Presidente do Google destaca os rumos da tecnologia e da comunicação

À frente da Google Brasil e VP na Google Inc, Fábio Coellho aponta novidades e aborda a tecnologia como agente de transformação

* Por Aline Pagotto

O empresário capixaba Fábio Coelho hoje é referência mundial. Em 2011, assumiu o cargo mais importante do Google Brasil. E, quatro anos depois, passou a acumular a função de vice-presidente do Google Inc. Engenheiro Civil e Administrador de Empresas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o executivo inspira pessoas ao seu redor.

Figurando por três vezes na lista da Forbes Brasil dos 10 melhores CEOs do país, Coelho veio ao Espírito Santo para ministrar uma palestra durante o Inova Week. No evento, promovido pela Universidade de Vila Velha (UVV), trouxe o tema “sociedade 5.0”. Saiba mais aqui!

Com exclusividade à ES Brasil, falou sobre o que podemos esperar em termos de tecnologia nos próximos anos. Também como devemos lidar com as fake news e os resultados que a gigante Google tem alcançado ao longo dos anos. O resultado dessa conversa você confere agora!

O tema de sua palestra foi “sociedade 5.0”. Como a tecnologia pode auxiliar os cidadãos a partir desse novo formato?

Na verdade, o tema sociedade 5.0 surgiu no Japão e representa uma sociedade que combina dois elementos interessantes: ela é extremamente conectada e, por outro lado, é composta por pessoas sozinhas, principalmente as mais idosas. O país desenvolveu uma política pública para entender como a tecnologia deve ser utilizada não apenas para melhorar o mundo em relação à eficiência, mas também no ponto de vista das relações interpessoais. Essa é uma maneira de falar que a tecnologia aproxima, mas, se as pessoas não se policiarem, ela também isola. A maioria dos japoneses, com 70 anos ou mais, moram sozinhos. Então, imagine ficar tanto tempo sozinho sem conversar com alguém? É possível ter uma política de saúde em relação a isso, como práticas de bem-estar para que as pessoas entendam como interagir umas com as outras, ter um robô que acompanhe a pessoa que tem necessidade de socialização, entre outras coisas. Temos puxado esse assunto para tentar, de alguma forma, mostrar que a tecnologia não tem só a função de melhorar o dia a dia, mas também de humanizar um pouco mais as relações.

“Continuamos crescendo, porque entendemos que o Google tem um impacto social positivo no país para que as pequenas empresas possam anunciar, para que as startups possam aparecer, para que as grandes empresas possam ficar mais eficientes”

Nos últimos cinco anos, mesmo em períodos de severa crise, os investimentos sempre foram na casa dos milhões. A aposta tão alta em um momento de retomada da economia valeu a pena?

A partir de 2015, as empresas brasileiras passaram a entender que as receitas tradicionais não necessariamente continuariam funcionando. Antes, por se tratar de um mercado em que as propagandas eram vinculadas à TV e levavam o consumidor à loja, a compra era feita fisicamente, de forma fácil, e se levava o produto para casa. A partir de 2013 e 2014, já havia usuários conectados, cerca de 150 milhões de pessoas tinham um smartphone. Eles começaram a deixar pegadas. Por exemplo, se quer fazer uma viagem, você busca um ônibus, aluga um quarto de hotel, um carro. Quer ir mais longe? Busca uma passagem de avião… Isso fez com que as empresas entendessem que podem participar desse diálogo. Todos os dias deixamos mais de 150 pegadas na internet, informações importantes que são captadas com cuidado e consolidadas. Para as empresas que investiram em estratégia de dados e conseguiram “dialogar” com o cliente, valeu muito a pena. A realidade é que todos nós estamos conectados. Hoje, todos nós pegamos o telefone para conferir a previsão do tempo, clima, horário de deslocamento, trânsito, agenda. Esse tipo de informação é poderoso, e quem está utilizando os recursos tecnológicos para trabalhar esse conteúdo certamente está achando que vale a pena.

A percepção sobre o poder da internet em ajudar as pessoas, além de diária, é crescente?

