Com a grande demanda pela descarbonização, o Estado desenvolve políticas para incentivar fontes renováveis de energia
Por Ludmila Azevedo
O setor de petróleo e gás continua sendo um dos pilares estratégicos da economia capixaba. De acordo com estimativa do Anuário da Indústria do Petróleo e Gás no Espírito Santo 2025, publicado pela Federação das Indústrias do ES, a atividade responde por mais de 10% do PIB estadual, incluindo efeitos diretos, indiretos e induzidos.
Além de movimentar uma cadeia produtiva robusta, que vai da exploração onshore e offshore até serviços industriais, portuários e de engenharia, a extração gera arrecadação em royalties e participação especial. Em 2023 o estado recebeu R$ 976,8 milhões, valor que em 2024 saltou para quase R$ 3 bilhões.
A diferença deveu-se a receitas atípicas em 2024 (pagamentos retroativos do Campo de Wahoo e repasses extraordinários por acordos com a Petrobras), somadas ao efeito contrário em 2023, quando queda nos preços internacionais do petróleo reduziram os royalties.
Mas, diante das pressões globais pela descarbonização, dos compromissos assumidos pelo Brasil e do avanço de novas tecnologias, frente ao fato de que o petróleo e o gás são fontes finitas de energia, cresce a dúvida: até quando essa dependência poderá sustentar o mesmo nível de protagonismo econômico?
No Espírito Santo, a produção vem sendo marcada pelo amadurecimento de campos e pela redução da relevância do onshore. No offshore, os campos do pós-sal já atingiram seu pico e estão em declínio, enquanto parte dos ativos do pré-sal capixaba ainda não alcançou a produtividade projetada inicialmente, como lembrou o professor Alexandre Szklo, do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ).
“A extração de petróleo é finita por natureza e, no caso do Espírito Santo, o fator de recuperação dos poços é de apenas 17%. Métodos mais avançados poderiam ampliar essa taxa, mas com custos elevados e maior intensidade energética, o que levanta dúvidas sobre a viabilidade econômica”, pontuou Coimbra.
O fator de recuperação é a fatia do petróleo que se consegue efetivamente extrair de uma área — o resto fica lá, inacessível ou caro demais pra extrair com a tecnologia empregada atualmente.

Se o petróleo segue central para combustíveis líquidos, o gás natural, por outro lado, ganha relevância em setores industriais como a química, a cerâmica branca e, em menor escala, a geração elétrica.
O insumo pode ajudar a lidar com a intermitência de fontes renováveis como solar e eólica e até ser vetor para o hidrogênio. Mas, como observa Szklo, “o gás ainda não ocupa posição de destaque no Brasil, embora tenha potencial como combustível de transição e no apoio à descarbonização da matriz”.
No Espírito Santo, Szklo aponta o biometano como alternativa de grande potencial, sobretudo pela produção descentralizada e pela possibilidade de injeção na rede já existente. “Esse caminho poderia combinar sustentabilidade com competitividade industrial, além de se conectar com futuros projetos de eólica offshore na costa capixaba”.
Durante o workshop Transição Energética e Sustentabilidade, promovido em setembro pelo Centro Capixaba de Desenvolvimento Metalmecânico (CDMEC), especialistas defenderam a importância de tecnologias de captura e armazenamento de carbono (CCS). O objetivo é impedir que o CO₂ chegue à atmosfera, contribuindo diretamente para a redução das emissões de gases de efeito estufa e para o cumprimento de metas de descarbonização.
Políticas públicas para a transição energética
A transição energética não se resume a substituir combustíveis fósseis; envolve inovação tecnológica, segurança jurídica e financiamento. Por isso, como pontuado pelos especialistas, é necessário investir em políticas públicas para facilitar o desenvolvimento e a aplicação das soluções renováveis.
O governo estadual tem reconhecido essa necessidade.
A subsecretária de Estado de Competitividade, Rachel Freixo, cita o Programa GERAR, que busca diversificar a matriz e fortalecer o desenvolvimento socioeconômico justamente pela ampliação da participação das renováveis. “Hoje, apenas 13,2% da matriz energética capixaba é renovável. Ampliar esse índice é não apenas uma meta de sustentabilidade, mas um diferencial de competitividade”, afirmou. O GERAR organiza, em um só guarda-chuva, as condições para acelerar a transição energética no Espírito Santo, em consonância com a regulação federal, atuando em seis eixos integrados: regulação, incentivos tributários, pesquisa e desenvolvimento, acesso à rede, financiamentos e desenvolvimento regional.
O estado executa ainda o Plano de Descarbonização e Neutralização das Emissões de GEE, com estratégias e metas para zerar a emissão capixaba de gases de efeito estufa até 2050, em conformidade com o pacto firmado com a Organização das Nações Unidas (ONU).
