Interesses do Espírito Santo terão de ser mais bem negociados

Sede do Governo do Estado, o Palácio Anchieta (Fotografia - Renato Cabrini)

Brasil precisa equilibrar contas públicas e melhorar eficiência de gestão. Maior desafio do Espírito santo será atrair investimentos

A economia brasileira enfrentou nos últimos três anos uma das mais fortes e duradouras recessões da nossa história. O período de pico da crise parece ter chegado ao fim, mas o que impressiona é a recuperação, de forma muito mais lenta do que em outras depressões brutais, como a de 1983 e a de 1992. Terminamos 2018 ainda quase 5% abaixo da nossa situação pré-turbulência. O fim da incerteza eleitoral deverá ser um impacto decisivo no direcionamento dos investimentos a partir de agora, mas ainda há grande desconfiança do mercado e pouco otimismo.

O valor do Produto Interno Bruto (PIB) nacional em 2016 foi 6,9% menor do que em 2014, porém já há um avanço de 1% em 2017. A estimativa da consultoria Tendências é que cresça 1,7% em 2018 e 2,9% em 2019. No entanto, esse movimento não deverá ser igual para todos os estados. Segundo a empresa, no Espírito Santo, por exemplo, o patamar ainda deverá ficar 6,9% abaixo do observado em 2014.

Jair Bolsonaro posa com o diploma de presente da República (Agência Brasil)

A estimativa é que o PIB capixaba seja o quarto mais distante do nível pré-crise, por conta do recorde de perdas no biênio 2015/2016, em grande parte devido aos efeitos da tragédia de Mariana (MG). O resultado aponta para ser melhor apenas que o de Alagoas (nível 8,4% menor), Sergipe (-7,8%) e Pernambuco (-7,5%).

De acordo com levantamento da Tendências, todos os estados que irão apresentar uma recuperação mais rápida e expressiva estão nas regiões Norte e Centro-Oeste, impulsionados principalmente pelo agronegócio e pela mineração, além da forte exposição ao mercado externo.

Cenário político

A economista e professora da Fucape Arilda Teixeira destaca que, diante do novo cenário político que está sendo desenhado, com um militar no poder, ainda não é possível prever os impactos das decisões do presidente, Jair Bolsonaro (PSL). “Ele está montando a estrutura para governar. Por enquanto, está indo na direção certa. Mas o confronto dos momentos de decidir ainda não chegou, ou seja, a corda ainda não esticou.

Fonte: Folha de São Paulo

O futuro da economia depende do tipo de reforma que ele vai conseguir aprovar e de como conduzirá a política econômica. Retórica nunca levou país a lugar algum. O que define são atitudes”, analisa.

A especialista adverte que ainda não é possível fazer um prognóstico positivo em relação à economia nacional. “Faltam base para um crescimento sustentável e fôlego para competir. A qualificação de capital humano é insuficiente para dar ao país a produtividade necessária para alcançar a competitividade exigida para um crescimento sustentável e inserção externa”, pondera.

Para a professora, não há, por ora, infraestrutura suficiente que suporte um crescimento mais acirrado. “Nem investimento para reverter essa situação”, completa.

O Banco Central (Bacen) definiu a quero dos juros para o menor nível da história (Fotografia – Bacen)
Projeções

Arilda Teixeira aponta que as projeções para crescimento do PIB até 2023 são de taxas médias de 2,2% ao ano: “O volume de investimento em proporção ao PIB está em torno de 16,5% ao ano, e são necessários, pelo menos, 25%”. Para se ter ideia, a China investe quase 45% do seu Produto Interno Bruto; a Índia, quase 33%; México e Peru, em torno de 23%.

Essas estatísticas explicam, por exemplo, a posição do Brasil no ranking do Índice de Competitividade Global de 2018, um score de 59,5 (0 a 100). Na China, o nível é de 72,6; na Índia, de 62; na Rússia, de 65,6; e na África do Sul, de 60,8. Já na América Latina vemos México com 64,6, Colômbia com 61,6, Chile com 70,3, Peru com 61,2, e Uruguai com 62,7.

O Doing Business – relatório anual produzido pelo Banco Mundial – ratificou que o Brasil está na 125ª posição entre 190 países em facilidades para se fazer negócios, atrás de todos os seus pares no Brics – Rússia, Índia, China e África do Sul – e na América Latina.

“É difícil justificar como a maior economia de uma região é a menos competitiva. Esses resultados também são efeitos da irresponsabilidade fiscal do setor público. Gerar um Estado endividado, ineficiente e caro freia a economia através de suas necessidades de financiamento e da má qualidade das decisões de política econômica. As deficiências de capital humano do país explicam-se aí. A regressividade da estrutura tributária, e tudo de negativo que reproduz, também”, observa.

