Fugindo do caos da cidade

Está se tornando uma tendência: trabalhadores e empresários estão trocando os grandes centros para morar em cidades e regiões mais calmas, mesmo que sejam mais distantes ou não façam parte da Grande Vitória. Eles passam o dia todo trabalhando na Região Metropolitana de Vitória e no final do dia voltam para casa, geralmente em Domingos Martins, Fundão, Nova Almeida, Guarapari e zona rural da Serra, com o objetivo de fugir do barulho e do trânsito e encontrar um pouco de paz. E o melhor: dessa forma, segundo eles, estão ajudando a melhorar a gestão de suas empresas, pois ficam muito menos estressados com a correria do dia a dia.

Tentando fugir da “loucura” do trânsito, há quem decida morar um pouco mais longe. Quem trabalha em Carapina, na Serra, e mora em Itapoã, Vila Velha, gasta, em média, 90 minutos para se deslocar de um ponto a outro de carro. Para ir de Carapina a Domingos Martins, por exemplo, gasta-se até menos e ainda há a vantagem de se evitar o estresse dos congestionamentos.

A presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos, seção Espírito Santo (ABRH-ES), Ângela Abdo Campos, salienta que alguns fatores contribuem para essa mudança de comportamento de algumas pessoas, que preferem trocar os grandes centros pela vida calma e tranquila do interior. Ela destaca o custo de vida, que em cidades fora da Grande Vitória costuma ser menor. “Hoje a maioria dos trabalhadores de grandes empresas tem carro, o que diminui a distância entre as cidades do interior e a Grande Vitória. Além disso, eles adotam o rodízio com os colegas, reduzindo, assim, os custos com combustíveis e o desgaste da viagem.”

Ainda segundo Ângela, ao optar por residir num município com menos “agitação”, as pessoas superam o desgaste das idas e vindas com a qualidade de vida proporcionada pelo ritmo calmo do interior. “Quem ganha com essa paz são as empresas, que contam em seus quadros com pessoas menos estressados”, comenta.

Indo e vindo todos os dias
Se para ir de alguns bairros da Grande Vitória até o centro da Capital, há cinco anos, as pessoas gastavam cerca de 20 minutos, hoje o mesmo percurso demora mais de uma hora para ser feito, como lembra Ângela Abdo. “Logo, quem mora em Domingos Martins e tem que vir a Vitória diariamente não vai se importar com a duração da viagem de pouco mais de uma hora”, comenta a presidente da ABRH-ES.

Esse é o caso do comerciante do ramo de autopeças Edilésio Corrêa da Silva, que há 12 anos trocou o barulho de Campo Grande, em Cariacica, pela tranquilidade de Domingos Martins. Ele mantém seus negócios em Campo Grande, para onde se desloca todos os dias vindo de Campinho, onde, garante, respira um ar mais puro e fica livre da poluição sonora a que se submete todos os dias na Grande Vitória. “Com certeza, o custo benefício pesa nesse momento. Desço e subo para Domingos Martins todos os dias, há 12 anos, com o maior prazer. Saio de casa todos os dias às sete horas e volto às 18 horas. Essa rotina compensa, porque chego para trabalhar bem mais tranquilo, relaxado e sem estresse”, argumenta o comerciante.

Analista fiscal da fábrica da Refrigerantes Coroa, Leila Vasconcelos foi transferida da sede da empresa, em Domingos Martins, para a filial em Alto Laje, Cariacica, mas permanece morando na região de montanhas. “A empresa me convidou para trabalhar na Grande Vitória. Aceitei, mas disse que não trocaria minha casa, em Domingos Martins, por nada. Encaro a viagem de ônibus todos os dias, mas fico contente em voltar à noite e me deparar com a paz e a tranquilidade de Domingos Martins”, ressalta Leila. Ela e mais nove colegas fazem o deslocamento de Domingos Martins para Cariacica todos os dias e garantem que o desgaste físico da viagem não incomoda. “Não ficamos estressados, porque sabemos que, ao chegar de volta a Domingos Martins, vamos reencontrar a paz do interior”, afirma Leila.