É sim. A internet transcende geografia e horários. Eu era um menino que estudava em um colégio da capital capixaba e quis estudar no Rio de Janeiro ou em São Paulo. Mas à época era uma impossibilidade, pois seria necessário ligar para a universidade e pedir pelos Correios o material, que demorava muito tempo para chegar, além de ser muito caro. A internet, por um lado, lhe dá acesso à informação, conhecimento e entretenimento; por outro, ela permite que você conheça pessoas parecidas com você, mantendo buscas parecidas ou diferentes, daí é possível colaborar com essas pessoas na solução de qualquer tipo de problema pessoal ou do mundo.

“Estamos ajudando a desenvolver novas formas de jornalismo, como o de dados (algumas startups), o investigativo, além de realizarmos o combate às fake news – com checagem e comprovação – a fim de demonstrar à população que nem tudo o que está publicado é verdade”

A internet realmente aproxima as pessoas …

Sem dúvida. Hoje não é preciso estarmos conectados somente às pessoas próximas a nós. É possível fazer amigos do outro lado do mundo que tenham afinidades com você em diversos segmentos.

Quais resultados a iniciativa “Cresça com o Google” tem trazido desde sua criação?

Funciona desde 2016 no Brasil e já levou mais de 20 mil pessoas a participar de um processo de empoderamento para que se tornem empreendedoras. Fazemos isso para mostrar às mulheres e às pessoas com menos privilégios que elas podem ser empreendedoras sem necessariamente ter uma startup de tecnologia. Estamos muito felizes com o projeto e queremos dar seguimento a ele.

O Google lança boa parte das novas profissões. O processo de disruptura tem sido intenso. Que qualidades básicas precisam ser desenvolvidas por quem pretende se destacar profissionalmente nos próximos anos?

Primeiro é necessário estar em constante aprendizagem, sempre estudando, porque o conteúdo que aprendemos nas faculdades, ao final, nem será tão utilizável assim, já estará meio “velho”. Depois tem que ter senso de trabalho em equipe. Ser curioso, ter capacidade de resolver problemas e entender a novidade do conceito de “aprender e desaprender”.

Em 2017, uma pesquisa da revista Fortune indicou o Google como uma das melhores empresas para se trabalhar, por oferecer diversos serviços que estimulam os colaboradores. Como esse ambiente de trabalho influencia no rendimento do profissional?

Se pretende ter as melhores pessoas possíveis trabalhando ao seu lado, é necessário que elas entendam que você quer cuidar delas. Não é que tenha os benefícios e não tenha trabalho. Tem muito trabalho, mas dentro de um modelo que equilibra a confiança com uma série de coisas que deixará a vida do profissional bem melhor. Se você oferece um serviço de manicure às mulheres no local de trabalho, por exemplo, o que tem de vantagem nisso? A colaboradora não precisará sair, não se atrasará em retornar ao trabalho e ainda se sentirá motivada. São coisas simples que não custam muito. É um carinho, um cuidado para que as pessoas se sintam felizes. Elas não trabalham pelos benefícios, apenas é uma forma de motivá-las.

Foram anunciados para este ano R$ 8,5 milhões de investimentos em educação, sendo R$ 4 milhões no projeto Educamídia, um programa de educação midiática para crianças e jovens que será executado pelo Instituto Palavra Aberta. E também a oferta de duas mil bolsas de curso online de suporte em Tecnologia da Informação (TI), distribuídas pela Junior Achievement (JA), no valor total de R$ 4,5 milhões. Qual a expectativa do Google com esse investimento?

É apenas um “tijolinho” a mais para ajudar um movimento muito maior. A intenção é trazer conectividade, conteúdo e algum tipo de formação profissional na área tecnológica do Brasil. Tem outros programas, como os Chromebooks, uma espécie de notebook concebido pelo Google e, normalmente, fabricado por uma empresa parceira. No ano passado, implantamos esse projeto aqui no Espírito Santo, em algumas unidades da Escola Viva, e em outros 10 estados brasileiros. É um projeto muito legal e que a empresa tem orgulho de incentivar.

“Olhando de uma maneira mais integrada, se quer ter as melhores pessoas possíveis trabalhando com você, é necessário que elas entendam que você quer cuidar delas. […] São coisas simples que não custam muito”

E como está a Incubadora Jornalística de Nativos Digitais?

