. A partir disso, fui tocando minha vida, mas sem grandes pretensões, deixei as coisas acontecerem em seu tempo. Nunca tive um projeto de poder.

Depois da experiência como líder sindical, o senhor se tornou presidente do Sistema Findes e chegou a ser reeleito por unanimidade. Como tem sido essa vivência à frente da principal instituição representativa da indústria no Espírito Santo?
Eu tive oportunidade de chegar à presidência da Findes, mas entendia que não era o momento, embora contribuísse com a instituição através de outras atribuições. Fui vice-presidente, presidi diversos conselhos, como o Coal (Assuntos Legislativos) e o Conder (Desenvolvimento Regional), o qual foi primeiro presidente e ajudei a fundar. Como presidente do Sistema Findes, iniciei em 2011 e sigo até julho de 2017, completando seis anos de gestão. Além disso, sou vice-presidente da CNI – Confederação Nacional da Indústria e presido o Coema (Conselho Temático de Meio Ambiente).

Quais são os principais desafios de ser presidente do principal órgão representativo patronal da indústria no Estado?
O principal desafio de presidir a Findes é ter a capacidade de ouvir, de entender que é um cargo passageiro e que a instituição continuará existindo depois de você. Também é preciso entender que você não fala mais por um setor, e sim por setores, tornando-se o representante da indústria capixaba, não apenas da atividade em que atua. É importante chegar à instituição e deixar sua empresa e seu setor fora da estrutura da federação.

Sob sua gestão, o Sistema Findes executou um plano de investimento de R$ 250 milhões para o Espírito Santo. Como esse planejamento foi definido?
Todos os projetos executados não foram do presidente, mas sim elaborados através de uma discussão junto a nossas 15 regionais. O plano foi concebido para atender demandas, o que é diferente do executado no passado, quando se buscava a federação já com um projeto pronto. Hoje essa construção é coletiva, junto à comunidade e às lideranças locais. Perdemos a surpresa, mas ganhamos em assertividade.

Esse é o legado que o senhor pretende deixar para o Sistema Findes?
Acredito que vamos deixar vários legados na Findes. Um deles é o fortalecimento do associativismo. Quando chegamos, existiam 30 sindicatos filiados, agora são 40. Outra realidade é a interiorização das ações do Sistema Findes. Nossos investimentos contam ainda com um legado importante que é a educação, área que responde por 80% de todo o montante investido. Ainda há ganhos em saúde, segurança e cultura para o trabalhador. Embora não tenha chegado à Findes com esse propósito, modernizamos todo o Sistema Indústria, contemplando também melhorias em oficinas, laboratórios e salas de aula, que estão iguais ou até melhores que o chão de fábrica das principais indústrias do Estado. Isso tem sido feito no momento certo, que é o da crise, entregando no momento em que o Espírito Santo estará se recuperando, o que deve acontecer a partir de 2017.

Como avalia a relação do Sistema Findes com outras instituições e representantes dos poderes constituídos?
Esta também foi outra característica do nosso trabalho: buscar o fortalecimento da Findes junto a outras instituições, deixando bem clara a necessidade da independência. A Federação das Indústrias não pode abrir mão de ser independente, com posicionamento em qualquer tempo, principalmente no sentido de atender quem paga sua conta, que é a indústria capixaba. Resgatamos o slogan “Uma realização da indústria”, pois percebemos que as pessoas achavam que Sesi, Senai e IEL eram órgãos governamentais. Quando você chegar a alguma entrega do plano de investimentos, verá que consta como realização da indústria, justamente para que as pessoas enxerguem essas instituições como fruto de uma ação setorial.

Como faz para conciliar todas essas atividades?
Além da CNI, do Sebrae e da Findes, ainda tenho a empresa e a família, que me compreende e me dá forças. Na empresa e nas instituições, sou muito bem assessorado, conto com bons executivos que auxiliam no trabalho. Conseguimos profissionalizar um pouco mais a instituição, e isso ajudou muito. Quando chego à federação, ao Sebrae ou à empresa, faço questão de focar as demandas daquele local. Faço questão de não embolar muito as coisas, sou bastante focado nesse aspecto.

O senhor sofreu um grave acidente automobilístico em 2010 e, recentemente, passou por um procedimento cirúrgico, permanecendo por alguns dias no hospital. Considera-se um homem de fé?
Tive dois acidentes gravíssimos, e essa situação cirúrgica foi um problema muito difícil. Embora não seja de rezar muito, temo a Deus e acredito em sua existência. Procuro ser uma pessoa muito humana e participativa, inclusive nas ações da igreja; frequento regularmente a missa, o que me possibilita certa paz. Nesses dois momentos, acredito que Deus me deu uma oportunidade porque tenho outras missões pela frente.

