O declínio dos sistemas hierárquicos e o poder da sociedade em rede

Estrategista sênior cultural, Max Nolan é especialista em publicidade, branding e marketing. Com mais de 14 anos de experiência em construção de marcas, é considerado como uma das referências do país nas novas formas de organização do trabalho. Iniciador das redes MaturityNow e Hoffice São Paulo, Max Nolan também é fundador da Dervish Cultural Insights, empresa sem sede e equipe fixa, que é constituída por uma rede de consultores empreendedores que colaboram e acreditam na mesma filosofia de trabalho. O especialista fala nessa entrevista sobre o declínio dos sistemas hierárquicos e sobre o poder da sociedade em rede, além dos projetos colaborativos de autogestão, que tendem a se intensificar ainda mais no mercado profissional.

Do que se trata o laboratório prático “Love Works, Descobrindo a nova carreira em rede”?

Há muitos anos que eu venho interessado em saber como as pessoas podem ser mais felizes no trabalho e durante esse tempo sempre fiquei incomodado com o modelo de gestão das organizações, que é bastante burocrático e com muito cacique para pouco índio. Quando resolvi sair da empresa em que trabalhava, fui empreender e acabei replicando sem querer um pouco desse mesmo modelo, que até então era o único que eu conhecia. Quando me dei conta disso, comecei a estudar novas formas de empreendedorismo e passei a frequentar uma casa colaborativa em São Paulo que era de livre acesso, onde as pessoas tinham autonomia e as portas estavam sempre abertas para novos profissionais. Esse experimento social me despertou para uma nova forma de gerir as organizações, o que me fez entender que nós estávamos vivendo uma transição da era industrial para a era digital. A partir daí, comecei a aplicar essa nova realidade na minha empresa, o que fez com que as pessoas ficassem interessadas sobre o funcionamento desse tipo de gestão. Quando comecei a ser muito demandado, resolvi criar esse workshop para orientar as organizações e as pessoas.

Como funciona a Dervish Cultural Insights, empresa sem sede, CNPJ, equipe fixa e contrato de trabalho?

A Dervish é uma organização em rede, como se fosse uma comunidade. A empresa é muito inspirada nos coletivos de artistas e nas cooperativas de antigamente. Ela não tem funcionários, chefes e não conta com cargos fixos: o que temos são profissionais seniores no mercado que resolveram se juntar. A empresa também não possui uma conta bancária única, o dinheiro é distribuído na conta dos sócios (25 no total), cada um com o seu próprio CNPJ. Se tivesse apenas o meu CNPJ, os sócios que convidei para trabalhar comigo não iam querer ter a mesma dedicação, porque entenderiam que estariam construindo algo para mim e não para eles. Acreditamos em valores como ética, transparência e confiança, e todos os sócios têm poder para tomar decisões, com uma autonomia de verdade. É uma organização de todos, onde o poder é distribuído, mas é óbvio que a Dervish é um caso muito atípico: em nenhum momento recomendo que as empresas atuais mudem logo para esse patamar.

A autogestão pode trazer desvantagens, como a demora para concluir tarefas e projetos que sofrem com a falta de liderança?

Quem já experimentou trabalhar em um projeto sem hierarquia fixa sabe que muitas vezes o conflito aparece e por não saberem quem é o responsável por dar as ordens, as pessoas acabam tendo dificuldade de agir em determinadas situações. Para tentar compreender o máximo esse assunto, comecei a me aprofundar sobre a existência das leis sistêmicas – identificadas por Bert Hellinger – que regem a nossa vida. O escritor extraiu essas idéias estudando muito a fundo as tribos zulus da África do Sul, que tem um senso de comunidade muito grande. Foi aí que eu entendi que os conflitos que eu vivenciava junto aos meus sócios, aconteciam quando as leis sistêmicas não eram respeitadas.

Qual a melhor forma de lidar com esses entraves?

