O novo mapa político do Espírito Santo

Findo o primeiro turno, os quatros maiores colégios eleitorais ainda não conhecem seus prefeitos

*Por Luciene Araújo e Yasmin Vilhena 

A eleição deste ano, com novas regras, foi marcada pelo menor tempo e a falta de dinheiro nas campanhas, e também por ser a mais violenta pós-redemocratização, com quase 100 mortos por motivações políticas.

O segundo turno, na maioria das capitais e em muitas cidades, é uma nova disputa. Nos quatro maiores colégios eleitorais do Espírito Santo, a incerteza sobre o comando do Executivo Municipal a partir de 2017 se mantém até 30 de outubro, e a disputa pelo apoio dos candidatos que já perderam o pleito pode fazer muita diferença no resultado final. Essa é a primeira vez que Cariacica, Serra, Vila Velha e Vitória estarão no segundo turno na mesma eleição.

Na capital, Luciano Rezende (PPS) conquistou 81.315 votos (43,82%) e disputa com o deputado estadual Amaro Neto (SD), que obteve 65.554 votos (35,32%). O resultado confirmou o que as pesquisas eleitorais apontaram antes do pleito: Luciano garantiu a maioria dos votos nas regiões de maior poder aquisitivo e também com mais eleitores, e Amaro Neto dominou as regiões mais populares.

A vantagem total de Luciano foi de 15.761 votos, mas ele deverá enfrentar uma árdua batalha.  Para o segundo turno, é dado como certo que Amaro contará com o apoio de Lelo Coimbra, que no primeiro turno garantiu 26.584 votos.   

Sobre a expectativa para o segundo turno, Luciano disse apenas que “vai buscar o apoio de todos que desejam defender a cidade de Vitória e mantê-la em 1º lugar”.

Amaro, por sua vez, afirmou que o maior desafio é vencer o paradigma de que o “novo” é ameaça. “Nas áreas mais nobres, as pessoas têm receio de votar em alguém que entrou na vida pública recentemente. Por isso, a ênfase do meu trabalho agora é mostrar que, além de apresentador de TV, sou jornalista, sou deputado estadual, me aperfeiçoei em gestão pública, e estou cercado de pessoas muito capacitadas, que conhecem administrativamente a Prefeitura de Vitória e me dão musculatura para confrontar com a falta de planejamento da gestão atual”, afirmou.

Em Vila Velha, cidade com o maior eleitorado – 316,6 mil, o Executivo Municipal voltará ou para as mãos de Max Filho (PSDB), prefeito da cidade entre 2000 e 2008, e que totalizou 80.297 votos (37,80%), ou para as mãos de Neucimar Fraga (PSD), que administrou a cidade entre 2009 e 2012 e recebeu 65.745 votos (30,95%).

Max afirmou que mesmo os adversários políticos poderão ser procurados para apoio no segundo turno. “Estamos abertos ao diálogo com a cidade e queremos construir uma Vila Velha mais avançada, colocando ordem na casa”, disse.

A estratégia de Neucimar está em concentrar a busca por quem não escolheu nenhum dos candidatos no primeiro turno. “Será uma nova eleição, iniciando um debate com os vereadores eleitos e com os eleitores. E nesse debate, pretendemos convencer os que votaram em branco e nulo e os que não compareceram às urnas a optarem pelo nosso nome”, argumentou.

Rodney Miranda (DEM) foi o único prefeito da Grande Vitória a disputar a reeleição e não conseguir avançar para o segundo turno: obteve 38.513 votos (18,13%) dos eleitores vila-velhenses.

Em Cariacica, o deputado estadual Marcelo Santos (PMDB) ficou com 41,89% (71.590) dos votos válidos e vai disputar o segundo turno com o atual prefeito Geraldo Luzia, o Juninho, que conquistou 35% (59.816) da preferência dos eleitores.

