Otimismo de início de gestão

Em sua primeira agenda internacional, o presidente Jair Bolsonaro discursou na abertura do Fórum Econômico Mundial (Fotografia - Agência Brasil)

Atento às movimentações do novo governo, mercado financeiro mostra otimismo neste início de ano

O mercado financeiro vem reagindo bem aos primeiros dias de gestão do novo presidente Jair Bolsonaro (PSL). O otimismo é tão evidente que, logo no primeiro dia útil do ano, o principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) bateu seu recorde de movimentações, fechando o pregão em mais de 91 mil pontos. E a euforia se manteve, porque, das 15 sessões subsequentes, em 10 foram alcançados marcos históricos. Tudo isso ocorrendo em meio ao ainda tenebroso quadro de disputas comerciais entre Estados Unidos e China e de uma provável desaceleração global que está sendo desenhada.

Muito desse sentimento positivo vem da equipe econômica anunciada desde o início da campanha, que tem como comandante o agora ministro Paulo Guedes, e do compromisso na realização de reformas importantes, como a previdenciária e a fiscal. “É importante perceber que, diante do cenário que foi trazido pela eleição de Bolsonaro, o impacto imediato é de um sentimento positivo para 2019. Era um candidato que tinha um discurso de campanha que se aproximava, em alguns pontos, daquilo que o mercado achava como mais interessante. Isso gera um clima para um próximo ciclo, no mínimo, inicialmente positivo”, explicou o analista político Darlan Campos, da República Marketing Político.

Na sua avaliação, a vitória do representante do PSL afasta as previsões mais pessimistas que vinham sendo elaboradas com a eventual vitória do candidato do PT, Fernando Haddad, e essa agenda reformista vencedora traz um clima positivo, principalmente no campo fiscal. No entanto, há dois pontos sensíveis a ser abordados nessa área. O primeiro é a arrecadação, caracterizada por suas operações complexas, mesmo para profissionais experientes como os do staff de Guedes. O segundo é a Previdência Social, cujo déficit vem corroendo as reservas nacionais, diminuindo a capacidade de investimento do país. “Por isso, é fundamental que essa área seja atacada como prioridade”, destacou Campos.

“O discurso do ministro Paulo Guedes, bem como da equipe econômica, é como música aos ouvidos dos mercados” – Abel Fiorot, consultor financeiro

Dificuldade ou oportunidade?

Há, ainda, o temor de um ambiente internacional turbulento que possa gerar dificuldades para os avanços econômicos, mesmo que as reformas sejam aprovadas. A preocupação geral é do impacto do processo de desaceleração econômica que ocorre em diversos países do mundo e, especialmente, de uma guerra comercial entre norte-americanos e chineses. Um outro elemento é a perspectiva de aumento dos juros nos Estados Unidos, capaz de afetar o fluxo de capitais em economias emergentes como o Brasil.

O consultor financeiro e mestre em Economia e Finanças Abel Fiorot ressalta que, apesar da iminente desaceleração do ciclo econômico, o ambiente interno brasileiro pode proporcionar a grande oportunidade de tornar-se internacionalmente mais interessante a investimentos. “Quando os grandes expoentes econômicos virem o Brasil implantando uma agenda mais liberal, mais voltada para os negócios, com medidas econômicas de austeridade e de diminuição de déficit, a atração de capital será quase consequência natural do mercado”, explicou.

“O discurso do ministro Paulo Guedes, bem como da equipe econômica, é como música aos ouvidos dos mercados. Se o Brasil conseguir implantar aquilo que foi falado em campanha, o país virará realmente a bola da vez entre os emergentes. Mas, por enquanto, tudo é só a aposta”, finalizou.

“É importante perceber que, diante do cenário trazido pela eleição de Jair Bolsonaro, o impacto imediato é de um sentimento positivo para 2019” – Darlan Campos, analista da República Marketing Político

Abordagens por bancadas

Já no Congresso Nacional, uma pauta de desgaste pode ser a reverberação de denúncias como as feitas contra o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, de envolvimento com caixa dois no pleito de 2014, quando foi eleito deputado federal pelo Rio Grande do Sul. Sobre ele pensam ainda suspeitas de desvios de verba da Câmara dos Deputados, quando já estava na atividade política. Outro ponto nevrálgico é o caso de Fabrício Queiroz, motorista por mais de uma década de Flávio Bolsonaro, senador eleito e filho do presidente da República, em sua passagem como deputado estadual do Rio de Janeiro por quatro mandatos, entre 2003 e 2018.

A equipe do governo vem se movimentando por meio de uma tática diferente da executada pelos presidentes anteriores. O analista político Darlan Campos destaca que no modelo anterior, de “presidencialismo de coalizão”, o chefe do Executivo assumia o compromisso com a base dos partidos de apoio, entregando a representantes dessas legendas cargos estratégicos.

Como preferiu uma campanha quase solitária, com pouco suporte das siglas, Bolsonaro tem acenado para o caminho da negociação com as bancadas, grupos suprapartidários que se unem de acordo com suas convicções e interesses. Hoje, por exemplo, existem as bancadas evangélicas – pessoas de credo cristão filiadas a diversos partidos que dialogam sobre pautas comuns para esse público –; ruralista, ligada ao agronegócio; da “bala”; militar, entre outras.

E isso vai trazendo uma dinâmica interessante para construção desse novo ciclo Bolsonaro no poder. Fica a questão se essa estratégia vai se perdurar com a chegada dos novos deputados e senadores. “O presidente traz esse novo elemento para a articulação política que só do tempo dirá se vai dar certo, especialmente na aprovação das reformas que necessitam de alteração constitucional e passam pelo Congresso Nacional.”

Governador Renato Casagrande articulou-se com os deputados para deixar a votação para após a sua posse
Otimismo do investidor, cautela do gestor

Na esfera local, com um olhar um pouco mais parcimonioso, Renato Casagrande (PSB) deu início a mais um período à frente do Poder Executivo estadual. Uma semana após tomar posse, o governador enviou um novo Projeto de Lei Orçamentária de 2019 para a Assembleia Legislativa, desta vez reduzindo o valor total em R$ 493 milhões em relação à peça produzida pela administração do seu antecessor, Paulo Hartung (sem partido), para o mesmo período. Aprovada no dia 14 de janeiro, a lei prevê uma receita global de R$ 17,721 bilhões, 5,04% maior do que a estabelecida para 2018.

Casagrande articulou-se com os deputados para deixar a votação para após a sua posse, pois avaliou o início da gestão como sendo de muitas expectativas, porém com muitas incertezas. “Será um ano que precisará ser observado”, destacou, avaliando, também, que seria necessário fazer um ajuste nos valores totais. “Se a receita do Orçamento encaminhado no ano passado se confirmar, melhor, porque a gente pode suplementar durante o ano. Se ela não se confirmar, nós já estamos tomando as medidas necessárias para resguardar o equilíbrio fiscal e financeiro do Estado do Espírito Santo”, adiantou o socialista em pronunciamento feito nas mídias sociais.

O analista político Darlan Campos avaliou como coerente a decisão do Executivo. “O governo Casagrande se antecipa a uma perspectiva de que este ano ainda será de dificuldades. Por isso, os ajustes de quem está entrando são fundamentais para exatamente colocar o pé atrás e seguir com mais perfil de sua condução. Apesar dos índices atingidos pelo Espírito Santo, que o coloca em uma posição melhor que muitos outros estados, ainda é necessário observação e investimentos”, analisou.

Conteúdo Publicitário