Emanuel Scheffer fala sobre desafios e oportunidades do esporte

Emanuel Scheffer fala dos desafios e oportunidades do esporte nacional
"As histórias de vida registradas em cada medalha, em cada recorde, mostram para nossas crianças e jovens que, sim, é possível chegar lá, é possível um caminho bastante diferente daquele que, via de regra, é apresentado no dia a dia, especialmente para quem tem muito pouco ou mesmo nenhum recurso”

“Todos os atletas que passaram pela integração entre educação e esporte fizeram a diferença na família e na comunidade em que estão inseridos”

Emanuel Scheffer, após assumir o comando do esporte de alto rendimento no Brasil, fala com exclusividade à ES Brasil.

*Por Luciene Araújo

Inúmeras foram as conquistas durante os 25 anos em que Emanuel Fernando Scheffer Rego fez das areias, seu escritório de trabalho ao redor do mundo. Na lista do  multicampeão de vôlei de praia, há um total de 155 títulos. Entre eles, 10 mundiais e três medalhas olímpicas. E também o registro no Guinnes Book, ao alcançar seu 149º triunfo. Mano, como é chamado pelos amigos, superou o norte-americano Karch Kiraly, então detentor da marca no Livro dos Recordes.

Ainda competindo, Emanuel Scheffer se graduou em Marketing e conclui uma pós-graduação em Gestão Esportiva. No ambiente privado, passou dois anos à frente dos esportes olímpicos do Fluminense Football Club. Vivência que o credenciou a ser convidado para assumir a Secretaria Nacional de Esportes de Alto Rendimento. Assim, o atleta decidiu emprestar à política sua vasta experiência na arte de elaborar e colocar em prática planejamentos estratégicos.

O campeão olímpico já morou em Vila Velha, onde esteve no último final de semana de setembro para receber da Confederação Brasileira de Voleibol uma homenagem. A comemoração pelos 15 anos do ouro em Atenas, ao lado do parceiro Ricardo. Nesta entrevista, fala sobre desafios e oportunidades no atual cenário esportivo nacional e expectativas para os próximos anos.

Como recebeu o convite para assumir a Secretaria Nacional de Esporte de Alto Rendimento?

Como se fosse uma convocação. Porque é um momento diferente do esporte nacional, com o rebaixamento de mistério para secretaria e agrupamento de três pastas no Ministério da Cidadania. O desafio é grande, um novo formato, um novo governo.

Primeiramente, fiquei muito satisfeito em poder contribuir neste momento de transição do esporte. E tenho utilizado toda a experiência que adquiri tanto no ramo privado quanto nas quadras e na gestão dos times de vôlei para fazer o melhor trabalho possível à frente das políticas públicas do esporte no Brasil.

Que lições a disciplina do esporte pode trazer à gestão pública?

Em princípio, é a junção de determinação e preparação, com objetivos claros. Em suma, planejamento precisa ser a base de tudo. Busco utilizar todos os recursos que temos disponíveis, mas para isso é preciso entender quais são as atmosferas do momento. Tudo o que acontece ao redor da Secretaria Especial de Alto Rendimento, quais são seus grandes parceiros, confederações, grandes entidades. Enfim, é preciso entender todo este momento que o esporte está vivendo para fazer o diferencial.

Você morou em Vila Velha por dois anos, período em fez parceria com o Aloísio. O que a experiência no ES trouxe de importante à carreira de Emanuel Scheffer?

A grande qualidade do vôlei de praia no Espírito Santo é que o capixaba consegue entender muito bem o momento de trabalhar, ir para a praia, desenvolver toda a parte técnica. Do mesmo modo, sabe o momento de se divertir. Assim, consegue se desvencilhar dessas duas coisas. E esse é um diferencial muito importante.

Nos anos de 1993-94, quando morei no Espírito Santo, em Novo México, Vila Velha, aprendi a fazer isso muito bem. Treinava, sabia que estava fazendo um trabalho sério. Da mesma forma ia à praia me divertir, encontrar com os amigos. Essa habilidade de se ligar e de se desligar da profissão, o capixaba domina. E foi muito importante ter aprendido isso no início da carreira.

A soma de local propício, com ótimas praias, técnicos muito bons e jogadores com paixão pelo esporte mais esse diferencial de saber dosar trabalho e lazer é o motivo que tem gerado tantos grandes talentos no Espírito Santo no vôlei de praia. Aloísio, Loyola, Fábio Luiz, Billy, o Bruno Schmidt, que apesar de ser nascido em Brasília construiu grande parte de sua carreira aqui, uma família. Temos também o Alisson e, mais recentemente, o André Stein, que conquistou a primeira etapa deste ano em casa.

“Planejamento precisa ser a base de tudo. Busco utilizar todos os recursos disponíveis, mas para isso é preciso entender tudo o que acontece ao redor da Secretaria, os grandes parceiros. É preciso entender todo este momento que o esporte está vivendo para fazer o diferencial”

Qual o legado que a Copa-2014 e a Rio-2016 deixou ao Brasil e como evitar os elefantes brancos pós-campeonato?

