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terça-feira, 23 DE julho DE 2024

Conscientização como ferramenta no enfrentamento ao feminicídio

Em 2022, os casos de feminicídios caíram em mais de 30% e números se repetiram em 2023. Conscientizar agressores pode ter colaborado com o resultado

Por Patrícia Battestin

O Espírito Santo já foi considerado o lugar mais perigoso para as mulheres no Brasil. Essa era a realidade de 2013 segundo pesquisa divulgada na época pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Os dados apontavam que o índice de mortes femininas por violência doméstica no estado era de 11,24 para cada 100 mil mulheres. Muito acima da média brasileira que era de 5,82.

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Em 2017, o estado ficou na terceira colocação no ranking. A taxa no Espírito Santo foi de 2 mortes a cada 100 mil mulheres. A taxa no país era de 0,5. Quatro vezes menor do que a registrada em solo capixaba.

Essa realidade continuou passando por transformações, até que em 2022 o índice caiu em mais de 30%, quando comparado ao ano anterior. A cidade da Serra, por exemplo não registrou nenhum feminicídio no período, de acordo com dados divulgados pela Polícia Cívil.

Em 2023, os números do ano anterior se repetiram. O Governo do Estado prometeu intensificar seus programas de proteção à mulheres.

Segundo a delegada e especialista em segurança pública, Gracimeri Gaviorno, as políticas voltadas para conscientização e redução da violência doméstica podem ter grande influência nos avanços contra esse tipo de crime.

“Quando assumi como Delegada Chefe da Policia Civil em 2015, os dados da violência contra a mulher no Espírito Santo eram uma de nossas maiores preocupações. Percebemos que o acolhimento a mulher vítima de violência era insuficiente para impedir novas agressões. Muitas vezes o agressor era afastado do lar e encontrava outra companheira que passava a ser a nova vítima de agressão”, lembrou Gracimeri.

Homem que é Homem

Entendendo a realidade e dificuldade das vítimas foi iniciada uma busca por soluções por outros caminhos. Mudar a cultura do machismo e conscientizar os homens foi uma das soluções encontradas. Com isso surgiu o Programa Homem que é Homem da Polícia Civil, onde o agressor passou a ter a possibilidade de refletir sobre as diferenças de gênero, sua responsabilidade na construção de uma sociedade de paz e descobrir que é possível desenvolver formas não violentas de resolução de conflitos.

“Esse programa ajudou a tirar o Estado do ranking nacional de violência contra a mulher e foi uma das iniciativas que levou o Brasil a receber do BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento o Premio Governate 2016. A iniciativa também chamou a atenção dos britânicos e o Jornal The Guardian esteve no Estado para conhecer o projeto”, disse a delegada.

Foco na prevenção

Conscientização como ferramenta no enfrentamento ao feminicídio
“É muito triste saber que as mulheres vítimas de violência ainda sofrem com o abandono social”, disse Gracimeri Gaviorno. Foto: divulgação Governo do Estado.

Na Secretaria de Politicas Públicas para as Mulheres da Serra, Gracimeri participou da criação do projeto Empenhados pela Paz. Nesse programa o foco foi na parceria com os Barbeiros. “A ideia era capacitar os profissionais dos estabelecimentos frequentados por públicos tipicamente masculinos para que fossem parceiros no enfrentamento a violência contra as mulheres. Primeiro foram os barbeiros e a adesão foi excelente. Depois foram as industrias que abraçaram o projeto”, contou Gracimeri.

E a ideia deu muito certo. “Passamos todo o ano de 2021 visitando estabelecimentos e empresas. O projeto deu tão certo que durante o ano de 2022 me faltou agenda para atender a demanda. E a agenda de 2023 foi bem extensa. A maioria das minhas palestras são para homens, que estão se interessando cada vez mais pelo assunto”, frisou a delegada.

Em 2022 tivemos um avanço. Nenhum registro de feminicídio na Serra é um dado a se comemorar. Neste ano, o governo criou as Salas Marias nas delegacias, que Glacimeri avalia como uma grande vitória das mulheres. “As mulheres do ES alcançaram mais uma vitória: a inauguração das Salas Marias em Delegacias Regionais da Grande Vitória. A implantação dos espaços é um passo importante na luta contra a violência de gênero. A proposta é que essas salas ofereçam um ambiente acolhedor e especializado para as vítimas de violência, possibilitando que as mulheres possam relatar os abusos sofridos, sem medo e/ou constrangimento. A capacitação de servidores para tratar esse tipo de ocorrência é fundamental para o sucesso da inciativa”, disse em artigo da ES Brasil.

Mas segundo a delegada, precisamos avançar ainda mais nas políticas de proteção às mulheres. “Só para termos uma ideia, começamos a trabalhar esse dado a partir de 2015 quando surgiu a lei do feminicídio. Mas até hoje o Brasil não conhece os números de feminicídio tentado. Só para ter uma ideia, a Lei Maria da Penha foi um importante marco no enfrentamento a violência contra a Mulher. A Maria da Penha sofreu pelo menos duas tentativas de homicídio praticadas por seu marido. Aqui na Serra, a Marciane ficou conhecida porque teve 90% de seu corpo queimado, perdeu a perna e as mãos, teve seu corpo todo deformado, pois seu companheiro também tentou matá-la. No julgamento do caso, ela só não estava sozinha porque um grupo de mulheres que eu coordeno chamado Maria Vai com as Outras a acompanhou. É muito triste saber que as mulheres vítimas de violência ainda sofrem com o abandono social”, finalizou.

*Matéria publicada originalmente em 19 de janeiro de 2023 e atualizada

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