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domingo, 23 junho, 2024

Luiza Bublitz aponta os desafios do setor de cabotagem

Presidente da Aliança Navegação e Logística revela novos serviços e expectativas da empresa. Para ela, o maior desafio da cabotagem é a redução de custos

Por Daniel Hirschmann

Em janeiro deste ano, Luiza Bublitz assumiu a presidência da Aliança Navegação e Logística, empresa do grupo global Maersk, pioneira em cabotagem e integração logística. Embora possa perecer incomum uma executiva nessa função – em um meio ainda predominantemente masculino -, suas credenciais são incontestáveis. Com mais de duas décadas de carreira dedicada ao setor de logística, Luiza é formada em Administração de Empresas pela Universidade Paulista, tem MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas e acumula anos de experiência em cargos de liderança, tanto no Brasil quanto na Europa. Sua bandeira: o desenvolvimento sustentável dos negócios.

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Nesta entrevista para a ES Brasil, Luiza Bublitz aponta os grandes desafios do setor de cabotagem e destaca a importância de iniciativas de descarbonização das atividades do setor. Ela também diz que a matriz de transportes brasileira precisa evoluir, com mais equilíbrio, para que a logística seja mais eficiente.

À frente de uma companhia com mais de mil colaboradores no país, com navios brasileiros e mais de 400 tripulantes, também brasileiros, ela prevê crescimento do setor de cabotagem em 2024, mas cobra avanços na regulamentação via BR do Mar, para que o país tenha segurança jurídica e viabilize novos investimentos.

Confira a seguir os principais momentos da entrevista.

A senhora defende que a cadeia logística precisa de inovação, sustentabilidade e eficiência, e que a cabotagem é uma importante opção para o transporte de cargas no país. Quais os maiores desafios para atingir esses objetivos e as estratégias para enfrentá-los? 

Luiza Bublitz – Me permita contextualizar. A Aliança atua em todo o Brasil, nas principais rotas, com soluções logísticas pensadas para cada cliente, grande ou pequeno. Nossa missão é democratizar o acesso à logística de qualidade, com custos competitivos, viabilizando a expansão de negócios em âmbito nacional e impulsionando o desenvolvimento do Brasil.

Tendo em vista esses objetivos, acredito que alguns dos grandes desafios para o setor de cabotagem, entre outros, são a redução de custos operacionais, a gestão da operação frente às intempéries climáticas e a necessidade de melhorias na infraestrutura. A Aliança aposta no crescimento do setor e do Brasil para superá-los.

A cabotagem é um modal menos poluente, mais seguro e barato, com capacidade de movimentar maior volume de carga, e tem crescido na última década. Por isso, acreditamos que, por meio da logística integrada, é possível explorar o melhor de cada modal, resultando em benefícios ainda maiores.

Uma de nossas apostas em 2024 será ampliar a cabotagem por meio do transporte de cargas fracionadas, o LCL (Less Than Container Load), para cargas que não ocupam um contêiner inteiro. Com esse novo serviço, queremos democratizar o acesso à cabotagem para quem precisa movimentar volumes menores.

Também enxergamos oportunidades na integração com a logística por terra. Temos uma frota própria de caminhões e armazéns nas duas pontas, bem como parceria com as principais ferrovias de São Paulo, Paraná, Mato Grosso, Rio de Janeiro e Minas Gerais, para o serviço de ponta a ponta.

A transição para uma infraestrutura de baixo carbono é uma meta das principais empresas desse setor. Como estão as ações nesse sentido?

Luiza Bublitz – A Maersk tem como meta global ser net zero em toda a sua operação até 2040, e a Aliança, como empresa nacional do grupo, também caminha nesse sentido. Por exemplo, estamos construindo as duas primeiras barcaças ATBs oceânicas para o transporte de contêineres do Brasil. Elas transportarão as cargas de forma mais segura e eficiente – com o transporte simultâneo de volume maior, em relação a outras embarcações e ao transporte terrestre – e serão equipadas com motores principais que poderão, no futuro, ser movidos a combustíveis verdes, como metanol e etanol.  

Outra iniciativa é o Alternative Maritime Power (AMP) em cinco navios da classe Aliança Explorer, o que conecta a embarcação a uma fonte de energia no porto. Com isso, não será mais necessário manter o motor de combustão ligado, enquanto o navio estiver atracado. Os navios podem desligar seus motores a diesel auxiliares, reduzindo 95% das emissões atmosféricas.