Após os grandes eventos, vem sempre o debate sobre o legado deixado e também sobre o alto custo de manutenção dos espaços e consequente abandono de muitos deles. E agora o esporte já está com restrição de recursos que havia nos últimos seis ou sete anos para investir. E esse é justamente o momento de se criar políticas públicas para utilizar as áreas que foram construídas. Todos os centros de treinamentos, as piscinas, as pistas de atletismo.

A política pública ideal agora é estruturar programas de incentivo ao uso dessas estruturas, como programas de contratura escolar dentro delas, levar competições para essas áreas. E este tem sido o grande desafio para toda a Secretaria Especial de Esporte, utilizar essas áreas de forma que dê retorno à comunidade esportiva.

Qual a importância do esporte de alto rendimento para o país?

O esporte de alto rendimento é sempre o grande exemplo, é o momento máximo do orgulho nacional. O povo brasileiro gosta de acompanhar e se sentir orgulhoso, bem representado pelos atletas. Só que, nesse alto rendimento, tem uma fase que abriga as categorias de base, que é o grande investimento que devemos ter. Porque é justamente nesse período que o atleta passa dos 13 aos 16 anos.

Nessa etapa é fundamental que os valores de esporte cheguem até os atletas. Entender o que é trabalho de equipe, aprender a perder, superar as dificuldades. Desenvolver a garra e a determinação de sair de uma derrota para chegar à vitória. Aprender os valores da ética, de se respeitar regulamentos, regras.

O alto rendimento constrói uma caminhada, desde o atleta que está começando, às vezes mesmo antes dos 11 ou 12 anos, até chegar a uma Olimpíada. Lógico que nem todo mundo irá chegar. Mas todos têm um caminho de aprendizado dentro dos valores do esporte.

E por que investir em atletas olímpicos?

Porque eles são muito bem construídos, com o envolvimento de confederações, de federações. O esporte nacional nessa fase é muito bem estruturado. Defendo muito a lógica de que, quando você passa por escolas, para depois estar presente nos clubes, em seguida participando de seleções nacionais para disputas internas, e chega às competições internacionais, esse processo cria uma identidade do país.

E acredito muito nesse orgulho nacional que o esporte olímpico nos proporciona. As histórias de vida registradas em cada medalha, em cada recorde, mostram para nossas crianças e jovens que, sim, é possível chegar lá. É possível um caminho bastante diferente daquele que, via de regra, é apresentado no dia a dia. Especialmente para quem tem muito pouco ou mesmo nenhum recurso.

Há anos diversas confederações são denunciadas por corrupção, desvio de verbas e outros graves problemas, sendo que a maioria delas recebe verbas públicas. Como enfrentar essa questão?

Desde 2017, há um movimento de melhora de governança, de transparência e gestão das confederações e entidades administradoras dos desportos. Por meio da Lei Pelé, houve uma mudança, no artigo 18, que passou a exigir mais transparência por parte dessas entidades, alternância na presidência de gestores e de atletas nos conselhos administrativos e nas assembleias.

Uma série de mudanças que aos poucos vêm sendo efetuadas nas confederações, a exemplo da Confederação de Vôlei e do Comitê Olímpico, que já se adequaram a essas novas regras. É um movimento um pouco lento, mas, com essa nova forma de governança, os ciclos olímpicos estarão mais claros, bem como o investimento no atleta. Acredito que as melhorias serão reais na administração das entidades administradoras dos esportes.

“Estamos também fazendo parte dessa contribuição necessária nesse momento em que se busca que a gestão econômica do Brasil tenha uma melhora, que o brasileiro tenha uma melhora na sua vida cotidiana”

O momento é de cortes no Orçamento Federal. O quanto o trabalho na Secretaria de Alto Rendimento é impactado em relação às pretensões em grandes eventos como as Olimpíadas do Japão?

Realmente o momento econômico do Brasil é difícil para termos investimento. E há contingenciamento na pasta do Esporte, da Cidadania, mas em todas as áreas está acontecendo isso. O momento é de conter gastos. Então, nós estamos também fazendo parte dessa contribuição necessária nesse momento. Um momento em que se busca que a gestão econômica do Brasil tenha uma melhora. Se busca que o brasileiro tenha uma melhora na sua vida cotidiana.

Mas, por outro lado, precisamos também de um pouco mais de criatividade, utilizar melhor os recursos que temos. Antes os grandes pedidos de investimentos eram para equipamento esportivo e obras muito caras, de manutenção cara. Agora, o foco é fazer com que o recurso chegue mais às pessoas, à capacitação de recursos humanos, à preparação de atletas, para que eles sejam beneficiados em competições.

E entendo que o treinamento para as Olimpíadas de 2020 tem muito ainda do que foi feito para 2016. Muitos dos resultados que teremos daqui para a frente ainda são reflexo da construção que foi realizada para a Rio-2016.

Vamos falar também do esporte de base, que possibilita a descoberta de novos talentos e é poderosa ferramenta de transformação social. O que fazer para garantir investimentos nas categorias de base?