“Vamos conversar com todas as forças políticas municipais e estaduais e com nossa bancada federal. Eu e o pastor Paulo (vice) vamos dividir tarefas. Nosso objetivo é voltar às ruas, conversar com a população, com os eleitores dos outros candidatos a prefeito que não alcançaram o resultado, e multiplicar o número de votos”, disse Marcelo Santos. 

Juninho afirmou que irá fortalecer a conversa com os eleitores. “As outras campanhas focaram em problemas históricos da cidade, sem apresentar soluções possíveis. Por isso crescemos. No segundo turno, vamos conversar com a cidade, para que Cariacica não tenha um retrocesso, possa continuar com as contas em dia, conquistando o desenvolvimento sustentável dos últimos anos”, contou.

Nas urnas da Serra, município com 308.139 eleitores, segundo maior no Estado, o deputado federal Sérgio Vidigal (PDT) obteve 107.031 votos (48,30%) e disputa a prefeitura com o atual prefeito Audifax Barcelos (Rede), que conquistou 96.862 votos (43,71%).

Os eleitores de Viana não tiveram dúvidas e reelegeram Gilson Daniel (PV), que com 71,54% dos votos, recebeu aprovação de 25.197 vianenses, do total de 40.105 eleitores. “Vamos manter o foco com muito comprometimento, responsabilidade e respeito ao cidadão. Viana cresceu, se desenvolveu, passamos a fazer parte das discussões da Grande Vitória e o cidadão passou a ter orgulho de ser vianense. Estou muito feliz e grato por continuar trabalhando para fazer a cidade avançar ainda mais, trazendo melhor qualidade de vida ao morador, oportunizando qualificação e a geração de emprego e renda”, declarou. 

Em Guarapari, Edson Magalhães (PSD) foi eleito com 27.926 votos (44,86%). E no município de Fundão, Adriano Ramos (PMN) garantiu 77,69% dos votos válidos, sendo a opção de 1.866 eleitores.

Os novos gestores

Em 74  municípios capixabas, do total de 78, os novos prefeitos já são conhecidos. O melhor desempenho entre os partidos foi o do PMDB, que fez 16 prefeitos e poderá contar com mais um após o segundo turno. O PSDB obteve a segunda colocação neste ranking, elegendo 12 prefeitos e também podendo chegar a 13 no segundo turno. O PT fez apenas uma prefeitura no Estado que elegeu o menor número de mulheres, somente três: Iracy Baltar (Montanha), Vera Costa (Guaçuí) e Amanda Quinta Rangel (Presidente Kennedy).

Guerino Zanon (PMDB) venceu em Linhares, com 59.147 votos (73,57%). “Vamos identificar o que temos que fazer a partir de primeiro de janeiro, antes de assumir. Mesmo com a escassez de recursos, eliminando contratos que sabemos que não são reais, acreditamos que irá sobrar dinheiro para a retomada dos serviços”, declarou o atual deputado estadual, que irá comandar a prefeitura do município pela quarta vez.

Entre as prefeituras garantidas pelos peemedebistas estão Castelo (Piassi), e Colatina (Sérgio Meneguelli), e pode ter mais uma, após o segundo turno. Em Itapemirim, foi reeleito Luciano Paiva (Pros). 

O governador Paulo Hartung recomendou aos novos prefeitos que criem uma equipe técnica de transição para avaliar a peça orçamentária prevista para o ano que vem. “É fundamental chegarem às prefeituras conscientes do quadro que estamos vivendo no país. É um cenário altamente desafiador, com despesas altas e receitas em queda”, afirmou.

Hartung recebeu os eleitos de Anchieta, Barra de São Francisco, Cachoeiro de Itapemirim, Ibatiba, Pedro Canário e Rio Novo do Sul. Os critérios para o encontro foram a idade (até 40 anos) e o fato de ser o primeiro mandato.

“As necessidades financeiras são grandes, mas com uma gestão mais moderna, mais enxuta, com qualidade, é possível manter a qualidade dos serviços públicos”, afirmou Victor Coelho (PSB), 40 anos, eleito em Cachoeiro de Itapemirim. Para ele, a estruturação das parcerias entre o poder público e o privado, a fim de retomar o desenvolvimento econômico e “devolver o orgulho ao cachoeirense” é o maior desafio nos próximos quatro anos. 

