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domingo, 14 DE julho DE 2024

Turismo: Viagens curtas são a bola da vez!

Empresas do setor adotam cuidados rígidos para garantir saúde de passageiros e hóspedes

Por Luciene Araújo

Muitos foram os setores produtivos afetados pelo isolamento social imposto pela pandemia do coronavírus. Sobram exemplos de empreendedores que, por falta de entrada de receita em seus caixas, se viram obrigados a fechar as portas. Alguns provisoriamente, outros quebraram mesmo.

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E nessa roda gigante de problemas econômicos gerados pelo Covid-19, o setor de turismo, que movimenta mais de 50 segmentos da economia, foi um dos que mais sofreu, especialmente o segmento de eventos, último a ser liberado para o retorno gradual das atividades e ainda cheio de restrições. A projeção da Fundação Getúlio Vargas mostra o tamanho desse impacto: uma queda do PIB turístico de 38,9%. Isso significa que dos R$ 270,8 bilhões previstos para o setor movimentar esse ano, apenas R$ 165,5 bilhões serão executados de fato. O turismo capixaba acumulou perdas de 1,39 bilhão até maio, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Aqui no Estado, antes da pandemia, o turismo gerava aproximadamente 60 mil empregos diretos e indiretos. Mas, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), 12.399 postos de trabalho foram fechados no setor de Serviços.

E dados do mais recente Boletim Covid-19 Seguro-Desemprego Espírito Santo (nº 07), do Instituto Jones dos Santos Neves, apontam que esses profissionais correspondem a 40% das pessoas que entraram com pedido do benefício este ano.

Nos cinco primeiros meses da pandemia, 40,6% das empresas brasileiras do setor de turismo tiveram de fechar as portas, segundo a Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA). No Espírito Santo, nos meses de março e abril, quase 50% dos meios de hospedagem encerraram as atividades. A boa notícia é que hoje, ainda que diante de uma série de restrições e muitos desafios financeiros, a maioria dos estabelecimentos destinados à hotelaria voltou a operar.

Afinal, após o longo período de isolamento social, não há dúvida de que muitas pessoas estão sedentas por viajar. Mas há uma peculiaridade que precisa ser bastante observada nesse retorno: estudos apontam que a realidade observada na Europa e na Ásia irá se repetir aqui no Brasil, especialmente em relação ao Turismo de Lazer.

Agora, após quase sete meses de paradeira total, sobram desafios aos profissionais do setor em todo o país para garantir segurança no retorno das atividades.

Turismo: Viagens curtas são a bola da vez!
O retorno das atividades no setor de eventos vem carregado de incertezas, frente a série de restrições, como a quantidade de pessoas permitida por evento, que inviabiliza financeiramente muitos atrativos” Raimundo Nonato, presidente da Abeoc/ES – Foto: Divulgação

Viagens curtas

Os três principais tipos de turismo são os de: lazer, negócios e eventos. E no que diz respeito às viagens para “diversão”, a maioria das pessoas permanecem muito receosas quanto à possibilidade de serem “pegas de surpresa” e afirmam que preferem optar este ano e nos dois primeiros meses de 2021, por viagens curtas, que possibilitem rápido retorno ao lar, caso seja necessário. O que no exterior é chamado de staycation ou holistay, aqui no Brasil os termos representam aquela viagem curtinha, com duração de 2 ou 3 dias; ou mesmo um “bate-volta”.

“Estando em um local próximo, com seu carro, a facilidade de retornar à segurança do lar é muito maior que um destino mais distante. Senti isso na pele nessa pandemia e vi uma enorme quantidade de turistas que ficou ‘presa’ no exterior, em diferentes países, longe da família, sem conseguir voltar ao Brasil. Eu sinceramente vou preferir não arriscar. Ao menos nos próximos seis meses”, declara o lutador de MMA Mayke Lima. Aos 28 anos de idade, morando na China há quatro anos, ainda que desejasse estar no Brasil ao lado da família nesse período, só conseguiu retornar para casa neste mês de setembro.

