Fotógrafo transformou sua obra em instrumento de denúncia social e defesa do meio ambiente, com projetos reconhecidos mundialmente
Por Jessica Coutinho
Morreu nesta quinta-feira (23), aos 80 anos, o fotógrafo Sebastião Salgado, considerado um dos maiores nomes da fotografia documental no mundo. A informação foi divulgada pelo Instituto Terra, fundado por ele e por sua esposa, Lélia Deluiz Wanick Salgado, em Aimorés, Minas Gerais.
Natural de Aimorés, Sebastião começou sua trajetória profissional na economia, mas foi na fotografia que encontrou sua verdadeira missão. Suas lentes percorreram mais de 100 países, documentando temas sociais, econômicos e ambientais, sempre com olhar sensível sobre questões como desigualdade, migração, trabalho e devastação ambiental.
Ao lado de Lélia, foi responsável pela criação do Instituto Terra, que recuperou uma área de mais de 600 hectares de Mata Atlântica, um projeto que se tornou referência mundial em restauração ambiental.
O fotógrafo mantinha fortes laços com o Espírito Santo. Foi em Vitória que conheceu Lélia, sua companheira de vida e de trabalho, e também foi na capital capixaba que realizou aquela que pode ter sido sua última exposição no Brasil, na Mosaico Fotogaleria. O proprietário da galeria, Gabriel Lordello, relembrou que a notícia foi recebida com surpresa e profunda tristeza.
“Não tinha nenhuma informação de que ele estivesse com algum problema de saúde. A gente recebe essa notícia com muita tristeza. Para nós da Mosaico, ele aceitar fazer uma exposição numa pequena galeria no Espírito Santo, sendo alguém que já expôs nos maiores museus do mundo, foi um gesto de muita generosidade e humildade”, contou.

Gabriel lembra que a exposição no Espírito Santo foi acompanhada por uma projeção no Sesc Glória, que lotou o teatro e emocionou o público. “Ele deixa um legado não só para a fotografia, mas para o planeta. O que ele fez pela preservação da natureza, pelo meio ambiente e pelas comunidades precisa ser lembrado para sempre”, afirmou.
O Sesc Espírito Santo relembrou o evento em suas redes socias. “Sebastião Salgado, que passou pelo Sesc Glória em dezembro de 2024 com a exposição ‘Amazônia’, nos deixa um legado de imagens que falam de humanidade, dor, beleza e resistência.”
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Renato Casagrande, governador do ES, prestou homenagem ao fotógrafo em suas redes sociais e anunciou luto oficial de 3 dias.

A morte de Sebastião também impactou a escola de samba Boa Vista, de Vitória, que levou para a avenida em 2025 um enredo sobre a vida e a obra do fotógrafo, conquistando o título do Carnaval de Vitória.
O presidente da agremiação, Emerson Xumbrega, destacou que a notícia foi recebida com grande tristeza. “Vínhamos de um campeonato homenageando Sebastião Salgado. Foi muito importante para a Boa Vista. Todo mundo na escola está muito triste, ninguém esperava. Foi uma perda repentina”, disse.
Ele lembra que o enredo contribuiu para divulgar ainda mais a história do fotógrafo. “Algumas pessoas passaram a conhecer melhor a trajetória dele. Foi uma homenagem em vida, isso é muito significativo, porque, muitas vezes, o reconhecimento vem depois da partida. Tivemos a honra de prestar essa homenagem quando ele ainda podia acompanhar”, completou.
O carnavalesco Cahe Rodrigues, responsável pela concepção do desfile, também lamentou a perda. “O mundo perde um artista gigantesco, um gênio da fotografia. A obra do Sebastião é uma fonte inesgotável de inspiração”, afirmou.
Cahe destacou ainda a importância do legado que Sebastião construiu ao lado de Lélia. “Ele deixa uma mensagem de amor, de esperança, de luta pelos sonhos e pela preservação. O Instituto Terra é prova disso. Eles enfrentaram um cenário completamente devastado e transformaram aquilo em vida. Isso mostra o poder da resistência, da persistência e do amor.”
Ao longo da carreira, Sebastião recebeu os maiores prêmios da fotografia mundial e teve suas obras expostas nos principais museus e galerias do planeta. Entre seus trabalhos mais conhecidos estão séries como Trabalhadores, Êxodos, Gênesis e Amazônia, que retratam não apenas imagens, mas realidades profundas e, muitas vezes, invisibilizadas.
O Instituto Terra informou que seguirá mantendo vivo o legado de seu fundador, reforçando o compromisso com a restauração ambiental e a transformação social. Sebastião Salgado deixa a esposa, Lélia, os filhos Juliano e Rodrigo, e os netos Flávio e Nara.