Outro exemplo recente foi o projeto-piloto com caminhões elétricos pesados, realizado em setembro de 2023, no Brasil. Para ajudar a descarbonizar as cadeias de fornecimento na América Latina, conduzimos testes com o uso de caminhões elétricos, com caminhões modelos cavalo mecânico – ou caminhão trator, que permitem o transporte rodoviário de contêineres (FCL) – de dois fabricantes distintos, por duas semanas.

Os testes foram conduzidos na região metropolitana de São Paulo e num trecho entre o Porto de Itapoá e a cidade de Araquari, em Santa Catarina. Foram instaladas estações de carregamento elétrico nas áreas operacionais para o carregamento noturno. Temos um novo teste acontecendo neste mês, no Nordeste.

Vale lembrar que a cabotagem, por si só, já é um modal mais sustentável, porque alivia significativamente o modal rodoviário. Um navio da Aliança transporta carga equivalente à de 3 mil caminhões, contribuindo para a redução das emissões de carbono.

A gestão da operação precisa considerar intempéries climáticas que atingem o país. Neste ano, quais as principais intempéries que estão sendo monitoradas e que impactos podem ter sobre a cadeia logística e o transporte de mercadorias?

Luiza Bublitz – Atuamos em um setor em que a volatilidade é a única constante. Nosso dia a dia é marcado por mudanças, quebras de paradigmas e revoluções de ideias. A tecnologia é uma das frentes da inovação e uma forte aliada para que as transformações aconteçam, buscando cada vez mais eficiência, fluidez e agilidade. É preciso inovar para entregar uma jornada ainda mais eficiente e verde – mesmo com eventuais rupturas na cadeia. Outra frente voltada à inovação – essencial para esse combate às intempéries, especialmente as climáticas – é a da sustentabilidade. A busca por se tornar net zero é também uma demanda cada vez mais frequente do mercado.

Um exemplo prático ocorreu no período que antecedeu à seca em Manaus (AM), considerando o uso da tecnologia, no ano passado. Todo ano, entre maio e início de junho, começa o período chamado de vazante nos rios do Amazonas – a descida do nível das águas, que em seu auge afeta gravemente a capacidade de navegação no rio Amazonas e seus afluentes. Em 2023, o fenômeno El Niño tornou esse período ainda mais crítico.

A Aliança intensificou as análises preditivas dos dados de navegabilidade nos rios no terceiro trimestre. Com esse monitoramento – que conta, inclusive, com estações meteorológicas da Agência Nacional de Águas (ANA) e sonar nos navios da frota –, atrelado às análises estratégicas de planejamento e operação, foi possível alertar os clientes sobre a situação, especialmente aqueles que produzem na Zona Franca de Manaus, e eles puderam adiantar os embarques dos seus produtos, com foco, principalmente, na Black Friday e no Natal, duas das principais datas do varejo no ano.

Luiza Bublitz aponta os desafios do setor de cabotagem
Um navio da Alinaça transporta carga equivalente à 3 mil caminhões, contribuindo para redução das emissões de carbono – Foto: Divulgação Aliança

A Lei nº 14.301/2022 (BR do Mar) instituiu uma série de medidas para aumentar de 11% para 30% a participação do transporte por cabotagem na matriz logística nacional. Até aqui, após a aprovação, a BR do Mar está atendendo às expectativas?

Luiza Bublitz – A BR do Mar tenta endereçar alguns pontos importantes para o setor. No entanto, entendemos que o principal deles a ser considerado é a redução de custos para a cabotagem. Há problemas que necessitam ser olhados de forma mais detalhada, como o ICMS dos combustíveis, a elevada quantidade de documentos exigidos, custos operacionais em terra que impactam a operação multimodal, entre outros aspectos mais específicos. 

A Aliança é uma empresa brasileira, com mais de mil colaboradores no país, com navios brasileiros e mais de 400 tripulantes, também brasileiros. O nosso compromisso com o país não é de curto prazo. É perene. Por isso, precisamos que a regulamentação também traga segurança jurídica, para investirmos cada vez mais e crescermos com o Brasil.

Quais são os principais setores atendidos hoje pela cabotagem no Brasil e quais ainda podem se beneficiar dela em suas operações logísticas? Que impacto isso terá para a economia brasileira?

Luiza Bublitz – Além da cabotagem ser um modal menos poluente, mais seguro, mais barato, com capacidade de movimentar maior volume de carga, é um modal muito versátil. É um dos modais mais inclusivos, já que transporta com segurança e qualidade produtos de diversas categorias, do arroz ao zinco, celulares a pás eólicas, cosméticos a eletrônicos. Atende a grandes, pequenas e médias empresas, além de levar alimento para milhões de brasileiros, a partir do transporte de incontáveis toneladas de arroz e grãos. Então, a maioria dos setores pode se beneficiar com a cabotagem – com exceção apenas daqueles que exigem regulação específica para transporte e não podem utilizar contêiner/navios.

