Professores da Ufes falam sobre “preguiça mental” com uso do ‘brain rot’ por adolescentes e jovens que não querem encarar a leitura
Por Amanda Amaral
O termo ‘brain rot’ está em alta e significa “cérebro cansado” ou “cérebro apodrecido’. As palavras foram eleitas a expressão do ano de 2024 pelo Dicionário Oxford, devido ao uso excessivo das telas na vida atual, principalmente, por adolescentes e jovens, o que pode interferir até nos estudos.
Uma reportagem do G1 fala sobre aplicativos específicos que transformam o arquivo PDF em uma sucessão de imagens genéricas, muito estimulantes visualmente e com baixa exigência cognitiva, enquanto o texto que inicialmente estava escrito é lido em voz alta.
Flávia Amorim Sperandio é pedagoga e do Colégio de Aplicação Criarte da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), especialista em Informática na Educação e pesquisa temas como tecnologias e os impactos no desenvolvimento e uso de tecnologias em diferentes perspectivas metodológicas. Ela explica que usar essa “tática” é um deslocamento do próprio sentido de aprendizagem.
“A experiência com os vídeos de alto estímulo pode parecer dinâmica e atraente, mas os processos cognitivos envolvidos são na verdade o oposto: nossa atenção se torna viciada e menos capaz de produzir as conexões necessárias para os processos de aprendizagem. Nosso cérebro não é preenchido com esses estímulos, mas sim drenado e ensinado a esperar por mais conteúdos prontos e superestimulantes”, pontua.
Lidar com dificuldades
Flávia Amorim Sperandio alerta que o ganho não vem em “driblar” as dificuldades, mas justamente superá-las. “Cada pessoa tem suas formas de aprender e de se relacionar com os conteúdos e as experiências. Para se conhecer e se conectar com modos mais assertivos de aprendizagem é preciso lidar com as dificuldades que fazem parte do processo”, afirmou.
O professor do Departamento de Psicologia Social e do Desenvolvimento da Ufes, o psicólogo Elizeu Batista Borloti, tem estudos sobre o tema e é especialista em análise experimental do comportamento, análise comportamental da cultura, dependência química e práticas culturais.
Ele chama atenção para quem faz uso de estratégias com ‘brain rot’ para estudar e já apresenta déficits em funções cognitivas como atenção, memória, linguagem e raciocínio lógico. Contudo, entende que o uso moderado das técnicas com brain rot pode funcionar como uma ferramenta de revisão ou reforço de memorização, mas somente, para quem já compreendeu bem o conteúdo.
“Em resumo, o uso repetido desse recurso pode criar um viés de economia cognitiva — ou seja, o cérebro tende a evitar o esforço necessário para desenvolver respostas complexas, como argumentações lógicas ou interpretações aprofundadas”, afirmou.
Para o professor, esse tipo de técnica pode estimular a “preguiça mental” ou passividade cognitiva. Ele lembra que o cérebro adolescente ainda está em desenvolvimento, especialmente em áreas que são responsáveis pelas funções executivas.
“O bombardeio de imagens e estímulos rápidos pode gerar um tipo de hiperestimulação, que interfere na capacidade de manter atenção sustentada, organizar ideias e inibir impulsos. A dificuldade do adolescente em inibir impulsos pode ser uma variável importante no desenvolvimento do vício de celular e de internet”, alerta.
Demandas individuais
Elizeu Borlotti destaca que a entrega do conteúdo já interpretado impede o desenvolvimento de conexões sinápticas profundas e a consolidação da memória de longo prazo, além de ignorar as diferenças individuais nos estilos de aprendizagem, como memória visual, auditiva, cinestésica ou espacial.

“Consequentemente, para alguns pode ser funcional e para outros, desfuncional. A neurociência aponta para métodos mais eficazes de estudo, como a Técnica Pomodoro, que respeita o tempo natural de atenção e pausa, ajudando na regulação do foco, e os Mapas mentais, que favorecem a organização visual do pensamento e a conexão entre ideias, ativando tanto o hemisfério cerebral esquerdo (lógico) quanto o direito (criativo). Já o brain rot, por entregar tudo “mastigado”, desativa o processo de construção mental — fundamental para a flexibilidade cognitiva e a resolução de problemas”, disse o professor da Ufes.
Já a pedagoga explica ainda que há estratégias para encontrar modos atencionais adequados às demandas individuais, ou seja, de acordo com a necessidade de cada estudante.
“O estudante pode aproveitar aspectos reproduzíveis para induzir, intencionalmente, esse modo de atenção mesmo quando está lidando com um conteúdo que o interessa menos. Além disso, pode tornar a experiência de estudo mais ativa, por exemplo, ler fazendo anotações, sublinhando, interagindo mais diretamente com o texto. Ainda, pode fazer pausas na leitura, olhar para longe, relaxar a musculatura, prestar atenção à respiração, e voltar a se concentrar”, conta.
Alerta para os pais
Flávia Amorim Sperandio alerta ainda os pais para um acompanhamento mais próximo dos filhos visando a ensinar e valorizar aspectos como a construção de autonomia, o pensamento crítico e o poder de reflexão e interpretação. “Se reduzirmos as estratégias a processos mecanizados e externos, nosso pensamento e nossa atenção também se tornam mecanizados e superficiais, e diminuímos nossa capacidade de lidar com questões complexas. Em outras palavras, a solução para conseguirmos lidar com informações complexas não é simplificando-as, mas complexificando nossas estratégias e habilidades”, disse.
Elizeu Borlotti explica ainda que, mais do que cuidado dos pais, é necessário educação digital e acompanhamento intencional, com envolvimento dos responsáveis no processo de aprendizado, inclusive, monitorando o conteúdo estudado.

“O objetivo da educação deve ser fortalecer o funcionamento das funções executivas, como: Inibição de distrações; Memória de trabalho (manter e manipular informações mentalmente); Organização e planejamento; e Capacidade de revisão e monitoramento do próprio desempenho. Essas são funções fundamentais não apenas para o sucesso escolar, mas também para a vida adulta, e precisam ser treinadas desde cedo. O brain rot impede este treino cerebral”, ratifica.