Por isso, a professora afirma que equacionar o desequilíbrio fiscal será fundamental. “Mas, como isso passa necessariamente pelas reformas previdenciária, tributária e administrativa, que precisam de aprovação do Legislativo, tudo vai depender de como vão se comportar e se comprometer o Executivo e o Legislativo com o ajuste fiscal. Se tiverem juízo, aprovarão o que é necessário para o país voltar a crescer.”

Pessimismo

Também professor de Economia, Arlindo Villaschi, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), avalia com pouco otimismo o cenário para 2019. “O novo governo será subserviente aos interesses da financeirização mundializada. Podemos, sim, esperar por privatizações e que o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), em vez de se colocar ao lado da produção, posicione-se a favor dessas privatizações”, prevê.

Villaschi argumenta que, para a volta da expansão econômica, o BNDES deveria ser usado majoritariamente para impulsionar o lado produtivo, como obras de logística, infraestrutura e financiamento de empresas de bens e de serviço, além do apoio a negócios de pequeno e médio portes voltados para o mercado interno e para a agricultura familiar. “O modelo que foi posto nas eleições dará continuidade ao modelo que endeusa o mercado como se ele fosse a única forma de tocar a economia”, opina.

Renato Casagrande assumiu o governo do Estado em 2019 ara o seu segundo mandato no Executivo
Economia estadual

Para Villaschi, a segunda gestão de Renato Casagrande será uma continuidade dos 12 anos de Paulo Hartung (com um mandato intermediário do governador): “conservadora e pouco determinante no sentido de negociar melhor os interesses do Estado, utilizando-se dos mecanismos que ainda estão disponíveis, como financiamento com Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes) e Banestes ou mesmo qualquer tentativa de uma política social mais progressista”.

O maior desafio, segundo ele, será como os interesses das micros, pequenas e médias empresas vão se fazer representar. “Aí, será preciso cobrar uma atuação mais forte das federações e sindicatos empresariais.”

O economista acredita que 2019 não será um ano de grandes mudanças nem para o Brasil nem para o Estado. “Teremos reformas que prejudicam o funcionamento da economia produtiva e privilegiam o capital financeiro e o mercado especulativo e que dão pouca voz e vez aos interesses da população, especialmente a mais carente”, conclui.

Responsabilidade fiscal

Levantamento do jornal Folha de S.Paulo mostra que o Espírito Santo ocupa atualmente o quarto lugar na lista das unidades federativas que entregam mais resultados em saúde, educação, infraestrutura e segurança à população. Ferramenta inédita usada pelo veículo de comunicação, o REE-F (Ranking de Eficiência dos Estados – Folha) aponta o cumprimento, por parte dos governos estaduais, de funções básicas e previstas em lei, segundo seus recursos financeiros.

O Espírito Santo está entre os que menos gastam para ter médicos nos hospitais, crianças e jovens nas escolas, redes de água e esgoto, índices mais baixos de violência, entre outros aspectos que aumentam a qualidade de vida. Para Arilda Teixeira, a expectativa é que, em 2019, o Estado mantenha a responsabilidade fiscal e o compromisso de melhorar a qualidade do ensino. “Por estar com as contas públicas sob domínio, terá o controle fiscal como aliado para atrair investimentos para o Estado.” Ela lembra que a economia capixaba é pouco diversificada. Há potencial econômico timidamente explorado, como a indústria do turismo. “A melhoria da infraestrutura, principalmente de acesso, poderá atrair investimentos para o Espírito Santo”, acredita.

Se, para o Brasil, um dos maiores desafios em 2019 será reformular a estrutura de ensino para aprimorar o perfil de seu capital humano, equilibrar as contas públicas e elevar a eficiência do Estado, além de aumentar o grau de abertura e capacidade de inserção externa, para o Espírito Santo, a meta maior, segundo Arilda, será empenhar-se em atrair investimentos.

Fonte: Folha de São Paulo
Empreender é necessário

O grupo das pequenas e médias empresas foi bastante afetado pela turbulência econômica, por representar a quase totalidade dos negócios brasileiros e capixabas, 95% e 99%, respectivamente, de acordo com o Sebrae-ES, instituição que oferece apoio e suporte a essas organizações. Em 2015, por exemplo, ápice da crise, o crescimento do número de firmas que pedem falência foi maior entre aquelas de menor porte: 13,3%, conforme indicador da Serasa Experian.

