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domingo, 21 DE julho DE 2024

Corinthians e Atlético-MG lideram ranking negativo

No último ano, os clubes da Série A gastaram cerca de R$ 3,4 bilhões com salários e outros R$ 1,4 bilhão com contratações

Cada vez mais presente no dia a dia dos clubes, as finanças são fator crucial no desenvolvimento do futebol brasileiro. Em meio a propostas de investimentos do capital externo pelos direitos comerciais do Campeonato Brasileiro, clubes como Corinthians, Atlético-MG e Cruzeiro continuam como um dos mais endividados do País. Além disso, R$ 6,9 bilhões foram arrecadados só na edição de 2022 da competição nacional.

Palmeiras, Corinthians e São Paulo foram responsáveis por 49% da arrecadação do futebol no ano passado. Mas, pela primeira vez, as dívidas dos clubes bateram na casa dos R$ 10 bilhões. Corinthians e Atlético-MG lideram esse ranking negativo.

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É o que indica o “Relatório Convocados 2023: Finanças, História e Mercado do Futebol Brasileiro”, desenvolvido pelo economista Cesar Grafietti, em parceria com a OutField e Galapagos Capital. O documento aborda aspectos financeiros e organizacionais dos clubes, sendo uma fonte de referência para avaliação do desempenho e sustentabilidade financeira do futebol brasileiro. Os números têm por base os balanços financeiros e folhas de pagamento dos times, divulgados ao longo da última temporada.

A edição contempla o último ano do futebol, que foi o primeiro ao retorno da “normalidade” desde a pandemia. O ano de 2022 também observou o impacto das Sociedades Anônimas do Futebol (SAF) no País: Cruzeiro, Botafogo e Vasco foram algumas das equipes impactadas por esse novo modelo de futebol adotado ainda em 2021.

“O Relatório Convocados é uma importante ferramenta anual para compreendermos a atual situação financeira do futebol no Brasil. Ele fornece dados que nos permitem avaliar o desempenho e a sustentabilidade dos clubes, auxiliando na tomada de decisões estratégicas, seja por parte dos próprios times, seja para auxiliar investidores a entender um mercado complexo e em desenvolvimento”, diz Cesar Grafietti.

No último ano, os clubes da Série A gastaram cerca de R$ 3,4 bilhões com salários e outros R$ 1,4 bilhão com contratações. Em escala nacional, o ano observou um recorde no número de clubes profissionais no País. Contabilizando todas as Federações, 722 equipes disputam algum campeonato em nível profissional. “A lei da SAF possibilitou novos investimentos no futebol, de grupos focados no desenvolvimento da base e clubes de formação. As pessoas também enxergam o valor inteiro no negócio do futebol”, afirma Grafietti.

Arrecadação

Os 20 clubes da Série A acumularam R$ 6,915 bilhões em 2022. O número é ligeiramente inferior aos R$ 6,939 bilhões de 2021, primeiro ano com a volta do público aos estádios após a pandemia da covid-19. Esses valores contabilizam vendas de atletas. Sem elas, houve um aumento de R$ 50 milhões de um ano para outro. Direitos de transmissão (40%) ainda representam a maior fatia desses ganhos.

Dos 20 clubes da Série A deste ano, o Flamengo é o que acumulou a maior receita, com R$ 1,17 bilhão na última temporada. Somado aos ganhos do Trio de Ferro – Palmeiras, Corinthians e São Paulo – em 2022, o valor corresponde a 49% dos R$ 6,915 bilhões totais arrecadados. Na sequência, um grupo de sete clubes representa 35% das cifras totais: Atlético-MG, Internacional, Red Bull Bragantino, Fluminense, Santos, Athletico-PR e Fortaleza.

Flamengo e Corinthians lideram o ranking das receitas recorrentes – que não contabilizam vendas de atletas. Ambos os times aumentaram seus ganhos em mais de 20% ao se comparar com 2021 – 23% e 26%, respectivamente. Os números das equipes são impulsionados pela bilheteria, programas de sócio-torcedor e, novamente, direitos de transmissão. Estes são, justamente, alguns dos argumentos para que as equipes, donas das maiores torcidas do País, recebam mais na composição da nova liga.

Flamengo e Corinthians arrecadaram, respectivamente, R$ 199 milhões e 129 milhões com os programas de sócios e bilheteria na última temporada. Além disso, lideraram a média de público na competição – 51 mil e 38 mil torcedores por partida. A gestora de investimentos americana Serengeti é responsável pela proposta de R$ 4,85 bilhões à Liga Forte Futebol do Brasil (LFF) por 20% dos direitos comerciais de uma eventual liga unificada dos 40 clubes do futebol brasileiro. Esse valor equivale a 60% do arrecadado nas Séries A e B do Campeonato Brasileiro no último ano e indica um momento de virada para o futebol nacional.

Investimentos e desempenho

A última temporada mostrou uma forte tendência dos clubes em investirem em seus elencos profissionais. Em 2022, o valor ultrapassou a casa de R$ 1,3 bilhão, o maior na história do futebol nacional: 46% superior à marca de 2021. Ela foi impulsionada pela SAF do Botafogo, que alavancou seus investimentos em 3880% nos últimos dois anos, e pelo Flamengo.

Investimentos em categorias de base e infraestrutura dos clubes estagnaram no último ano. Ao todo, R$ 455 milhões foram investidos nas áreas no ano fiscal – em 2021, os valores chegaram à casa dos R$ 468 milhões.

Considerando o intervalo dos últimos cinco anos, o Flamengo foi a entidade esportiva que mais investiu em sua base (R$ 184 milhões). No mesmo intervalo, viveu seu período mais vitorioso: duas Libertadores, duas conquistas de Campeonato Brasileiro e uma Copa do Brasil, sustentado pelas receitas geradas a partir da venda de seus atletas – cerca de R$ 560 milhões.

“A gente enxerga um imediatismo desse cenário, em que os clubes têm que ganhar, tendo que contratar jogadores para resolver o problema agora. Muitos vendem o futuro para apagar o passado”, analisa Pedro Oliveira, cofundador da OutField.

Dívidas

De acordo com as projeções do Relatório a que o Estadão tece acesso, a tendência é que a arrecadação da Série A siga crescendo até 2024, até um valor próximo dos R$ 7,7 bilhões. Na mesma medida, a dívida dos clubes deve avançar em uma tendência de aumento, como observada desde o início da pandemia. Em 2022, os valores superaram a casa dos R$ 10 bilhões pela primeira vez na história. Desde 2019, último ano antes da pandemia, houve um aumento de 31% no valor total da dívida dos clubes.

Em 2022, foi observada uma tendência no aumento de despesas e custos dos clubes brasileiros ao longo da temporada: R$ 5,053 bilhões, 9,4% superior em relação ao último anos (R$ 4,6 bilhões). Flamengo, Corinthians e Botafogo são os times que operam suas contas mais acima de suas receitas.

Atlético-MG aparece no ranking como o clube com a maior dívida líquida do futebol brasileiro – cerca de R$ 1,5 bilhão – e é seguido por Corinthians (R$ 1,02 bilhão), que seguem sem solução aparente, e Cruzeiro (R$ 800 milhões). Dentre os clubes da Série A, apenas Flamengo, Coritiba e Cuiabá reduziram suas dívidas no último ano. No caso do time paranaense, isso se deve a um processo de recuperação judicial.

“Não era esperado que tantos clubes tivessem aumentado suas dívidas em 2022, após dois anos impactados pela pandemia”, aponta Grafietti. “Ver o aumento das dívidas surpreende, visto que houve um aumento das receitas dos clubes. Atlético-MG e Corinthians vivem situações delicadas, porque nascem da falta de dinheiro. É algo comum no futebol, que vive uma realidade à parte.”

Como exercício, o Relatório mostra o tempo, levando a receita anual média nos últimos quatro anos, que os clubes da Série A levariam para liquidar suas dívidas. O exercício considera um cenário em 20% desta renda seja utilizada exclusivamente para sanar as dúvidas. O Atlético-MG, com seus mecenas – Rubens Menin, Rafael Menin, Ricardo Guimarães e Renato Salvador -, precisaria de 21 anos para se livrar de seu déficit bilionário.

Além do clube mineiro, dono da maior dívida do País, Cruzeiro, Botafogo e Vasco, as SAFs, levariam entre 17 e 20 para liquidar suas contas. Isso se deve ao fato de, nestes casos, somarem-se as dívidas do futebol e das associações. Além disso, no caso do time de Minas Gerais, as receitas foram impactadas pela disputa da Série B, com repasses dos direitos de transmissão e patrocínios inferiores à elite do País.

Todos estes clubes têm suas dívidas classificadas como “preocupantes”, de acordo com o Relatório. Na mesma linha, o Corinthians é o clube, dentre os quatro grandes do Estado de São Paulo, que levaria mais tempo para sanar seu balanço: nove anos e cinco meses, para uma dívida líquida de R$ 1,03 bilhão. A diretoria corintiana foi contatada para se posicionar sobre as finanças, mas não respondeu à reportagem antes de sua publicação Caso venha a receber uma resposta, a matéria será atualizada.

“Quando são necessários 20 anos para sanar as dívidas, é possível perceber a complexidade da situação. Não existe esses prazos na realidade, mas o ideal é haver uma readequação das dívidas a curto e longo prazo”, detalha Grafietti. “É até injusto comparar a situação de Cruzeiro e Botafogo com outros clubes, já que passam por um processo de reestruturação de suas dívidas após se tornarem SAF.”

John Textor, dono do Botafogo, criticou a lei da SAF no início deste ano. “Ela está quebrada. Não funciona. Começamos a controlar o clube no dia 11 de março, e desde o começo sentimos que os juízes e as cortes brasileiras não tiveram cuidado em interpretar a lei como ela foi criada”, criticou o empresário ao site Fogão Net. “Acredito que temos que cuidar da SAF e não nos preocuparmos com os problemas do passado. Todos os credores têm que estar dentro do Regime Centralizado de Execuções, tendo seu pedacinho daqueles 20% da Lei da SAF, e não interferir na operação do futebol.”

O valor do time alvinegro é classificado como “ponto de atenção” pelo Relatório, pois se sustenta em um sucesso esportivo e aumento de receitas na última temporada, quando o time chegou à final da Copa do Brasil, quartas da Libertadores e quarto lugar no Brasileirão. Em 2023, a tendência é que as dívidas aumentem, visto que o time não vive um bom momento e deve terminar o ano sem títulos.

São Paulo e Santos têm situações mais favoráveis, cerca de sete anos para suprir suas dívidas neste cenário. Dentre os grandes do Estado, o Palmeiras é o que tem a situação mais favorável e sanaria suas dívidas em até três anos caso seguisse esse modelo teórico proposto pelo Relatório. Com informações Agência Estado

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