Com foco na economia circular, projetos em Vitória transformam toneladas de resíduos de fantasias em arte, renda e preservação ambiental
Por Thamiris Guidoni
Enquanto a última batida do samba ecoa pelo Sambão do Povo, em Vitória, uma rede de artesãos, designers e ambientalistas mantém o ritmo vivo. Para eles, o Carnaval não termina na quarta-feira de cinzas: a folia dá lugar ao conceito de Carnaval Circular, que transforma toneladas de resíduos em oportunidades de arte, renda e preservação ambiental, longe de aterros sanitários ou da baía da cidade.
Ao longo de 17 anos, a iniciativa já impediu que mais de 60 toneladas de materiais fossem descartadas de forma irregular em praias e manguezais. Em contrapartida, a coleta urbana tradicional retirou cerca de 25 toneladas de lixo das ruas no mesmo período, mostrando que o trabalho de triagem e reaproveitamento é uma barreira essencial contra a poluição.
O ReciclaFolia trata os resíduos como matéria-prima valiosa. O projeto organiza voluntariamente a logística desses materiais, conectando-os à indústria e, desde o ano passado, ao design. É nesse cenário que atua Juliana Lisboa, designer e empreendedora, idealizadora da Fantástica Carpintaria.
Com o estudo Re-Colheita, Juliana transforma o que seria descarte em inovação. Materiais como TNT e PEAD são selecionados, higienizados e triturados para virar novos insumos. Em uma amostra recente de 8 toneladas, 25 quilos foram processados e transformados em produtos como placas rígidas, que podem ser recortadas para aviamentos ou até mobiliário urbano.
“Além das placas, é possível desenvolver uma série de produtos, como madeira plástica maciça e aviamentos essenciais, como botões, mosquetões e fivelas, que podem retroalimentar a cadeia criativa dos próximos carnavais, reduzindo custos e impacto ambiental. O trabalho da Fantástica Carpintaria se completa com oficinas educativas, levando o conhecimento da transformação para a comunidade”, explica Juliana.
Solidariedade e acesso gratuito

Na Regional 2, em Santo Antônio, a triagem é intensa. Cida Moschen coordena a logística de doações, que beneficia artesãos e foliões que buscam peças para compor os próprios looks de forma sustentável, e totalmente gratuita.
“Graças aos foliões que doaram suas fantasias após os desfiles, esses materiais agora ganham novos significados. Este ano de 2026 reciclamos cerca de 11 toneladas”, comemora.
O espaço funciona como um hub de reaproveitamento, atendendo desde o Carnaval oficial até artesãos que utilizam os materiais durante todo o ano, muito além da folia.
Impacto no setor de reciclagem

Para líderes industriais, a integração entre cultura e sustentabilidade é o caminho do pós-Carnaval. Luiz Alberto Baptista, presidente do Sim Reciclo (Sindicato das Indústrias de Reciclagem do ES), destaca a importância de projetos como o ReciclaFolia e a Fantástica Carpintaria para a economia local.
“Esses projetos mostram que a reciclagem não é apenas um processo industrial, mas uma mudança de mentalidade. Quando transformamos resíduos de uma festa em renda, madeira plástica e novos produtos, fortalecemos toda a cadeia produtiva e protegemos o meio ambiente”, afirma.

