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segunda-feira, 1 março, 2021

Retrocessos 2018

Reacionarismo e perda de protagonismo internacional fazem com que o futuro do Brasil pareça melhor no passado

A dinâmica socioeconômica funciona de forma diferenciada no tempo e no espaço. Apesar do desejo de que ela ocorra de modo a sempre propiciar ganhos para todos seus agentes, os frutos de sua evolução são distribuídos de maneira desigual. Tanto os ganhos quanto as eventuais perdas. Em períodos de prosperidade, a deixar por conta das forças de mercado, os benefícios vão em sua maior parte para alguns poucos. Quando o sistema entra em crise, a tendência é de repartição dos prejuízos entre a maioria para que a minoria continue ganhando ou sofra perdas menores.

O ano de 2018 foi de ganhos concentrados no mercado financeiro e fortalecimento deste para lucros mais robustos no futuro. Robustez a ser assegurada por privatizações e desnacionalizações motivadoras e viabilizadoras do golpe de 2016. Privatizações e desnacionalizações que fazem parte da agenda dos novos representantes em Brasília do Legislativo e do Executivo que tomarão posse em janeiro de 2019.

Agenda legitimada pelo voto popular, ainda que este tenha sido conquistado sem o necessário debate aberto sobre suas causas e consequências. O discurso da privatização, por exemplo, continua sendo sustentado pelo argumento desprovido de evidências de que a desestatização – por si só e de maneira exclusiva – gerará crescimento e emprego.

Na prosperidade, a maioria dos benefícios vai para poucos. Na crise, os prejuízos são repartidos entre a maioria para que a minoria continue ganhando ou sofra perdas menores

Privatização enquanto estratégia para atrair capital e tecnologia do exterior. Como as joias a serem entregues estão em áreas estratégicas como energia, agricultura, saúde e sistema bancário, vale pensar sobre seus eventuais benefícios. O que o capital estrangeiro pode trazer para acrescentar ao que o Brasil hoje domina de tecnologia?

Pouco na área de energia. Seja ela derivada de exploração de gás e petróleo ou da geração de hidroeletricidade e de fontes alternativas como biocombustíveis.

Pouco na produção de conhecimentos que viabilizam ganhos continuados de produtividade na produção de alimentos e de outros derivados dessa atividade, praticada tanto pelo agronegócio quanto pela agricultura familiar.

Pouco na produção de medicamentos e de serviços de saúde que dão sustentação ao SUS.

Pouco na prestação de serviços bancários diante da competência do BNDES, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal.

Pouco porque conhecimentos – tecnológicos e gerenciais – incorporados em empresas nacionais como Embraer, Embrapa, Fiocruz, Petrobras e as atuantes no sistema bancário vêm há muito interagindo e construindo parcerias com companhias mundo afora. Interação e cooperação que as capacitam para um equilibrado diálogo com o que se produz na fronteira tecnológica mundial.

Retrocessos na área econômica vêm acompanhados por reacionarismo no campo social. Reação a regras para a relação capital-trabalho construídas desde a primeira metade do século passado e que foram desmontadas de forma açodada. Reação a pequenos avanços na inclusão social conquistados a partir do estabelecido na Constituição de 1988.

Retrocessos e reacionarismo que se refletem também na forma como o país se coloca na geopolítica global. Seja pela subserviência aos interesses de Tio Sam, seja pelo que essa sujeição provoca de perdas de protagonismo do Brasil em áreas como mudanças climáticas, biodiversidade, segurança alimentar, justiça social e construção de alternativas à ordem mundial estabelecida no pós-segunda guerra.


Arlindo Vilaschi é professor titular de Economia da Universidade Federal do Espírito Santos (aposentado)


Leia mais

Artigo: O Brasil que nasce nas urnas
– Investimentos e mudança de cultura marcaram o mercado

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