China e EUA: quando o macaco esconde o rabo para falar do rabo do outro

O enfrentamento entre EUA e China é um risco. Sobretudo porque intransigência nunca acaba bem.  E é uma falácia. Porque se acusam  de erros que ambos cometem
Arilda Teixeira é Economista e professora da Fucape

O enfrentamento entre EUA e China é um risco. Sobretudo porque intransigência nunca acaba bem.  E é uma falácia. Porque se acusam  de erros que ambos cometem

É, portanto, uma encenação de dois concorrentes, que adotam atitudes similares em suas relações comerciais internacionais, mas julgam-se vítimas dos erros do outro.

Ou seja, estão como aquele macaco que sentou em cima do rabo para falar do rabo do outro.

Isto é o que está por traz do embate entre esses dois países; e nos demais embates entre membros da OMC.

Todos querem o multilateralismo. Mas da sua porta para fora.

Desse jeito, não há diplomacia que consiga instalar e sustentar uma ordem de comércio multilateral.

Esta corda está esticada, pelo menos, desde o início da Rodada do Milênio, nos anos 2000. E esticou mais ainda com os efeitos da crise financeira de 2008 sobre os mercados desenvolvidos, a subsequente redução do crescimento mundial e a ameaça do desemprego estrutural que o atual paradigma tecnológico trouxe.

A conjuntura econômica desse período disseminou o raciocínio de que se a farinha é pouca, meu pirão primeiro.  No seu rastro, o discurso nacionalista foi gradativamente sendo resgatado, e com ele o protecionismo ganhou força.

Todos se dão ao direito de proteger seus mercados, e de criticar e/ou retaliar os outros que protegem o seus.

O embate entre EUA e China é a mais explícita tradução dessa realidade.

Sob acusações mútuas de práticas desleais de comércio, imposição de cotas de importação, tarifas sobre importações, e processos na OMC, esses dois gigantes do comércio internacional ameaçam a ordem do multilateralismo que vem sendo construída, a passos lentos e a duras penas, desde o pós-guerra.

A despeito da defesa diplomática do multilateralismo, e de um pretenso desconforto que o embate entre EUA e China possa causar, até as areias da praia sabem que, na prática, muito pouco se avançou em termos de liberalismo comercial desde a instituição da OMC. No máximo, o que se fez até agora foi substituir barreiras tarifárias por barreiras não tarifárias; e ter aberto um tribunal para discutir controvérsias.

Essa morosidade explica-se exclusivamente pela dificuldade de os países membros da OMC saírem da retórica em prol do livre comércio, e adotarem atitudes de livre comércio.

Os países desenvolvidos pressionam pela abertura dos mercados emergentes para suas exportações de capital (tecnologia) e a regulação dos direitos de propriedade nos mercados emergentes; enquanto subsidiam suas produções de commodities e aumentam exigências técnicas e fitosanitárias – barreiras não tarifárias de comércio.

Os emergentes pressionam pela abertura dos mercados desenvolvidos às suas exportações de commodities; enquanto recorrem a salvaguardas e subsídios para protegerem suas indústrias de transformação, alegando concorrência desleal.

Todos rechaçam atitudes protecionistas. Mas mantêm as suas.

Estão sentados em cima de seus rabos, falando dos rabos dos outros.

Nessa direção, caminhamos para a extinção da OMC e do retorno ao beggar your neighbor.


Arilda Teixeira é Economista e professora da Fucape


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