Para ter um ambiente onde todas as pessoas se respeitem é importante ficar atento às essas leis sistêmicas, que se dividem em três. A primeira delas é a ordem, ou seja, quando você está em um projeto existem várias outras ordens que precisam ser respeitadas, desde a idade (respeitando os mais velhos) passando até pela experiência profissional (o quanto essa pessoa é sênior e uma autoridade em determinado assunto). A segunda lei fala sobre o equilíbrio entre o receber e o dar, pois é muito comum as pessoas quererem entrar em um determinado projeto somente para sugar e extrair, sem colocar a mesma energia para contribuir. Isso acaba provocando certo desequilíbrio. A terceira lei destaca a importância do pertencimento. Alguns profissionais que não temos afinidade no ambiente de trabalho podem acabar ficando excluídos, não sendo convidadas para almoços e reuniões, por exemplo. Colocar uma pessoa na geladeira não é legal e isso pode de certa forma trazer algum prejuízo para a empresa.

Além dessas três leis sistêmicas que ajudam no dia a dia da empresa, qual seria o perfil do profissional para trabalhar em rede? Existem características específicas e que são importantes?

É preciso ter muita ética, pois o vínculo que se cria entre as pessoas se dá por reputação. Se eu não for bem visto no mercado, as pessoas não vão me chamar para projetos colaborativos. Também é muito importante que os profissionais sejam transparentes e tenham certa maturidade emocional, pois numa empresa tradicional, os conflitos acabam se resolvendo pela hierarquia. Nos modelos de rede, as coisas precisam ser resolvidas na base da conversa e da troca, buscando o entendimento de ambas as partes. É preciso ter maturidade para se comunicar de uma maneira não violenta e saber estar disposto a ouvir uma outra opinião, mesmo que as suas necessidades não estejam sendo atendidas. Outra característica relevante é o autoconhecimento, saber o quanto você pode contribuir com determinado projeto, podendo desempenhar funções além da sua, como no caso de alguém que entenda de finanças e que pode contribuir com funções de um RH, por exemplo.

Qual o impacto disso na realização pessoal e profissional do trabalhador?

A realização é muito maior e o primeiro efeito que vejo é na felicidade das pessoas, que normalmente trabalham com projetos que tenham a ver com o propósito delas. Ninguém está ali por obrigação e o legal é que os profissionais se sentem mais empoderados e com autonomia para tomar decisões e não ficar somente seguindo ordens. Outro ponto interessante é que essas pessoas acabam ficando mais criativas, o que contribui para um melhor trabalho.

Por muitas vezes, grandes ideias empreendedoras não são levadas a diante devido à falta de investimentos. Com essa nova forma de organização do trabalho é possível que com que isso mude, pelo menos um pouco?

As organizações em rede acabam dependendo mais do capital humano e social do que somente do capital financeiro, embora eu não goste de excluir o dinheiro da jogada, pois ele é uma energia muito importante para criar movimento e troca. A carreira em rede não deve ser vista com esse propósito de conseguir fluir sem investimento, mas é claro que as pessoas quando se juntam conseguem realizar muito mais. É aquela velha história: sozinhos somos fracos e juntos somos mais fortes.

Como deverão funcionar os novos modelos organizacionais para que acompanhem o poder descentralizado das redes de produção?

Ainda é difícil dizer como essa transição vai ocorrer, mas eu acredito que ela vá acontecer de diversas formas, tanto de baixo para cima, quanto de cima para baixo. O que eu vejo, é que essa nova geração de jovens já não quer mais trabalhar no modelo tradicional, eles estão empreendendo mais e a tendência é que ocorra um maior engajamento em modelos interdependentes e colaborativos. Também vejo líderes se questionando e entendendo que não dá mais para sustentar essa folha de pagamento enorme, procurando um modelo mais flexível e leve.

Já que a tendência é a carreira em rede, como ficam as funções desempenhadas pela área de Recursos Humanos?