Outro que passou por esse desconforto da insegurança durante a pandemia foi o capixaba Iédio Spínola, 47 anos. “Mesmo tendo optado por morar aqui na Austrália, a sensação de estar em outro país e me ver impossibilitado de voltar pra casa foi muito ruim, às vezes assustadora mesmo. Mandei dinheiro para minha mãe comprar comida para dois meses e ficar em casa. Foram meses de preocupação com a saúde dela, dos irmãos, sobrinhos e amigos. Nos momentos ruins, todos nós queremos o porto seguro do lar. Seis meses que pareceram seis anos”, conta Iédio, que mora no exterior há cinco anos.

 

E os primeiros resultados confirmam essa tendência. “O segmento de mais rápido crescimento está sendo exatamente o de hóspedes que viajam a menos de 80 quilômetros de casa. Viagens curtas, em que o turista opta por estar em companhias mais seletas, ir de carro, evitando as aglomerações de rodoviárias, aeroportos ou portos”, explica Gustavo André, gestor da agência Capixaba Turismo Receptivo.

Ele destaca que há dois tipos principais de interesse das pessoas quando o assunto é lazer. “Um desses interesses está nos atrativos construídos, por exemplo, os parques temáticos, como Beto Carreiro, em Santa Catarina, e o Beach Park, no Ceará. E outro fator está nas belezas naturais e diversidade cultural, que é o caso do Espírito Santo. Temos aqui a opção de sair do litoral para a região das montanhas em menos de uma hora; temos diversos programas de aventura, agro e ecoturismo ricos. O que precisamos fazer agora é melhor divulgar todas essas possibilidades ao próprio capixaba e também aos turistas de outros Estados”, aponta.

Turismo: Viagens curtas são a bola da vez!
Segurança | Estabelecimentos reduziram o numero de quartos ocupados – Foto: Divulgação

Após 40 dias sem nenhuma atividade, o China Parque reabriu em 1º de maio, mas somente em junho os hóspedes começaram a chegar. “Nos finais de semana, nossa taxa de ocupação no mês de julho variou entre 60% e 70%; em agosto chegamos a 90%; e em setembro batemos 100% de ocupação em todos os finais de semana. Já durante a semana, a partir de julho, tivemos 15% de ocupação e agora em setembro conseguimos atingir 25%.”, conta Valdeir Santos, proprietário do Hotel Fazenda China Park.

Ele acrescenta que, este ano, os percentuais de ocupação dos meses de agosto e setembro já superaram o número de hóspedes em igual período de 2019, em até 15%. E os registros do local, confirmam a tendência mundial.

“A maioria de nossos clientes este ano é do Espírito Santo, especialmente da Grande Vitória. E nenhum mora a mais de 400 Km do Hotel. Muitas pessoas que nessa época estariam viajando mesmo dentro do Brasil ou para o exterior optou por se hospedar aqui. E tem muita gente que nem conhecia essa região, mas agora certamente vai virar cliente”, conta o “China”, como é conhecido o empresário.

Turismo: Viagens curtas são a bola da vez!
“A hotelaria capixaba está preparada para receber seus hóspedes. Proporcionar um ambiente seguro ao visitante e aos funcionários é nossa maior meta e prioridade” – Attila Miranda Barbosa, presidente do Sindihotéis – Foto: Divulgação

O empresário completa que a retomada do turismo na região está com uma intensidade tão boa, que é preciso fazer reserva paara os restaurantes mais renomados com pelo menos 10 dias de antecedência. E se você arriscar de chegar sem ter acordado antes, corre o risco de não conseguir entrar. O percentual de ocupações na Grande Vitória se mantém baixo quando comparado a igual período do ano passado, quando houve uma média de 73% de quartos ocupados no Estado, segundo dados do Sindihoteis. Mas, para garantir o sucesso desse retorno quanto à saúde de quem começa a buscar por diárias em hotéis, resorts e pousadas, todos os cuidados vem sendo tomados.

Medidas adotadas

A rigidez com os cuidados relativos à higienização dos hotéis seguem as orientações da OMS, Ministério da Saúde, Anvisa e das Secretarias de Saúde Estadual e Municipais.
“A hotelaria capixaba está preparada para receber seus hóspedes. Proporcionar um ambiente seguro ao visitante e aos funcionários é nossa maior meta e prioridade. O retorno está sendo lento e gradual. E a retomada acontecerá no momento, por meio do turismo interno, como já se registra em todo país.

A volta do turismo externo ainda está retraída, e isso é reflexo dos protocolos de segurança, do trabalho home office e de algumas restrições de deslocamento.”, garante o presidente do Sindicato de Hotéis e Meios de Hospedagem do Estado do Espírito Santo (Sindihotéis), Attila Miranda Barbosa.

Para garantir a segurança dos hóspedes, os estabelecimentos reduziram o número de quartos ocupados a fim de manter maior distanciamento, além de adotar medidas específicas contra a contaminação pelo Covid-19. Entre elas, a desinfecção de ambientes individuais e coletivos, também da bagagem dos hóspedes; e o uso de máscaras e luvas o tempo todo pelos funcionários, além da aferição diária de temperatura.

“Há cuidado rigoroso com a desinfecção de todo ambiente. Piso, mesas, cadeiras, maçanetas, corrimões, botões de elevadores, interruptores, válvula de descarga. E os hotéis também retiraram os objetos decorativos das recepções. Foram adotadas todas as medidas para garantir a saúde dos hóspedes e de nossos trabalhadores”, enumera o presidente do Sindihoteis.

 

 

Turismo de Negócios

Em todo o período da pandemia, as perdas do setor de meios de hospedagem totalizaram 90%. Mas, mesmo com o cancelamento de feiras, congressos e workhops, eventos que apesar de se enquadrarem na categoria turismo de eventos, reúnem diversos profissionais no Estado e geram muitos contratos, foi o turismo de negócios que sustentou a hotelaria capixaba, afirma Gustavo André.

Uma realidade confirmada pelo presidente do Sindihotéis, Attila Miranda Barbosa. “Para o período de pandemia, o “carro chefe” no Espírito Santo foi mesmo o turismo de negócios. Ele permitiu que os estabelecimentos se mantivessem em funcionamento, ainda que com perdas tão agressivas de recursos”, afirma.

A tendência e, principalmente a expectativa dos empresários, é para que se registre crescimento também nesse segmento. Afinal, ainda que venha ao Espírito Santo para fechar negócios, essa visita se desdobra a uma ida a um restaurante, bar ou mesmo um passeio.

Turismo de Eventos

A área de eventos foi a última a ser liberada. Somente no calendário oficial do Governo do Estado, entre os dias 01 de maio e 30 de setembro, havia 150 grandes eventos programados para 2020 e que tiveram de ser cancelados. Entre eles, o Botecão Vitória 2020, e as festas religiosas de Corpus Christi, em Castelo, Passos de Anchieta, na Grande Vitória, e Festa da Penha, padroeira do Espírito Santo, em Vila Velha.

“O que observamos nesse período é que as medidas paleativas, como a utilizar estruturas DriveThru para shows, por exemplo, não se mostraram viáveis financeiramente. As empresas que conseguiram hibernar nesse período, acabaram registrando menos prejuízos que aquelas que tentaram se manter em funcionamento”, aponta Raimundo Nonato, presidente da Associação Brasileira de Empresas de Eventos, no Espírito Santo (Abeoc/ES).

Realizador de eventos como o Desfile das Escolas de Samba de Vitoria, Festa da Penha, e também festivais gastronômicos como Roda de Boteco, Sabor das Montanhas e Espírito Santo Restaurant Week, Raimundo afirma que esse retorno das atividades chega carregado de incertezas, “frente às restrições, entre elas quanto ao número de pessoas permitido por evento que inviabilizam uma série de atrativos, como os shows de artistas nacionais, que tradicionalmente ocorria na Roda de Boteco, por exemplo”.

Além das restrições de espaço e público, ele destaca que a relação de tempo nesse segmento é complexa. “Os grandes eventos demandam um período que varia de 70 a 90 dias para serem estruturados. Alguns até mais que isso. Atrações nacionais precisam ser confirmados com quase um ano de antecedência, por exemplo”, explica Nonato.

Independente do segmento, na avaliação do presidente do Espírito Santo Convention & Visitors Bureau, Alfonso Silva, o poder público também precisa fazer o dever de casa, a fim de ampliar as potencialidades turísticas do estado. “Aqui no Espírito Santo, o turismo continua sendo uma eterna promessa sugerida por uma excepcional localização como destino que combina atributos diferenciados e uma cultura de abnegados empreendedores que se ressentem de uma ação mais assertiva dos governos que se revezam ao longo das décadas. Caberá ao Estado – ou ao seu tripulante transitório, o Governo – a responsabilidade de aparelhar o destino para que essa vocação finalmente se realize”, destacou o empresário em seu artigo para a ES Brasil.

Há muitas mudanças sim, algumas devem ficar pra sempre, outras não. Mas, o pior está passando e já podemos usufruir do que há de melhor no turismo: alegria de viajar e voltar pra casa recarregado da melhor energia.

 


 

Turismo: Viagens curtas são a bola da vez!
Oportunidades | empresas oferecem promoções com pacotes tentadores – Foto: Divulgação

Viagens Internacionais

As passagens aéreas certamente ficarão mais caras. Mas, segundo o Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC), deverá surgir mais opções em viagens mais curtas e destinos locais.

E se a palavra de ordem é evitar aglomeração, as viagens marítimas e aéreas de longa distância provavelmente passarão por mudanças. “Creio que as companhias irão registrar menor número de passageiros nos transatlânticos e aviões por um tempo bastante considerável.

Mas não deixarão de encontrar soluções para garantir que as viagens sejam realizadas com segurança”, aponta Gustavo André, empresário do turismo.

Mas há aqueles que precisam viajar por motivos profissionais e ainda os que não querem perder as oportunidades das grandes promoções que estão sendo oferecidas por redes hoteleiras, resorts e companhias de viagem ao redor do mundo.

Há pacotes tentadores para o segundo semestre deste ano e mesmo para 2021, com preços que correspondem a mais de 50% do valor pago nessa mesma época em 2019, muitos deles oferecendo a possibilidade remarcação gratuita, sem cobranças extras.

Turismo: Viagens curtas são a bola da vez!
“O segmento de mais rápido crescimento está sendo exatamente o de hóspedes que viajam a menos de 80 quilômetros de casa” – Gustavo André, gestor da Capixaba Turismo Receptivo – Foto: Divulgação

Uma das atividades mais afetadas pela pandemia da covid-19, o transporte aéreo também vem adotando medidas para tranquilizar o passageiro. Os voos domésticos (passageiros/quilômetros pagos) sofreram quedas de 91% em abril, 93,1% em maio e 85% em junho. E os voos internacionais praticamente zeraram nos meses de abril e maio.

Por isso as regras de segurança adotadas pelas companhias aéreas também são rígidas: obrigatoriedade do uso de máscaras para tripulantes e passageiros; verificação de sinal de febre antes de embarcar; tripulantes treinados para identificar e isolar passageiros que apresentem sintomas da doença durante o trajeto; e os comandantes têm o poder de interromper o voo, caso necessário.

Muitos hotéis implantaram protocolos de limpeza rigorosos, que incluem até três dias de desocupação dos quartos entre uma reserva e outra. As grandes empresas hoteleiras estão utilizando a pulverização eletrostática para desinfetar as áreas internas dos estabelecimentos e também luz ultravioleta para higienizar as chaves das acomodações.

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