A professora de fotografia Zanete Dadalto sai diariamente de Santa Paula, bairro de característica rural que fica entre a Reserva de Jacaranema e o Jóckquey Clube, em Vila Velha, para dar aula na Faesa, em São Pedro, Vitória. Ela gasta cerca de uma hora para atravessar a cidade, passando pela Terceira Ponte, mas não se arrepende. “Vale a pena porque algo que mais admiro em meu cantinho aqui em Santa Paula é o jeito rural do bairro: o canto dos pássaros, os cachorros brincando no quintal, o pé de jabuticaba… Enfim, meus filhos têm liberdade e paz”, resume Zanete. Para Zanete, o clima de interior ajuda, inclusive, a se livrar das tensões e do estresse diários. “Não convivemos com barulho de trânsito e estamos sempre em contato com a natureza”, afirma a professora.

Outra pessoa que também sabe o que é ter tranquilidade em casa é a administradora de empresas Fernanda Pimentel. Há oito anos, ela, que é supervisora de atendimento do Hospital Metropolitano, trocou o barulho dos grandes centros por uma localidade na zona rural da Serra, no final do bairro Nova Carapina. Fernanda e o marido adquiriram um terreno, onde construíram uma casa e aproveitaram o quintal para plantar coqueiros, pés de carambola, manga, laranja e outras frutas. E ainda possuem criação de aves, gatos e cães. Tudo com um objetivo: aliviar o estresse da profissão. “Meu serviço é muito estressante, porque trabalho no pronto-socorro. Mas quando chego em casa, encontro a paz, brinco com os cachorros, colho frutas do pé, tomo água de coco fresca”, comenta Fernanda. Outra vantagem: a casa dela ainda fica de frente para o Mestre Álvaro, uma das montanhas mais belas do Estado. Fernanda, que tem uma filha de quatro meses, também escapa do caos do trânsito, pois gasta de 15 a 20 minutos de ônibus de casa até o hospital onde trabalha, em Laranjeiras.

O presidente da Assembleia Legislativa, deputado Rodrigo Chamoun (PSB), não troca a tranquilidade e a paz de Guarapari por nada. Ele já teve chance de morar em Vitória e chegou a ter um imóvel na Capital. Entretanto, vendeu o apartamento para ficar definitivamente em Guarapari. “Apesar de ficar muito tempo na estrada, por conta do deslocamento diário até Vitória, eu não abro mão da paz que Guarapari me proporciona. Quando retorno para casa, no final do dia, concluo que valeu a pena. Os fins de semana, com passeio pelas praias e ao lado da família, compensam qualquer desgaste de viagem”, assegura o deputado.

A rotina do deputado de sair todos os dias cedo de Guarapari até Vitória já dura nove anos, período em que ele passou a exercer atividade profissional e política em Vitória – duas vezes como secretário de Estado (Infraestrutura, Transporte e Obras; e Saneamento, Habitação e Desenvolvimento), como presidente da Codesa e como deputado estadual. “Havia noites em que eu ficava até mais tarde trabalhando. Aí, acabava dormindo no apartamento que tinha em Vitória. Mas eu nunca considerava a possibilidade de me radicar por aqui. Tanto que vendi o imóvel para ficar em Guarapari”, diz Chamoun.

E em Guarapari ou em um sítio em Nova Carapina, a tranquilidade de bairros mais interiores e municípios um pouco mais afastados da Grande Vitória, por exemplo, parece mesmo agradar a quem pretende levar uma vida sem tanto estresse, confusão e barulho. Ganha o adepto à essa nova tendência e ganha o seu ambiente de trabalho, onde ele vai atuar, certamente, sem tanta pressão causada por agentes externos a ele.

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