Inclusive, um estudo do Instituto Ilos indica que, para cada contêiner transportado na cabotagem, existem outros 4,8 que seriam captáveis pelo modal aquaviário no país. O Ilos afirma ainda que 21% das grandes indústrias brasileiras, aquelas que movimentam o maior volume de carga, têm a intenção de trocar de modal – sair do rodoviário e optar pela cabotagem – nos próximos anos.

Diante dessa oportunidade de crescimento da cabotagem, em um país com dimensões continentais como o Brasil, o avanço trará benefícios para todos e contribuirá diretamente para o crescimento da economia nacional. Quanto maior a eficiência de um modal, mais positivos serão os reflexos sobre os preços dos insumos e produtos, impactando toda a cadeia de produção nacional, como um efeito dominó, desde o produtor até o consumidor final.

A senhora também defende a logística integrada para incrementar o transporte de mercadorias. Quais suas principais vantagens e o que ainda é preciso para que isso se torne uma realidade no Brasil?

Luiza Bublitz – A logística integrada é uma realidade e deve ser ampliada. Há espaço para esse crescimento e a matriz de transportes brasileira precisa ser mais equilibrada. Atualmente, ela é concentrada no modal rodoviário e sua baixa eficiência em médias e longas distâncias tem reflexos negativos sobre os preços dos insumos e produtos no país. Vale ressaltar, porém, que o transporte por caminhão permanece essencial para complementar o serviço porta-a-porta, também realizado pela logística integrada.

Nesse sentido, o modal marítimo substitui o deslocamento por longas distâncias e períodos, permitindo até que os motoristas ampliem a quantidade de viagens – mais curtas –, com consequências bastante benéficas, inclusive, para a sua qualidade de vida.

O Brasil tem uma “vocação” para a cabotagem. O país possui quase 8 mil km de costa navegável, que é uma verdadeira estrada natural para o modal. Utilizá-la para longas distâncias e integrá-la às ferrovias, para o transporte de cargas do interior ao litoral, com o rodoviário para as pontas, é o melhor caminho a ser seguido e certamente trará benefícios não só para o setor, mas para a economia como um todo.

Outro fator que deve ser mencionado é a necessidade de ampliar a capacidade e melhorar cada vez mais a infraestrutura portuária do país, o que incentivará uma cadeia logística cada vez mais eficiente.

Luiza Bublitz aponta os desafios do setor de cabotagem
Presidente da Aliança Navegação e Logística (Maersk) revela novos serviços e expectativas da empresa – Foto: Divulgação Aliança

Realisticamente, quais as perspectivas futuras? O que aguarda a cabotagem no Brasil nos próximos anos? E qual sua projeção de crescimento para o setor em 2024? 

Luiza Bublitz – Ainda não temos uma projeção oficial de crescimento para o setor pela Associação Brasileira de Armadores de Cabotagem (Abac). A nossa expectativa é de que em 2024 o setor, como um todo, e em especial a cabotagem, estejam mais aquecidos devido aos movimentos dos mercados, já que é prevista a reposição de estoques. Também esperamos que a cabotagem siga crescendo, que a matriz de transportes brasileira evolua e, como já comentei, se torne mais equilibrada, o que contribuirá para uma logística mais eficiente.

“Acredito que alguns dos grandes desafios para o setor de cabotagem, entre outros, são a redução de custos operacionais, a gestão da operação frente às intempéries climáticas e a necessidade de melhorias na infraestrutura.”
“Uma de nossas apostas em 2024 será ampliar a cabotagem por meio do transporte de cargas fracionadas, o LCL (Less Than Container Load), para cargas que não ocupam um contêiner inteiro.”

“Atuamos em um setor em que a volatilidade é a única constante. Nosso dia a dia é marcado por mudanças, quebras de paradigmas e revoluções de ideias. A tecnologia é uma das frentes da inovação e uma forte aliada para que as transformações aconteçam.”

“O país possui quase 8 mil km de costa navegável, o que é uma verdadeira estrada natural para o modal. Utilizá-la para longas distâncias e integrá-la às ferrovias, para o transporte de cargas do interior ao litoral, com o rodoviário para as pontas, é o melhor caminho a ser seguido.”

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