Não estamos formando cidadãos. Estamos perdendo vidas. E depois, com cara de surpresa, perguntamos por que falta gente para trabalhar
Por André Gomyde
Há muito tempo que cabeleireiros e barbeiros são verdadeiros templos da sabedoria cotidiana. A pessoa entra para cortar o cabelo e sai com o doutorado em Filosofia de Boteco Aplicada — com direito a tese, banca e conclusão definitiva sobre o que deveria ser feito no mundo. É quase um spa mental, mas com navalha.
Na minha última visita, enquanto eu tentava explicar que minha barba queria apenas um formato discreto e não a topiaria de um jardim francês, meu barbeiro puxou o assunto do momento: a operação policial no Rio de Janeiro. Eu fiz o erro clássico. Dei corda.
Segundo ele, a solução era simples – simples como demolir um prédio para trocar uma lâmpada: matar uns mil “moleques bandidos”. Afinal, dizia ele com convicção de quem não aceita PIX errado: “bandido bom é bandido morto”.
Tentei argumentar. Expliquei que, se existe uma frase que nunca resolveu nada na história da humanidade, é essa. Falei da educação, da necessidade de empregos, de políticas públicas, da chance de transformar vidas antes que o crime o faça. Mas na cabeça dele era tudo frescura. “É matar e pronto.”
Contra-argumentei dizendo que os chefes do crime — esses sim, com CPF premiado — continuavam presos apenas ao compromisso de receber lucro no fim do mês. Falei que as milícias seguem firmes e fortes, que as operações só fazem barulho em cima dos meninos da ponta, que são vítimas de um sistema que os engole desde pequenos.
Ele aparou a costeleta, balançou a cabeça e praticamente disse que eu estava estragando o seu degradê ideológico. Não adianta. Certas conversas são como cortar cabelo com tesoura cega, ninguém sai satisfeito.
Saí do salão com o cabelo alinhado, a barba no lugar e a sensação de ter tentado ensinar física quântica para um secador de cabelo. Caminhei até a banca de jornal e, como quem recebe um tapa conceitual no rosto, li a manchete do dia:
“Supermercados decidem fechar aos domingos devido à escassez de mão de obra.”
Parei. Respirei. A ficha caiu com o estrondo de um secador caindo no chão.
Ora, qual é a surpresa? Se a solução mágica para tudo é exterminar jovens — e, pior, jovens pobres — quem exatamente vai trabalhar amanhã? Quem vai repor o estoque, puxar o caixa, fazer entregas, construir casas, dirigir ônibus, manter a cidade funcionando?
Não estamos formando cidadãos. Estamos perdendo vidas. E depois, chocados, perguntamos por que falta gente para trabalhar, como se fosse culpa da geração do videogame, do TikTok ou do alinhamento dos planetas.
A verdade é que nenhum país cresce eliminando sua juventude. E nenhum barbeiro, por mais habilidoso, consegue aparar a realidade quando ela decide nos lembrar do óbvio: não existe futuro quando tratamos vidas como descartáveis.
E então, caro leitor: qual a surpresa?
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde


