Termos como patota, dentifrício e quiproquó saem de cena e revelam como a língua portuguesa muda com o tempo
Por Jessica Coutinho
A língua portuguesa está em constante transformação. Novos termos surgem, outros ganham significados diferentes e há aqueles que simplesmente deixam de ser usados. Muitas palavras que antes circulavam com naturalidade nas conversas do dia a dia hoje soam estranhas ou antiquadas, como se pertencessem a um vocabulário esquecido em páginas amareladas.
“As palavras caem em desuso justamente porque não fazem mais sentido, não são mais funcionais dentro daquele momento histórico e cultural. As palavras são como uma fotografia da nossa sociedade, daquilo que está acontecendo agora”, afirma a Dra. Ana Maria Ribeiro, professora do Departamento de Língua Portuguesa da Ufes.
É o caso de “patota”, expressão usada para se referir a um grupo de amigos ou colegas. Antes comum entre jovens e em histórias infantis, foi, aos poucos, substituída por termos mais contemporâneos, como “galera” ou “turma”.
Outro exemplo é “murundu”, que designa um montão ou acervo de coisas. Embora ainda seja possível encontrá-la em dicionários, seu uso cotidiano é raro. Dizer que havia um murundu de livros na estante revela mais do que o gosto pela leitura — revela também o uso de uma palavra em vias de desaparecer.
“O processo de mudança linguística, como o que aconteceu com ‘você’, que em certo momento era ‘vossa mercê’, era mais longo e demorado. Porém, com a modernização, novas palavras surgem e são rapidamente incorporadas ao vocabulário da sociedade como um todo”, comenta a professora.
Tecnologias ultrapassadas também levaram consigo certos verbos. Quem ainda rebobina alguma coisa? A palavra, que já fazia parte do vocabulário de quem usava fitas VHS e cassetes, caiu em desuso com o avanço dos formatos digitais.

Na área de higiene pessoal, “dentifrício” é outro termo que perdeu espaço para o popular “pasta de dente”. Mesmo que o significado continue claro, seu uso soa formal demais para a maioria das conversas.
Já “botica”, que antes era sinônimo de farmácia, sobrevive hoje quase exclusivamente em nomes de estabelecimentos comerciais que buscam um tom nostálgico. O mesmo pode ser dito de “admoestar”, uma forma branda de repreensão, praticamente ausente da linguagem informal, embora ainda presente em textos jurídicos ou religiosos.
Há também palavras que, embora ainda façam sentido, parecem deslocadas nos tempos atuais. “Gorar”, por exemplo, pode significar que algo fracassou ou não saiu como esperado. Mas quantos hoje diriam que o plano gorou, em vez de simplesmente afirmar que não deu certo?
Outro termo curioso é “jocoso”, que descreve algo alegre ou cômico. Dizer que alguém tem um sorriso jocoso traz charme ao texto, mas soa incomum fora de ambientes mais formais ou literários.
No campo das confusões, o português já teve em “quiproquó” uma palavra rica e precisa para nomear mal-entendidos. E, para os mais vaidosos, o termo “janota” descrevia aquele que se veste com esmero. Hoje, o vocabulário da moda se atualiza, deixando o “janota” no passado.
Com o tempo, essas palavras foram sendo deixadas de lado, mas continuam registradas como parte da história da língua. Mesmo fora de uso, ajudam a entender como o português se molda às mudanças culturais, sociais e tecnológicas de cada época.
*Matéria publicada originalmente em 4 de abril de 2025

