Você compra um lugar, mas quem decide onde você vai sentar é o destino. Paga pra levar a mala, mas quem viaja de graça é ela

Por André Gomyde
Seu Firmino nunca tinha andado de avião. Achava que “check-in” era o nome de um cantor coreano e que “boarding” devia ser alguma coisa ligada a surfe. Mas lá estava ele, suando no aeroporto, com uma mala verde-limão que parecia ter sido herdada de um parente dos anos 80.
Chegou cedo, fez o tal do “check-in” e ouviu a moça do balcão dizer:
— Senhor, o despacho da bagagem custa 120 reais.
— Despacho? Que despacho, minha filha? Isso aqui é mala, não é feitiço!
Explicaram, com paciência, que “despachar a bagagem” significava mandá-la pro porão do avião. Seu Firmino, homem prático, pagou o valor sem pestanejar. Afinal, mala é mala — e a dele, coitada, parecia carregar mais lembranças do que roupas.
Mas o que ele não sabia é que a aventura aérea ainda reservaria uma das maiores lições filosóficas da vida moderna: a lógica das companhias aéreas.
Lá estava ele, sentado no portão de embarque, observando os outros passageiros. Um rapaz com mochila, uma moça com uma mala do tamanho de uma geladeira portátil, e um casal com três malas que, somadas, dariam o peso de um fusca. Nenhum deles parecia ter pago nada.
Quando chamaram para embarcar, começou o espetáculo. O funcionário da companhia, com a calma de um monge budista e o sorriso de quem viu isso mil vezes, anunciava:
— Senhores passageiros, devido à lotação dos compartimentos, vamos despachar gratuitamente as malas maiores.
Firmino arregalou os olhos.
— Gratuitamente? — perguntou à moça ao lado.
— É, moço. De graça.
— Mas… eu paguei pra isso!
— Pois é. O senhor fez o certo. Só que o certo, agora, é o errado.
Foi aí que Seu Firmino entendeu o que realmente significava viajar de avião: é um jogo de azar com asas. A passagem é uma aposta. Você compra um lugar, mas quem decide onde você vai sentar é o destino. Paga pra levar a mala, mas quem viaja de graça é ela.
No meio da confusão, ele ainda perguntou ao funcionário:
— Mas se é pra despachar de graça aqui, por que não despacha de graça lá no balcão?
O rapaz deu um sorriso de quem já se fez essa pergunta no espelho:
— Política da empresa, senhor.
Firmino coçou a cabeça.
— E essa tal de “política da empresa” é de direita ou de esquerda?
— É de cima, senhor. Lá de cima.
Quando o avião decolou, ele olhou pela janela e pensou que talvez a resposta estivesse nas nuvens. Ou na bagagem, rodando feliz na esteira, sem entender nada também.
E concluiu: talvez o problema do mundo moderno seja esse — a lógica está sempre voando em outra classe, e a gente fica aqui embaixo, tentando entender por que tudo que é “de graça” vem depois que a gente paga.
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos.