Brasil

Em todo o país, 144 milhões de eleitores foram às urnas, em uma disputa que envolveu 475.363 candidatos para 5.568 cargos de prefeito e 57.931 cargos de vereador.

Candidatos da situação foram derrotados, já na primeira votação, em oito das 26 capitais, incluindo três das cinco maiores, além de Fernando Haddad (PT), em São Paulo; Gustavo Fruet (PDT), em Curitiba; e João Alves (DEM), em Aracaju, que conquistou menos de 10% dos votos válidos.

No Rio, o primeiro turno já definiu a vitória de um oposicionista: Crivela (PRP) ou Marcelo Freixo (PSOL). O peemedebista Pedro Paulo, candidato do prefeito Eduardo Paes (PMDB), ficou em terceiro lugar. Candidatos de situação também foram derrotados em Belo Horizonte e Goiânia. Em Cuiabá e em Florianópolis, onde os atuais prefeitos não disputaram a reeleição, seus aliados permanecem na disputa no segundo turno. Sete prefeitos, todos no Norte e no Nordeste, foram reeleitos já na primeira votação.

Apuração

O Espírito Santo foi o primeiro Estado a finalizar a apuração. Segundo o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-ES), houve 2.716 milhões de votos válidos e 466.856 abstenções, num cenário em que o número de eleitores cresceu 11,3%, nos últimos oito anos.

“O Espírito Santo retomou sua hegemonia, concorrendo com Paraná e Mato Grosso”, declarou o presidente do TRE-ES, desembargador Sérgio Gama.

Em 33 municípios o voto foi pelo sistema biométrico, o que corresponde a 772.429 eleitores, do total de 2.716.371. “A biometria veio para ficar, foi um avanço, permite a certeza de que não há possibilidade para fraudes. Vamos fazer o possível para concluir na íntegra esse processo, que não pode, de forma nenhuma, retroceder”, afirmou.

Sobre acusações de uso de “laranjas” nas campanhas, Gama destacou que há investigações em curso. “Tudo será regularmente apurado, por ocasião da prestação de contas. O Ministério Público vai ter participação decisiva nesse processo”, enfatizou. 

Câmaras municipais

A Grande Vitória renovou 66% do quadro de vereadores. Juntos, os sete municípios tiveram somente 39 reeleitos, das 113 vagas. Em Vitória, permanecem na Câmara seis dos 15 vereadores. Fabrício Gandini (PPS) foi pela segunda vez o mais votado em todo o Estado, com 7.611 votos, e Zezito Maio (PMDB) deixará o cargo que ocupa há 20 anos.

Em Vila Velha, sete dos 17 vereadores se reelegeram, mas João Artem deixará o Legislativo Municipal após 31 anos. Na Serra, nove dos 23; em Cariacica, sete dos 19; em Fundão, quatro dos 11; em Viana, apenas um de 11; e em Guarapari, cinco dos 17 vereadores foram reeleitos.

Em cinco municípios do interior não houve vereador reeleito – Águia Branca, Brejetuba, Dores do Rio Preto, São Roque do Canaã e Sooretama. A composição da Câmara de Linhares foi a que menos mudou: 47% dos atuais vereadores foram mantidos. 

Abstenções

No total, 118.755.019 eleitores votaram e mais de 25 milhões (17,58%) não compareceram às urnas em todo o país, um percentual considerado normal pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Gilmar Mendes, apesar de o número ter sido superior aos pleitos municipais de 2012 e de 2008.

No Espírito Santo foram contabilizados 2.716.382 votos válidos, com 466.856 abstenções em 2016, ante 501.374, nas eleições de 2014. O comparecimento do eleitorado capixaba às urnas foi de 2.249.526, número maior do que o registrado nas eleições de 2014 (2.150.247 votantes).

 

 

 

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