Hugo Musso: Polivalente, conciliou ternura com trabalho

A época era outra, e não havia lugar para pessoas fracas. Somente os bravos e determinados conseguiam vencer os desafios que a natureza lhes impunha. Algumas poucas enfrentaram a adversidade conciliando trabalho árduo de suas mãos ásperas com o sonho romântico de seus corações.

Nosso personagem, Ugo Eugênio Musso, foi um desses homens destemidos que romperam barreiras para a maioria intransponíveis e teve seu nome gravado no panteão dos pioneiros que formataram o futuro do nosso Estado. Em 1870, o litoral capixaba possuía apenas três cidades e 10 vilas, isoladas pela mata virgem e acossada por índios agressivos. A imigração europeia passou a ser política de Estado para povoamento e aproveitamento das terras para atividade produtiva. Em fevereiro de 1874 chegaram ao Espírito Santo os primeiros imigrantes italianos: 384 pessoas, após penosa viagem cruzando o oceano, se fixaram num espaço considerado até então uma grande interrogação.

Três anos depois, em setembro de 1877, o navio a vapor “Presidente” aportou no Rio de Janeiro com 445 ocupantes provenientes da comuna de Marsaglia, região do Piemonte. Entre eles, a família Musso – o casal Musso Antonio e Giacintha Seghesio e seus filhos, Poncio Giuseppe, Luigi Ferdinando e Giuseppina, todos com menos de 8 anos. Seu destino final era o nosso Estado, uma gleba localizada no Núcleo Abreu Lima, primeiramente denominada Colonial Santa Cruz, mais tarde Conde D’Eu, depois Pau Grande e finalmente Ibiraçu.

Ugo, da terceira geração dos Musso, nasceu na província de Ferrara, na Itália, dia 5 de outubro de 1922, filho de Antônio Cesar Musso, neto do patriarca Musso Antônio, e de Maria Amelia Magli.
Em 1930, a família voltou ao Brasil para se radicar definitivamente em Vitória. A fascinante história de Ugo (Hugo) Musso mostra aos brasileiros como determinação e sonho não são irreconciliáveis.
Muito jovem, por motivos econômicos, ele deixou de estudar para entrar no mercado de trabalho.

Trabalhou algum tempo numa farmácia, voltou a estudar na Academia de Comércio de Vitória, praticou marcenaria, foi barbeiro, balconista e comerciante. Inquieto, sempre buscando novo espaço para sua formação como cidadão atuante, tornou-se fotógrafo de uma loja especializada – o Empório Capixaba, gerenciado pelo italiano Nestor Cinelli, onde aprendeu a fazer revelações, ampliações e reprodução fotográficas de filmes produzidos por amadores. Foi ali que conviveu com Jamil Merjane, mestre da arte que marcou época na história da fotografia entre nós.

Eclético e polivalente, foi mecânico de automóveis e motocicletas

Ao se casar com Úrsula Meyer, na Igreja do Rosário, em Vila Velha, Ugo Musso surpreendeu a esposa com os modernos e belos móveis para a casa onde iriam morar, por ele confeccionados, marceneiro que um dia fora. Sensível, romântico, poeta, entoava canções de amor em serenatas para a namorada e futura esposa Úrsula, à época trabalhando na seção de contabilidade da Chocolates Garoto. O que a maioria de nós ignora é que uma das guloseimas mais apreciadas pelos amantes de chocolate deve seu nome ao lirismo do apaixonado menestrel.

“Serenata de Amor” foi o desdobramento de uma história que levaria dois jovens a se completarem numa união que daria tantos e bons frutos… Seis filhos, sendo três médicos, um formado em Letras e dois em Engenharia, formam o legado capixaba do clã dos Musso. Sua vocação maior, porém, era mesmo a arte fotográfica. Foi um dos idealizadores e fundadores do Foto Clube Capixaba, do qual assumiu o cargo de diretor técnico.

Mais tarde, montou seu próprio negócio, a Foto Musso, localizada na Avenida Capixaba, hoje Jerônimo Monteiro. O estabelecimento funcionou por mais de 30 anos no prédio de dois andares onde também se instalara a antiga Companhia Telefônica do Espírito Santo. Entre fotografias no estúdio, reportagens de casamentos e batizados, registrou para a história a construção das BRs 262 e 101 Norte e da Segunda Ponte (Vitória a Vila Velha) e as obras realizadas durante a gestão do prefeito Max Mauro, daquela cidade.

Cidadão honorário de Vila Velha, considerava-se filho adotivo do Espírito Santo, e como tal se mostrava preocupado com o desenvolvimento do Estado e cobrava maior empenho das autoridades para melhorar as condições de mobilidade nas ruas da cidade. Mais de uma vez, emprestou sua participação pessoal para reparos e manutenção de vias públicas e obras de drenagem.

O nosso personagem e sua marcante trajetória na vida da cidade levaram a Câmara dos Vereadores de Vila Velha, em 1978, a renomear com seu nome a Avenida Vitória. A Avenida Hugo Musso tornou imortal, na memoria dos capixabas, o nosso grande benfeitor, falecido jovem, aos 55 anos de idade, em 23 de setembro de 1978. Todos os que cruzam a Avenida Hugo Musso têm, pela saga vivida pelo nosso homenageado, mil motivos para reverenciar os feitos de um dos maiores capixabas que a Itália nos legou.

(Copidesque: Rubens Pontes)

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