Espaços como a OÁ Galeria e a Galeria Matias Brotas fortalecem o circuito artístico, estimulam o colecionismo local e valorizam novos artistas
Por Jessica Coutinho
Em um cenário ainda concentrado nos grandes centros culturais do país, as galerias e espaços de arte independente têm desempenhado um papel essencial na construção de novos caminhos para a arte contemporânea. No Espírito Santo, a atuação de espaços como a OÁ Galeria e a Galeria Matias Brotas evidencia como iniciativas fora do eixo Rio-São Paulo contribuem para ampliar o alcance da produção artística e conectar diferentes públicos à arte.
Para a diretora da OÁ Galeria, Thaís Hilal, a principal força das galerias independentes está na autonomia curatorial e na liberdade de circulação que oferecem aos artistas. “Esses espaços criam novas possibilidades para a difusão da arte contemporânea, acolhendo produções que muitas vezes fogem dos padrões hegemônicos e fortalecendo ecossistemas culturais mais diversos e acessíveis”, afirma. Além das exposições, ações como encontros, debates e oficinas são pensadas como parte de uma programação que valoriza a formação crítica do público e estimula o diálogo com a arte.
Na avaliação de Hilal, esse tipo de espaço é ainda mais necessário em regiões como o Espírito Santo, onde há poucos equipamentos voltados à arte contemporânea. “Manter espaços independentes ativos é essencial para descentralizar o acesso à arte. As instituições públicas que temos operam com dinâmicas mais rígidas, como editais altamente concorridos. Um espaço independente se torna um lugar de experimentação e acolhimento de propostas que muitas vezes não cabem no museu”, destaca. A venda de obras e o estímulo ao colecionismo local também têm sido caminhos importantes para garantir a sustentabilidade da galeria e dos artistas representados.

Apesar do protagonismo, não faltam desafios. A diretora da OÁ ressalta as dificuldades em formar e manter um público interessado, ampliar o alcance da produção artística e garantir o custeio integral da programação. “Temos buscado inovar, criar parcerias com artistas, instituições e outras galerias e manter presença ativa em feiras de arte contemporânea. Isso nos permite conectar os artistas do Espírito Santo a colecionadores de outras regiões e continuar promovendo arte de forma viva, acessível e engajada”, diz.
A diretora artística da Galeria Matias Brotas, Flávia Dalla Bernardina, destaca que, apesar de se posicionar como uma galeria comercial, a atuação vai muito além da intermediação entre artistas e compradores. “As galerias cumprem um papel importante em todo o circuito: promovem artistas, formam colecionadores, apoiam projetos institucionais, cuidam da obra e da trajetória dos artistas com profundidade”, afirma. Para ela, não se trata apenas de vender arte, mas de criar pontes entre diferentes agentes do setor.

Flávia ressalta que mesmo fora dos grandes centros é possível manter uma atuação relevante. Participações em feiras de arte, como a ArPa, em São Paulo, são vistas como oportunidades para reduzir distâncias geográficas e posicionar a galeria e seus artistas em outros mercados. “É uma forma de nos fazer conhecer por outros colecionadores e também de valorizar os nossos artistas e o Espírito Santo dentro desse circuito ampliado”, explica.

Entre as estratégias adotadas pela Matias Brotas para consolidar sua presença, estão o fortalecimento de vínculos com arquitetos, a criação de um clube de colecionadores e projetos voltados à arte e educação. “A aproximação com a arte demanda tempo, dedicação. É uma escolha que precisa ser feita com autonomia. Nosso papel é abrir janelas para que mais pessoas convivam com a arte e possam fazer suas escolhas com liberdade”, finaliza.
As experiências das duas galerias evidenciam que os espaços independentes não só democratizam o acesso à arte como também desempenham papel decisivo na formação de um público mais crítico, engajado e conectado com a produção artística brasileira, para além dos grandes centros.

