Prática entre funcionários já é identificada por empresários e a doença, reconhecida pela OMS, apresenta riscos para o orçamento pessoal
Por Kikina Sessa
A facilidade em fazer uma “fezinha”, proporcionada pela tecnologia e pela regulamentação, aumentou o número de pessoas que fazem apostas em busca da sorte. Apenas o setor de apostas online cresceu 734,6% entre 2021 e abril deste ano, de acordo com levantamento da plataforma de análise de dados Datahub.
Uma pesquisa realizada pelo Departamento de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP) aponta que o Brasil possui uma média de dois milhões de pessoas viciadas em jogos. Assim, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o jogo compulsivo é como uma doença, ao lado da dependência de álcool, por exemplo. O termo técnico para a patologia é ludopatia, um transtorno sério que afeta a vida pessoal, profissional e social das pessoas.
E o problema começa a ser detectado no ambiente de trabalho. Recentemente, um empresário de Alagoas, Rafael Tenório, divulgou um vídeo nas redes sociais relatando que 90% dos funcionários da sua empresa estão envolvidos com jogos eletrônicos, alguns, inclusive, pediram adiantamento de salário para cobrir dívidas.
O empresário Kleber Alves, diretor de Negócios e fundador do grupo Educavix, comenta que tem recebido diversos relatos de clientes que estão sentindo o aumento dos casos de solicitação de vale ou adiantamento. “A orientação que temos passado é investir em educação financeira para tentar conscientizar o funcionário da importância da poupança e do investimento. Acredito que seja uma boa forma de combate ao jogo do Tigrinho e as Bets.”
O economista Ricardo Paixão ressalta a importância de ter a gestão financeira pessoal sob controle. “Essa doença faz com que essas pessoas, na ânsia de ter um ganho fácil, imediato, tenham total perda da sua gestão financeira, podendo, inclusive, se desfazer de bens para alimentar essa sede de jogar e de estar sempre envolvido numa possibilidade de ganho. Isso pode levar o orçamento e a vida profissional ao fracasso, afetando drasticamente a vida financeira do indivíduo. Está cada vez mais fácil jogar. Não precisa mais ir até a casa de apostas. Está na palma da mão. Essa falta de obstáculos contribui para o descontrole”.
Geralmente, doenças reconhecidas pela OMS tendem a ser reconhecidas também no Brasil, afetando as relações trabalhistas em condições análogas à outros vícios já conhecidos como alcoolismo ou dependência química.
“Caso a empresa identifique um funcionário nessas condições, o tratamento deve ser aquele fornecido aos outros tipos de dependentes, afastando o funcionário para tratamento, sendo esse funcionário amparado por estabilidade. É importante que a empresa adote medidas que identifiquem, com precisão, a condição de ludopata”, afirma o advogado Raphael Coelho.