A Federação das Indústrias também está engajada nesse propósito: em 2023, lançou a Rota Estratégica para o Futuro da Indústria do ES: Energia 2035, documento que reúne ações definidas por especialistas e distribuídas em horizontes de curto, médio e longo prazos. “São 102 ações voltadas ao segmento Renováveis, incluindo a solar, eólica e maremotriz, entre outras”, relatou Nathan Diir, gerente de Ambiente de Negócios do Observatório Findes.
E em abril de 2025, o Fórum Capixaba de Petróleo, Gás e Energia apresentou ao governo estadual o programa ES Carbono Neutro, cuja meta é tornar o estado referência nacional em descarbonização industrial por meio da atração e viabilização de projetos de Captura, Transporte e Armazenamento de Carbono (CCS).
“Com a participação da Findes, Petrobras, órgãos ambientais e instituições públicas, buscamos consolidar o ES como hub estratégico de tecnologias de baixo carbono, aproveitando sua infraestrutura já consolidada em petróleo e gás para facilitar o transporte de CO₂ por meio dos gasodutos, por exemplo”, completou Diir.

O futuro incerto do pré-sal
No plano nacional, a modelagem da Petrobras projeta que o Brasil atinja um platô (ou seja, o auge) de produção por volta de 2035, antes de iniciar um declínio. O desafio será manter a competitividade exportadora sem comprometer as metas de transição energética.
Para o Espírito Santo, isso significa conviver com um cenário em que os campos offshore ainda têm fôlego, mas exigirão crescentes investimentos em eficiência, inovação e mitigação de impactos.
A petroquímica e a indústria naval seguem demandando derivados fósseis, enquanto setores como transporte marítimo e aéreo buscam alternativas em biocombustíveis e combustíveis sintéticos. No curto prazo, blends e soluções intermediárias devem prevalecer.
Mas, como ressalta o professor Alexandre Szklo, “não há uma solução única para substituir o petróleo. É um mosaico de tecnologias, investimentos e escolhas de política pública que vão definir o ritmo da transição”.
O que parece certo é que, apesar de ainda ser pilar estratégico, o petróleo já não pode ser visto como garantia de longo prazo. Para o Espírito Santo, o desafio será equilibrar o aproveitamento de suas reservas com a preparação de uma economia menos dependente e mais alinhada às novas exigências globais.
Margem Equatorial: como o ES pode se beneficiar da nova fronteira?
Enquanto o Espírito Santo lida com a maturidade de seus campos, os olhos da indústria se voltam para a Margem Equatorial, que se estende do Rio Grande do Norte ao Amapá. A Petrobras iniciou recentemente a Avaliação Pré-Operacional exigida pelo Ibama, passo decisivo para a liberação da primeira perfuração na região. Se confirmadas as estimativas, a nova fronteira pode se tornar um divisor de águas na geopolítica energética brasileira.
Embora fora da geografia da Margem, o Espírito Santo não está fora do jogo. A Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) ressalta que o estado abriga uma das cadeias produtivas mais desenvolvidas do país em petróleo e gás, com ativos como o Estaleiro Jurong Aracruz, multinacionais de engenharia submarina e logística portuária preparada para apoiar operações em águas ultra profundas. Segundo Nathan Diir, gerente de Ambiente de Negócios do Observatório da Indústria da Findes, ainda não há uma cadeia estruturada na Margem Equatorial, e isso abre espaço para que fornecedores capixabas
ganhem relevância.
“O Estado conta com a presença de empresas multinacionais consolidadas, como a Prysmian (cabo submarino e energia) e a TechnipFMC (engenharia submarina e dutos flexíveis), que reforçam a robustez e a competitividade da cadeia local”, completou Diir.
De acordo com a Findes, em 2023 o Espírito Santo tinha 612 empresas formais que faziam parte da cadeia produtiva de petróleo e gás natural (0,6% do total de empresas do Estado), enquanto no país essas mesmas atividades econômicas corresponderam a 28.376 empresas.
Assim, o Estado teve participação de 2,2% no total de organizações empresariais vinculadas a esses segmentos. Essa cadeia de fornecedores inclui especialistas em equipamentos de perfuração, tecnologias de monitoramento e controle, transporte especializado e consultorias em Engenharia e Geologia, por exemplo.
Em suma, a possibilidade de o Espírito Santo se consolidar como polo de apoio logístico e industrial reforça a necessidade de um posicionamento estratégico. De um lado, surgem oportunidades de negócios, empregos e atração de investimentos. De outro, permanecem os dilemas da transição energética e da pressão por descarbonização.
Assim, a Margem Equatorial não deve ser vista apenas como um novo território de exploração, mas como peça no redesenho do mapa energético nacional.
Para o Espírito Santo, a questão central será garantir protagonismo nesse processo – equilibrando competitividade econômica e responsabilidade ambiental.
*Matéria publicada originalmente na revista ES Brasil 229, de novembro de 2025. Leia a edição completa de Energia aqui.