Um dos trabalhos de sucesso na Secretaria é o Bolsa Atleta, o maior programa de incentivo direto ao atleta do mundo, sendo atendidos 6.149 competidores, em seis categorias. E falando na categoria de base, nós temos três delas. A primeira é a dos atletas entre 14 e 20 anos vinculados aos clubes. Eles podem ser eleitos para receber o Bolsa Atleta assim que passarem pelas competições indicadas na proposta.

Também tem a categoria estudantil, com os atletas vinculados aos projetos escolares e universitários, também entre 14 e 20 anos, com intuito de fomento na carreira deles. E o grande objetivo nosso é fazer com que o atleta possa passar por todas as categorias.

Este é o sonho de todo gestor, fazer com que o atleta comece lá no clube ou na escola, siga para as competições nacionais e consiga participar de competições também internacionais. E depois vá para a categoria atleta pódio, onde ele pode participar de ciclos olímpicos.

Mas o grande fomento é fazer com que atleta possa lá no começo da carreira dele ter condições de se alimentar bem, de ir até o local do treino. É dar infraestrutura para que o atleta de base se mantenha apaixonado pelo esporte que escolheu. Assim, faça o melhor com esse investimento que recebeu do Bolsa Atleta.

“Um dos trabalhos de sucesso na Secretaria é o Bolsa Atleta, maior programa de incentivo direto ao atleta do mundo, sendo atendidos 6.149 competidores, em seis categorias”

Há décadas ouvimos o discurso de se estruturar um projeto que efetive a união entre esporte e educação. O que Emanuel Scheffer pensa sobre essa integração?

Essa integração é fundamental. Na escola, o professor de Educação Física transmite conhecimento. E tem a oportunidade de despertar a paixão no aluno por uma determinada modalidade ou pelo esporte de forma geral. Assim, em um segundo momento ele passa a sonhar que através do esporte pode melhorar sua personalidade.

Da escola, ele parte para um clube, onde tem contato com técnicos e outros profissionais capazes de lapidar o talento. Ele será capacitado para melhor desempenho, consegue chegar mais preparado.

Certamente acredito nesse formato, e todos os atletas que vivenciaram essa integração entre educação e esporte fizeram a diferença na família. E também na comunidade em que estão inseridos. Essa integração cria um sentimento de crescimento tanto educacional quanto esportivo na carreira desses atletas.

A dificuldade em se conseguir patrocínio é uma realidade no meio esportivo, salvo exceções em que o atleta já despontou. O que será feito nos próximos anos para aproximar ainda mais a iniciativa privada do esporte?

Neste tempo que estamos vivendo no esporte, em que há restrição de recursos e financiamentos, o patrocínio se torna crucial em dois momento. Primeiro quando a gente melhorar a governança e a credibilidade das entidades que administram os desportos. E melhorar também os valores que o esporte pode nos proporcionar.

Hoje, uma empresa, para comprar a ideia de uma modalidade, precisa entender quais os valores que estão agregados. Então é necessária uma evolução tanto do esportista quanto da imagem produzida através disso.

E passando esse momento, quando estivermos mais próximos das Olimpíadas, acredito que iremos conseguir vender melhor os esportes e as modalidades. Certamente pensando muito nesse ganho de transparências que as entidades estão tendo estruturar.

Você tem vasta experiência como atleta e também como autoridade brasileira de controle de doping. O que é possível fazer para combater no Brasil esse vício mundial no esporte?

A luta contra o uso de substâncias para ganho mais rápido de performance depende muito da consciência do atleta. No período em que passei à frente da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD) essa foi minha ênfase. Busquei deixar claro que o conhecimento e a educação eram muito mais eficazes do que o aumento de testes em níveis nacional e internacional. Tanto que a parte de educação da ABCD este ano dobrou em relação a 2018. Justamente visando à transmissão desse conhecimento do governo direto às entidades e aos atletas.

Entendo ser essa a única maneira de a gente diminuir os casos de dopagem. A lei da Federação Internacional de Antidopagem é a seguinte: o atleta tem de ter consciência, ele é sempre responsável, o culpado, por qualquer substância proibida que ingerir.

Que mensagem Emanuel Scheffer deixa para quem está ingressando no esporte e sonha com o lugar mais alto do pódio ao redor do mundo?

Primeiramente, para aqueles atletas que estão começando no esporte, almejando conquistas, sonhando com medalhas olímpicas, meu recado é: tenham disciplina. Dificilmente vocês vão começar a treinar agora e ser campeões já no ano que vem. Certamente, essas são as exceções, porque demora o tempo de maturação. É preciso abrir mão de muitos momentos em família, com as pessoas que você ama em prol de treinos, de preparação.

Segundo, com bons profissionais é possível alcançar melhores resultados. E terceiro, não percam a paixão pelo esporte. O que move a gente para treinar todos os dias, saber o que a gente quer, é a paixão. Saber que aquela modalidade que escolheu é a que você tem condições físicas e mentais para ser um ótimo atleta.


 

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