Projeto Origens transforma paisagem de Porto Grande com mural de mais de 200 metros quadrados e valoriza a memória e tradição do município
Por Jessica Coutinho
A comunidade de Porto Grande, tradicional vila de pescadores artesanais localizada próxima ao balneário de Meaípe, em Guarapari, vem chamando atenção por um novo elemento na paisagem: um mural de mais de 200 metros quadrados, pintado na rua principal do bairro. A obra é assinada por três artistas com trajetórias distintas, mas conectadas pelo mesmo propósito: Wally Almeida, jovem autodidata local, o grafiteiro Starley Bonfim e a artista multimídia de projeção internacional Chris Barreto.
A intervenção artística integra o projeto Origens, que propõe um resgate da memória afetiva e coletiva de Porto Grande, com foco na ancestralidade negra e indígena da comunidade. Com cerca de 500 moradores e uma das menores rendas per capita do município, o bairro vive atualmente um processo de transformação acelerada, marcado pela urbanização, pela especulação imobiliária e por ameaças ambientais, como a destruição da mata nativa e a poluição da Lagoa Mãe-Bá, situada ao lado da comunidade.
Com raízes em Meaípe e criado em Porto Grande, Wally Almeida, de 22 anos, celebra a experiência de criar o mural. “Fiquei surpreso com as histórias das pessoas mais antigas do bairro, foi uma coisa surpreendente. Me sinto realizado e honrado com esse mural, que para mim está sendo impactante, uma coisa que me representa”, afirma o artista, que é autista e começou a desenhar ainda na infância, na areia da praia.
Radicada em Porto Grande desde seu retorno ao Brasil durante a pandemia, após 25 anos morando em Nova York, Chris Barreto se encantou pelo potencial artístico da região. “Nós criamos uma sincronia muito forte entre nós com nossa força de trabalho, uma convivência afetuosa e nossa afinidade em criar arte urbana para trazer consciência social, valorizando nossas raízes afro-indígenas no cenário capixaba”, destaca a artista, idealizadora do projeto.
Starley Bonfim, nome conhecido no graffiti nacional e internacional, ressalta o envolvimento da comunidade como uma das partes mais marcantes da iniciativa. “Entre muito sol e muita chuva, a experiência tem sido enriquecedora, com desafios singulares que exigem muita concentração e esforço físico de nossa parte, mas nada que roube o brilho e a importância do que estamos materializando. É legal ver a reação das crianças diante dos desenhos, tudo isso é muito inspirador”, comenta o artista.
A realização do mural é apenas o início. A proposta do projeto Origens é expandir para outras comunidades da região da Lagoa de Mãe-Bá, com planos de intercâmbios culturais em outras partes do Brasil e até fora do país, como nos Estados Unidos, onde Chris desenvolveu boa parte de sua trajetória.
A ação tem apoio do Fundo de Cultura do Estado (Funcultura), da Secretaria da Cultura do Espírito Santo (Secult) e recursos da Lei Paulo Gustavo, por meio do Ministério da Cultura (MinC). Conta ainda com apoio da Real Empreendimentos e da Linconvix Alpinismo e Serviços Industriais.
Mais informações sobre o projeto Origens estão disponíveis no Instagram: @origens2025
Conheça os artistas
Wally Almeida nasceu em Meaípe e foi criado em Porto Grande. Autodidata, começou a desenhar aos quatro anos. Em 2020, pintou seu primeiro mural durante a pandemia, na casa da designer Tânia Vivacqua, que passou a apoiar sua trajetória. Desde então, teve obras expostas e vendidas em Portugal e se tornou um dos artistas selecionados pela Lei Paulo Gustavo.
Chris Barreto é capixaba e viveu mais de duas décadas nos Estados Unidos. Artista multimídia, mistura influências indígenas com pop art e graffiti. Suas obras já passaram por museus como o Guggenheim e o Museu de História Natural, e suas criações chegaram até Madonna. Em 2024, passou um ano com os Pataxós, produzindo obras com materiais naturais.
Starley Bonfim é artista urbano, fundador do coletivo FG Crew e diretor do iÁ Estúdio. Atua com graffiti desde 2010 e tem murais realistas espalhados por diversos países da Europa e por instituições como o MUCANE e a UFES. Suas obras abordam temas da afrodiáspora e ele já foi reconhecido com prêmios como a Comenda Rubem Braga e o Prêmio Trajetórias.

