A pesquisa capixaba contribuiu para a criação do mais completo estudo sobre o mapa genético brasileiro, publicado recentemente pela revista Science
Amanda Amaral
Dois professores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) coordenadoram estudos que dizem muito sobre a formação da população capixaba. Um deles destaca os fluxos migratórios no Espírito Santo, de 1810 até os anos 2010. Já a outra pesquisa, sobre os povos originários em Aracruz, contribuiu para a formação do mais completo estudo sobre o mapa genético brasileiro.
O primeiro estudo foi realizado pela pela professora do Departamento de Ciências Sociais e coordenadora do Laboratório de Estudos dos Movimentos Migratórios da Ufes, Maria Cristina Dadalto, com o professor do Programa de Pós-Graduação em Geografia Ednelson Mariano Dota.
A pesquisa foi dividida em quatro períodos, que vão desde 1810 até os anos 2010, passando pela chegada dos primeiros imigrantes na era colonial, pela expansão das frentes agrícolas no interior, pela articulação da política de erradicação do café e pelo crescimento da indústria do petróleo, entre outros marcos históricos.
“Nossa hipótese é a de que as políticas estatais foram as principais condicionantes dos fluxos migratórios do Espírito Santo ou que nele se originaram ou se destinaram. Essas políticas impulsionaram o deslocamento da concentração de riquezas do interior, junto à classe rural do estado no período da colonização até os anos de 1960 para a Grande Vitória. Foram elas, em diferentes contextos históricos, que gestaram a transformação sociocultural, econômica e política do estado, sendo a redistribuição espacial da população uma de suas faces”, destaca a professora.
Sequenciamento genético
Já o estudo Saúde Indígena no Espírito Santo, foi coordenado pelo professor de Fisiologia no Centro de Ciências da Saúde da Ufes, José Geraldo Mill. A pesquisa capixaba contribuiu para o mais completo estudo sobre o mapa genético brasileiro, publicado recentemente pela revista Science.
O professor explica que a pesquisa analisou os genomas completos de 2.723 pessoas como parte do projeto DNA do Brasil, e inclui indivíduos de comunidades urbanas, rurais e ribeirinhas das cinco regiões geográficas do País. O Espírito Santo contribuiu com amostras biológicas da população indígena de Aracruz, coletadas a partir do estudo Saúde Indígena no Espírito Santo, coordenado por ele.
As amostras foram encaminhadas para a Universidade de São Paulo (USP) para elaboração de um sequenciamento de genoma. Essa pesquisa revelou mais de oito milhões de variantes genéticas desconhecidas até hoje, além disso 60% é da ancestralidade europeia, 27% africana e 13% nativa. As maiores porcentagens de ancestralidade africana estão no Norte e no Nordeste do País, enquanto as europeias se concentram no Sul e no Sudeste.

“É interessante observar que toda a movimentação migratória fica escrita em nosso DNA. Através desse estudo, pudemos perceber, por exemplo, que a miscigenação é mais realizada ao longo da história pela via da mulher. Isto é, foi mais comum o homem branco se relacionar com mulheres indígenas e negras do que a mulher branca se relacionar com homens dessas etnias. Isso é importante do ponto de vista histórico e também do ponto de vista biológico atual, pois muitas doenças – ou mesmo resistência a certas doenças – são típicas de uma etnia ou outra e são herdadas por via maternal ou paternal, conforme o caso. Então podemos perceber, através do estudo de genoma, o perfil e as predisposições das doenças, tendo possibilidade de influenciar na política de saúde”, diz o professor.