Mas o que pequenos e médios empreendedores podem esperar de 2019? Quem tem vontade de investir encontrará um cenário promissor? “Podemos afirmar que sempre é hora de empreender, desde que se observem alguns princípios básicos. Para abrir um negócio e ter sucesso, é preciso oferecer condições diferenciadas daquelas já existentes no mercado. É necessário apresentar alguma inovação, algum diferencial, seja no produto, seja no serviço, seja no modelo de negócio”, recomenda o diretor técnico do Sebrae-ES, José Eugênio Vieira.

Segundo o dirigente, no mercado, em qualquer momento econômico, sempre há empresa falindo, empresa apenas se mantendo, empresa crescendo de 5% a 10% e empresa avançando muito acima desse percentual. “Depende, principalmente, de o quanto o empreendedor está preparado para entrar no mercado”, assinala.

A economia brasileira cresceu 1% em 2017 após dois anos de retração
Fonte: ONG OXFAN e IBGE
Crescimento

Sobre a possibilidade de retomada do crescimento na atividade de empreendedorismo, José Eugênio afirma que há um conjunto de reformas que precisam ser feitas, como a previdenciária, a política e a tributária. “Esta última deve ser executada para simplificar nosso sistema e melhorar a vida das empresas.”

O ambiente de negócios no país, classifica, é extremamente burocratizado, num mercado muito disputado e com recursos escassos. “E como o empreendedor vence essas dificuldades? Com planejamento, ações assertivas, decisões corretas e muito trabalho”, orienta.

A aposta é que áreas voltadas para serviços, como alimentação, principalmente fora do lar, delivery e setor de beleza, continuem a se sobressair. “Porém não há, ainda, como mensurar percentual de crescimento. Independentemente da atividade,
se tiver diferencial, seja no preço, seja na qualidade, seja no valor de entrega, o negócio irá se destacar, e o empreendedor terá mais chances de alcançar sucesso.”

Indústria

Nos últimos dois anos, a atuação dos parlamentares capixabas em Brasília foi fundamental para a aprovação de projetos essenciais à retomada da economia do Espírito Santo, segundo levantamento produzido pelo Conselho Temático de Assuntos Legislativos (Coal), da Federação das Indústrias (Findes).

O volume de projetos no Estado para os próximos anos, com participação da iniciativa privada, totaliza cerca de R$ 18 milhões

Na avaliação do presidente do Sistema Findes, Léo de Castro, será necessário muito mais empenho de nossos deputados e senadores nesta nova fase política. Ele reitera que, além da atenção ao Executivo, vai ser preciso, sobretudo, posição incisiva da bancada em pautas cruciais à geração de emprego e ao desenvolvimento socioeconômico. “Os parlamentares terão de decidir pelas reformas e pela aprovação do Cadastro Positivo, do distrato imobiliário e do Gás Para Crescer”, cita.

O industrial acrescenta que será fundamental cobrar dos parlamentares capixabas mais compromisso “com a agenda modernizadora que vai promover um país melhor para todos”. Consequentemente, concluiu, isso se refletirá de forma positiva
no Espírito Santo.

Entre os avanços registrados, o dirigente cita as mudanças no pré-sal, por meio do fortalecimento dos leilões da Agência Nacional de Petróleo e Gás (ANP), que resultaram em novas perspectivas a essa cadeia no Estado. “A participação da iniciativa privada ampliou o volume de projetos, totalizando R$ 18 bilhões em investimentos previstos para o setor nos próximos anos em terras capixabas, irradiando oportunidades em nossa economia.”

O empresário é contundente ao apontar a força da iniciativa privada como fundamental à melhoria do ambiente de negócios, uma vez que são as empresas que criam empregos. “Sem a força do setor produtivo, não há economia que se desenvolva.”

No dia 26 de novembro, Léo de Castro assumiu a presidência do Conselho Temático de Política Industrial e Desenvolvimento Tecnológico (Copin) da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Na ocasião, o grupo debateu propostas para os primeiros 100 dias da nova equipe do governo federal, como a continuidade das políticas industriais e a atuação desenvolvimentista do BNDES.

A CNI preparou para o Executivo a “Agenda dos 100 Dias”, listando 36 propostas urgências em 10 áreas centrais. Entre as prioridades apontadas no documento estão o equilíbrio fiscal, a reforma da Previdência e a melhoria do ambiente de negócios, vinculada à simplificação do regime tributário. “Temos de preservar os acertos, identificar o investimento feito para apoiar pequenas e médias empresas e dar continuidade ao esforço de financiamento do setor”, enfatizou Castro.

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