Capixaba, Thaís Roxo transformou a dor em força e encontrou na corrida um símbolo de renascimento e superação. Curada do câncer, ela se destaca no esporte
Por Thamiris Guidoni
Em cada passo dado na Maratona do Rio, a capixaba Thaís Roxo revivia a trajetória que a transformou. O dia da prova, 22 de junho, não foi uma data qualquer: foi o mesmo dia em que, anos antes, ela recebeu a alta de cura do câncer.
“Coincidentemente, a Maratona do Rio deste ano caiu exatamente no dia em que recebi a alta de cura do tratamento, dia 22 de junho, foi como um marco simbólico de renascimento e superação”, contou.
A corrida entrou em sua vida como um novo começo, após o fim de uma das batalhas mais difíceis que já enfrentou.
“Antes do tratamento eu praticava outros esportes, mas a corrida veio depois. Encerrei o tratamento em junho de 2018.” Hoje, Thaís corre por prazer, mas também como celebração da vida, e cada quilômetro percorrido é um lembrete do quanto ela venceu.”
Entre a perda e o diagnóstico

A história de Thaís é marcada por coragem e fé. “Minha família é original de Barra Mansa/RJ. Meus pais são falecidos. Meu pai faleceu quando eu tinha 3 anos, e minha mãe faleceu devido a um câncer, em janeiro do mesmo ano em que recebi o meu diagnóstico.”
O processo de acompanhar a doença da mãe foi doloroso e transformador. “A minha mãe teve um câncer no estômago com metástase no esôfago e peritônio. Foi tudo muito rápido: do diagnóstico ao falecimento se passaram cerca de seis meses. Um período ao mesmo tempo devastador e cheio de amor. Ali, eu fui mãe da minha mãe.”
Meses após essa despedida, em novembro de 2017, foi a vez de Thaís receber um diagnóstico oncológico. “Minha mãe faleceu em janeiro de 2017, e eu recebi meu diagnóstico em novembro do mesmo ano. Não era o mesmo tipo de câncer, mas foi um ano marcado por dor e transformação”, recorda.
A rotina de Thaís era intensa. “Eu sempre fui muito ativa, tanto no trabalho quanto nos esportes. Na época, praticava canoa havaiana, malhava e trabalhava com eventos.”
Foi durante um treino na canoa que percebeu que algo não estava bem. “Em outubro de 2017, durante um treino, senti dificuldade para respirar e uma sensação de que minha veia ia explodir. Surgiram várias veias e vasinhos no pescoço, braço direito e seios. Subir um lance de escada era quase impossível.”

Os sintomas se agravaram rapidamente. “De um dia para o outro, acordei irreconhecível de tanto inchaço no pescoço, braços e rosto. Comecei a procurar ajuda médica, mas no hospital e na UPA me diagnosticaram com alergia e me medicaram. Inicialmente parecia melhorar, mas ao dormir, o inchaço retornava, porque o tumor pressionava a veia cava principal, impedindo a circulação normal e reduzindo a oxigenação.”
A descoberta do câncer aconteceu após o alerta de uma médica amiga da família. “Ela solicitou imediatamente uma tomografia. Com o exame em mãos, recebi o diagnóstico e fui direcionada ao meu médico.”
Naquele momento, Thaís sabia que precisava reagir com rapidez. “O que eu precisava era agir rápido. O tempo urge, a doença evolui rapidamente. Não era hora de lamentar, mas de agir. O diagnóstico já estava ali, e sabia que tinha cura. Eu faria tudo para alcançar isso.”
Tratamento, fé e amizade

Durante o tratamento, Thaís viveu dias intensos, de dor, mas também de amor. “Minhas amigas se uniram e criaram uma escala de dias e horários para me acompanhar, sem que eu soubesse. Foi a maior surpresa da minha vida.”
O processo exigiu disciplina e paciência. “As quimioterapias eram intensivas, internadas, de domingo a sábado. O tratamento queima a veia, formando hematomas, e requer paciência e força para suportar os efeitos”
A fé foi seu alicerce. “Fechei os ouvidos para receitas milagrosas e segui 100% o meu médico, que além de excelente profissional, é sensível e transmite segurança ao paciente.”
Mesmo com os efeitos colaterais, como a queda de cabelo, Thaís encontrou uma forma de transformar dor em força.
“Escolhi raspar o cabelo em um momento simbólico, com amigos, transformando o ato em celebração e renascimento. E descobri que me sentia bonita carequinha, algo que nunca havia imaginado.”
Quando perguntada se pensou em desistir, ela é firme: “Não, nunca pensei em desistir. Sou teimosa e persistente. A fé me sustentou, e senti a força das orações de muitas pessoas, além da presença espiritual da minha mãe. Deus foi meu apoio constante.”
Do tratamento à linha de chegada

Depois da cura, veio o recomeço. “Me considerei corredora de fato quando uma amiga me convidou para a prova Garoto, em setembro de 2022. Sempre quis participar, e a corrida me proporcionou superação, disciplina e momentos de meditação.”
Para Thaís, o esporte é mais do que atividade física, é terapia, fé em movimento e gratidão. “O duro não é a prova, mas o processo, igual ao ciclo do tratamento oncológico. Treinar exige disciplina, abrir mão de conforto e sacrifícios, mas a recompensa é indescritível.”
Ao cruzar a linha de chegada da maratona, ela reviveu o mesmo turbilhão de emoções de quando recebeu a notícia da cura. “Foi inexplicável. Semelhante à sensação de receber alta do tratamento: um turbilhão de emoções, orgulho e superação.”
Novos sonhos, novos caminhos

Hoje, com saúde e brilho nos olhos, Thaís segue sonhando alto. “Sou muito sonhadora: quero conhecer o mundo, formar uma família, casar, ter filhos e prosperar profissionalmente. Sonho em me tornar triatleta; já participei de algumas provas de aquathlon e quem sabe vem aí uma nova aventura.”
De paciente oncológica a maratonista, Thaís carrega no peito a certeza de que a vida é um presente — e que o amor, a fé e o movimento curam.
“A corrida me fez sentir viva novamente. Cada passo é uma oração, cada quilômetro é uma conquista. A linha de chegada é apenas o começo.”

