Companhias como Portocel, Cooabriel e Sebrae/ES apostam na boa governança como estratégia para inovação, sustentabilidade e atração de investimento
Por Cínthia Ferreira
Diante de um cenário global marcado por crises geopolíticas, eventos climáticos extremos e instabilidade política e econômica, a governança pública ganha protagonismo como pilar essencial para a sustentabilidade e confiança institucional. No Brasil, onde a crise fiscal e a insegurança jurídica desafiam o ambiente de negócios, o Espírito Santo se destaca por sua boa governança, alcançando a primeira colocação no Índice de Transparência e Governança Pública (ITGP), com 90,4 pontos.
A pauta ESG tem crescido em importância, mas o “G” de Governança — responsável por garantir decisões éticas, transparentes e sustentáveis — ainda é pouco valorizado, apesar de ser essencial para a credibilidade de qualquer organização. Por sua vez, as empresas capixabas estão cada vez mais atentas às transformações e exigências do mercado, e também reconhecem a governança com um diferencial estratégico para garantir a segurança e a sustentabilidade do seu campo de atuação.
“Diante de um cenário de crescimento e inovação nos mais diversos setores, a governança assume um papel central, pois é ela quem direciona as instituições para rumos estratégicos. Por isso, precisa incorporar maturidade e modernidade, mas mantendo o olhar voltado para o que o mercado está fazendo”. Assim define Carlos Augusto Pandolfi, superintendente geral da Cooabriel, sobre o papel da governança na atração de investimentos, gestão de riscos e sustentabilidade do negócio.
Para enfrentar um mercado que muda rapidamente e promover uma governança ética e transparente, a cooperativa está adotando uma postura mais firme, com uma atuação mais estratégica. “Temos realizado trabalhos de pesquisa interessantes, em parceria com instituições de referência, e identificado oportunidades para avançar. Mas esse crescimento deve seguir a cultura da cooperativa, onde a presença do cooperado e da diretoria eleita é muito forte e preserva essa raiz do cooperativismo. Essa é a grande preocupação: inovar sempre, adequando a governança ao tamanho que a empresa alcançou, mas sem se desconectar da sua essência”, avalia Pandolfi.
A governança também é um dos pilares da atuação da Portocel e está diretamente ligada à confiança que o mercado deposita na empresa. Para Valéria Becalli Provete, gerente de Estratégia, Gestão e Novos Negócios da companhia, em um ambiente cada vez mais complexo, a governança deixou de ser apenas um requisito regulatório para se tornar um diferencial estratégico.
“Ela nos dá previsibilidade, segurança e agilidade para crescer com consistência, fortalecer relações e inovar de forma sustentável”, analisa Becalli.
Atualmente, a Portocel investe continuamente no fortalecimento de sua governança por meio de planejamento estratégico, estrutura organizacional bem definida, indicadores claros e uma cultura de integridade. “Também promovemos auditorias internas e externas, atualizamos nossas políticas e temos um programa robusto de compliance. Para nós, boa governança é aquela que assegura transparência, engajamento e decisões responsáveis, alinhadas aos interesses de todos os stakeholders”, acrescenta a gerente.
Segundo Valéria, a governança tem sido fundamental para os resultados alcançados pela empresa. Em 2024 foi registrado o melhor desempenho financeiro, além da ampliação da atuação para o Porto de Santos e a consolidação da diversificação de cargas em Aracruz.
Ainda assim, há desafios. Valéria acredita que o principal está em garantir que princípios éticos estejam presentes em todas as camadas da organização e da cadeia de valor. “Isso exige cultura, comunicação constante e treinamento. Outro ponto é acompanhar as mudanças do ambiente regulatório e adaptar os processos sem perder eficiência. Temos avançado com consistência nesse caminho”, conclui.

Programa de Integridade para Pequenos Negócios
Desde 2018 o Sistema Sebrae possui um Programa de Integridade Corporativa como forma de incorporar à sua rotina a evolução das práticas da ética, da integridade e da conformidade como atributos obrigatórios.
Lourenço Friggi, gerente da Unidade de Controle Interno do Sebrae/ES, explica que o programa se posiciona de maneira estratégica e dinâmica, preconiza o cumprimento das normas internas e externas pertinentes ao Sistema Sebrae e a aplicação do Código de Ética, reforçando o envolvimento individual de cada colaborador por meio da sua conscientização quanto aos padrões éticos de conduta da organização. Alinhado a isso, desde a adesão ao Pacto Global da ONU, em julho de 2022, O Sebrae trabalha continuamente para incorporar práticas ESG em suas operações e serviços.
“O Sebrae/ES tem implementado diversas ações ambientais, sociais e de governança, alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
As iniciativas, programas e projetos são canalizados em nosso relatório “Comunicação de Engajamento – COE” e continuamente compartilhadas nos nossos principais canais de comunicação como forma de disseminar boas práticas empresariais”, detalha o executivo.
Para o pilar da governança destaca-se o Programa de Integridade para Pequenos Negócios e Adequação à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). O programa consiste em uma consultoria que foi disponibilizada em 2024, cujo público são micro e pequenas empresas que desejam se proteger contra fraudes, corrupção e comportamentos antiéticos, especialmente aquelas que atuam em ambientes sujeitos a licitações e relações com o setor público. Por meio de mecanismos que ajudam a prevenir, detectar e corrigir esses comportamentos, a implementação dessas medidas garante maior transparência, segurança e confiabilidade nas relações.
Segundo Lourenço Friggi, considerando as soluções identificadas no pilar de Governança, foram contratadas nove consultorias entre 2024 e 2025. Já a quantidade de soluções contratadas somando o S (social) e o E (ambiental) chegou a 264 consultorias no mesmo período.
Friggi acredita que o caminho para o êxito é a empresa entender a importância de ter boas práticas de integridade e que o empreendedor, em especial a alta administração, se comprometa com a implementação. “Com uma reputação que não gera desconfianças, as chances de aumentar o faturamento são maiores, ao mesmo tempo que se mitigam riscos de eventual prática contrária ao ordenamento jurídico e se estimula um ambiente mais íntegro e seguro”, conclui.
*Matéria publicada orginalmente na revista ES Brasil nº 227, de junho de 2025. Leia a edição completa do Anuário Verde aqui.