Eu dei uma palestra há mais ou menos um mês, na Associação Brasileira de Recursos Humanos de São Paulo, na qual eu falei sobre o futuro do trabalho e o inevitável fim do RH. Na verdade, era mais uma brincadeira para mostrar que essa área precisa se reinventar. O RH vai mudar completamente, saindo desse modelo da era industrial, que é mais burocrático, para fazer muito mais. Acredito que os profissionais da área serão mais responsáveis pelo desenvolvimento humano, tendo um papel importante para sustentar a comunidade e a energia, buscando o engajamento de todos.

O nível de desemprego se encontra muito alto devido à crise político-econômica que se abateu sobre o Brasil e por conta disso, muitos profissionais estão tendo que se aventurar no mundo freelance para não ficarem de fora do mercado. Essa é uma tendência que deve aumentar ainda mais nos próximos anos?

Esse movimento ainda está no seu início. Em São Paulo, têm muitas pessoas saindo das empresas para se tornarem consultores freelancers dessas mesmas organizações. As empresas estão ficando mais enxutas e horizontais e para própria sobrevivência, precisam ficar mais leves também. Vale a pena prestar a atenção nas startups, além de buscar apoio em outras organizações e profissionais.

Você acredita que ainda existe certo receio por parte das empresas em relação ao trabalho home office?

Acredito que sim, tanto que ainda existem plataformas que de alguma maneira ajudam a controlar o funcionário a distância, mostrando se ele está online ou não, e fazendo com que sejam preenchidas planilhas com a pauta de Jobs. Isso mostra que não existe certa confiança de que o colaborador está trabalhando, mas eu acho que é uma transição natural, pois é difícil abrir mão do controle. Com o tempo, os benefícios do home office vão ficar mais visíveis e as empresas vão ver que o colaborador vai trabalhar mais, sem perder o foco e sem ficar horas parado no trânsito. O tempo virou um recurso muito importante, então é bom saber gerenciá-lo.

Em sua apresentação, você fala que essa nova era será do trabalho colaborativo e de certa forma, inseguro. O que quis dizer com essa insegurança?

Se você trabalha em rede, o que se pressupõe é que não existe certa estabilidade, pois você sempre vai estar trabalhando com pessoas diferentes, seja colaborando em projetos diversos ou até mesmo em diferentes organizações. Se decidir ir por esse caminho, é importante saber que essa é uma decisão de não ficar na zona de conforto do salário estável. É preciso ter coragem e estar disposto a se aventurar.

Como você enxerga o mercado de trabalho em 2020? Ele será muito diferente do que é agora?

A revista Fast Company fez algumas previsões de que até 2020 mais de 50% da mão de obra americana será composta por freelancers e por profissionais do gig economy. Estão surgindo diversas plataformas onde as pessoas postam tarefas e desafios que precisam de colaboração para ser resolvidos. As questões estão tão complexas atualmente, que elas precisam de uma inteligência coletiva para ser resolvidas. É uma grande tendência que também pode vir a acontecer no Brasil.

Gostaria de deixar algum recado para as empresas e para os profissionais que desejam se “aventurar” no trabalho em rede?

Para as organizações, não vai ter jeito: elas vão precisar mudar se quiserem sobreviver. Se tornando muito mais horizontais e dando mais autonomia para os seus funcionários, para poderem ter uma mudança real que irá responder a uma necessidade dos clientes. Se mantiverem essas estruturas pesadas e hierárquicas, elas também vão perder funcionários, que irão buscar outros lugares para trabalhar. É preciso entender as leis sistêmicas e fazer com que seus colaboradores também as compreendam. Para os profissionais, a minha dica é que quando resolverem fazer essa transição, não empreendam sozinhos. Colabore em vários projetos, atue em várias causas e experimente o que mais faz sentido para você. Lembrando mais uma vez da importância das leis sistêmicas, pois sem elas a colaboração não acontece.

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