Como foi sua experiência como senador da República?
Exerci o mandato em duas oportunidades, por quatro meses e depois nove meses. Cheguei a ter convite para retornar, mas declinei. Para mim foi muito bom porque cheguei ao Congresso sem o compromisso do peleguismo, de fazer política na base da troca de favores, a feita pelo baixo clero, do oportunismo. Desenvolvi boas ações e aprovei alguns projetos, como tempo integral no ensino médio, e consegui até reduzir o preço da energia na época, uma ação pontual. Gosto de executar as coisas por vez. Não adianta fazer propostas que não se paguem. O ponto que mais me chamou a atenção no Congresso Nacional é que você realmente pode fazer algo que impacte a sociedade de modo geral, desde que tenha bons projetos. Essa é a carência do Congresso.

Acredita que foi um período de aprendizado?
A gente ouvia muito as pessoas comentarem que o Senado é melhor que o céu porque não é necessário morrer para chegar lá e também acolhe pessoas pecadoras. O que carreguei de lá para observada pela população. Num país com o sistema presidencialista, o Congresso Nacional é uma ferramenta importante para a sociedade. As pessoas precisam prestar mais atenção e exercer sua cidadania. Mesmo sem realizar muitas coisas, é possível contribuir de forma pontual, desde que você tenha convicção e bons projetos e persevere naquilo que acredita.

O senhor vê a política como uma potencial área de atuação?
Confesso que isso ainda não me passou pela cabeça. Na Findes, quero concluir as entregas e anda tenho um mandato no Sebrae que vai até 2018, por isso pretendo trabalhar muito em prol da micro e pequena empresa. Na CNI, quero trabalhar para a indústria nacional e também para o meio ambiente, através do Coema. Não gosto de fazer esse tipo de planejamento, as coisas vão acontecendo. Hoje eu digo que não, mas se no futuro houver a necessidade de fortalecer a representatividade do Espírito Santo no Congresso Nacional, a gente pode avaliar. Gosto de fazer um trabalho pelo associativismo e acho que a nossa política precisa melhorar muito a qualidade, não só dos parlamentares, mas também das ações. Um bom parlamentar não deve ser medido pela quantidade de projetos que apresenta. Talvez, ao se trabalhar por um grande e bom projeto, seja possível contribuir mais pelo país. A própria mídia erra quando compara os parlamentares de acordo com seus gastos de combustível, projetos aprovados e presença. É uma coisa pequena comparada ao que pode ser feito dentro de uma Casa tão importante para o país.

O senhor possui diversas honrarias, como as comendas “Domingos Martins”, a mais alta da Assembleia Legislativa; “Governador Carlos Fernando Monteiro Lindenberg”, entregue pelo Governo Estadual; “Desembargador Antônio José Miguel Feu Rosa” e “Egydio Antonio, Coser”, concedidas pela Câmara Municipal de Vitória. Recebeu também a “Medalha de Mérito Empreendedor da Indústria do Estado do Espírito Santo”, um reconhecimento da Findes para os líderes industriais capixabas, e a “Grande Medalha da Inconfidência”, do Governo de Minas Gerais. Como avalia esse reconhecimento por parte do meio empresarial?
Essas honrarias, algumas nacionais e outras estaduais, além da satisfação, incentivam a gente a continuar e melhorar nossas ações. Tenho títulos de cidadão de diversos municípios. Vejo isso com carinho porque as pessoas entendem que você contribuiu de alguma forma com aquela região. Outro dia cheguei ao município de Marilândia e comentei que também era um cidadão marilandense. O mesmo acontece em São Gabriel da Palha, Ibiraçu e Vitória. Acho que sou bem-vindo a esses lugares porque entendo que a construção da vida da gente é um pedacinho por dia.

O que o senhor entende como sucesso?
Sucesso é tudo aquilo que você realiza, não importando o tamanho, mas que lhe traz felicidade. Ele está em pequenas coisas. Diariamente agradeço a Deus pelas minhas conquistas e vitórias. São muitos desafios na vida empresarial, familiar, nas instituições, mas graças a Deus tenho vencido. O sucesso é uma composição de várias coisas que lhe fazem bem, como famílias, amigos e reconhecimento.

Que mensagem o senhor deixaria para um jovem de 19 anos, lá em Colatina, começando na carreira empreendedora? O que o Marcos Guerra de hoje diria para o Marcos Guerra que está começando?
Prepare-se melhor. Eu acho que na minha época deu pra contornar, mas hoje você precisa estar preparado e consciente do que vai fazer. Ao decidir montar um negócio, pode ser interessante atuar em alguma empresa daquele setor para entender melhor como funciona e alcançar maior assertividade. E nunca tenha medo. O empreendedor tem um instinto meio que animal. Às vezes você precisa fechar um pouco os olhos e partir, mas não é se jogar. Todo risco tem que ser muito calculado. Acontece de a pessoa possuir recursos e poder viver de renda, mas ela decide abrir uma empresa, investir e reinvestir, prefere continuar acreditando no negócio. Poder conviver com isso é muito prazeroso

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