Na verdade, temos um monte de programas do grupo chamado “Google News Initiative”, que atua para ajudar o jornalismo a prosperar na era digital. Por um lado, trabalhamos com grandes jornais que estão tentando encontrar um modelo de sobrevivência, que eram impressos, mas agora se veem obrigados a virar portais eletrônicos, um novo modelo de trabalho que envolve tanto a parte de textos e imagem, quanto a produção audiovisual. Por outro lado, estamos ajudando a desenvolver novas formas de jornalismo, como o de dados (algumas startups), o investigativo, além de realizarmos o combate às fake news – com checagem e comprovação – a fim de demonstrar à população que nem tudo o que está publicado é verdade. Não podemos fazer censura do ambiente digital, mas podemos educar as pessoas a não repassarem qualquer informação.

Como a empresa trata as fake news?

Sempre com muito respeito e com o entendimento de que ao longo do tempo o ambiente não favorece quem produz coisas falsas. Valorizamos o jornalismo de boa qualidade, pois o acessamos para ter boas informações e boas fontes. Mas, em curto prazo, precisamos educar as pessoas para que elas identifiquem, mais ou menos, o que é mentira ou o que é verdade. E é um assunto muito importante, pois isso pode destruir a reputação de uma pessoa ou de uma empresa. Não olhamos as fake news com bons olhos, mas também não queremos ser a “polícia da internet”. Esse não é o nosso papel. Existem várias plataformas que transmitem informações falsas, como o WhatsApp. É difícil moderar esses ambientes. Quem tem que controlar o que recebe e identificar uma fake news é o cidadão.

Como o usuário que identifica uma fake news deve proceder?

Primeiro, não repassar a informação. Não estou falando somente do Google, mas sim de diversas plataformas, como Twitter e Facebook, entre outros, que são canais de postagem. Segundo, não valorizar aquele tipo de notícia, pois, se ela for ignorada, automaticamente, será reduzida no feed. Quando quero saber notícias, leio-as em portais confiáveis. Acredito que, com o passar do tempo, isso vai provocar a valorização do jornalismo e da profissão do jornalista, daqueles que estão escrevendo em veículos sérios de comunicação.

Em 2018, mais de 60 mil empresas e organizações sem fins lucrativos utilizaram as ferramentas de busca do Google no Brasil. Os mecanismos de busca e publicidade de vocês ajudaram a movimentar cerca de R$ 41 bilhões em atividade econômica no país. O quanto esse gigante imagina crescer nos próximos cinco anos?

Estamos crescendo muito e continuaremos crescendo, porque entendemos que o Google tem um impacto social positivo no país para que as empresas possam anunciar, para que as startups apareçam, para que as grandes empresas possam ficar mais eficientes. Tudo isso faz parte do nosso trabalho. Diria que o crescer do nosso negócio é mais “quanto” do que “o quê”. O que é tão importante para o Google, é fazer as coisas com qualidade.

Em meio a uma sociedade cada vez mais imersa em inteligências artificiais (IAs), como podemos imaginá-la nos próximos anos?

Vai continuar nessa trajetória do uso da tecnologia para melhorar a vida das pessoas. Inteligências artificiais são técnicas de melhoramento. Tem tanta coisa para ser feita no mundo que nos próximos 30 ou 40 anos devemos sair de uma inteligência individual – concentrada em algumas pessoas – para uma inteligência coletiva. Hoje, por exemplo, eu usei o Waze, que reúne muitos motoristas que lhe dão a informações sobre seus deslocamentos e, com isso, proporcionam a melhor rota. Isso é inteligência coletiva. E esse método pode ser utilizado para outras coisas: na área da saúde, na identificação de padrão de doenças, a fim de garantir mais tempo de vida, ou em qualquer outra função que pode ser melhorada.

Como é para você ser um capixaba na cúpula de uma das maiores empresas do mundo?

Para mim é extraordinário. Venho ao Estado com muita felicidade e acredito que eu seja um exemplo para muitos de que é possível ocupar uma cadeira, uma posição boa, em uma empresa legal. O Google é uma empresa muito legal. Trato o Espírito Santo com muito carinho. Aqui você vê um Estado com uma sucessão de boas administrações que fez com ele melhorasse, e isso é uma situação privilegiada, porque está perto de tudo e tem sua personalidade própria. Sempre que posso, trago investimentos da empresa para o Estado e continuarei fazendo isso.

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