Mais de 80% das empresas que atuam no Estado estão interessadas em créditos para descarbonização, e o governo prepara medidas para movimentar esse mercado
Por Simone Azevedo
A descarbonização da economia até 2050 é uma prioridade para um grupo de países que representam mais de 90% do Produto Interno Bruto (PIB) global, entre eles o Brasil. No Espírito Santo, o governador do Estado, Renato Casagrande, anunciou R$ 500 milhões em financiamento para projetos de transição energética e descarbonização, com recursos do Fundo Soberano. O anúncio foi feito no último dia de participação na Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas (COP29), que aconteceu em Baku, no Azerbaijão, em novembro do ano passado.
Durante o evento, Casagrande assinou o decreto que institui o Selo Descarboniza-ES para certificar empresas e instituições que implementem medidas para reduzir suas emissões de gases de efeito estufa. A medida pretende acelerar os processos de mudança de matriz energética no Estado, uma vez que o selo deverá ser incorporado como critério para a concessão de incentivos fiscais e de crédito, sendo o Fundo de Descarbonização o principal mecanismo para empresas capixabas captarem recursos voltados a projetos climáticos.
De acordo com informações da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Seama), a partir do segundo semestre deste ano as empresas interessadas poderão iniciar o processo de adesão ao selo. Para obter a certificação, a empresa precisa apresentar um inventário atualizado de emissões, um plano de descarbonização com metas claras e uma comprovação de redução ou compensação de pelo menos 5% das emissões no Espírito Santo.
Acelerando a marcha na corrida rumo ao carbono zero, o Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes) iniciou em abril uma chamada pública nacional para a seleção de uma empresa gestora que será responsável pela estruturação e administração do Fundo de Descarbonização, composto por recursos do Fundo Soberano. A empresa selecionada terá que entregar uma política de investimento com foco em setores como energia renovável, eficiência energética, biocombustíveis, restauração, eletrificação industrial e agricultura regenerativa. O resultado deverá ser conhecido em agosto.

“Esse edital é decisivo para a estruturação do Fundo de Descarbonização. Nossa expectativa é que gestoras com ampla experiência em finanças climáticas, capazes de estruturar veículos de investimento alinhados com os desafios da transição energética e da economia de baixo carbono, apresentem suas propostas. Esperamos que a vencedora esteja à altura da ambição do Espírito Santo de estar entre os protagonistas da agenda verde no país”, comenta o diretor-presidente do Bandes, Marcelo Saintive.
Tanto o Selo Descarboniza-ES quanto o edital do Bandes fazem parte das ações do Plano de Descarbonização do governo do Estado, que contempla medidas como linhas de crédito diferenciado para projetos de transição energética, implementação de políticas de regulamentação e atração de investimentos.
O documento prevê ações de financiamento estimadas em quase R$ 5 bilhões para o alcance de 27% de redução das emissões até 2030, o que é fundamental para que o Espírito Santo cumpra com os compromissos feitos em 2021 no Acordo de Paris e nas campanhas “Race to Zero” (Corrida para o Zero) e “Race to Resilience” (Corrida para a Resiliência), da Organização das Nações Unidas (ONU). O objetivo é neutralizar as emissões de gases de efeito estufa até 2050.
Indústria de olho nesse mercado
Com a indústria representando 29,7% do PIB capixaba, o Espírito Santo ocupa a posição de quinto estado mais industrializado do país, por isso o setor é protagonista na corrida pela descarbonização. Na largada desse processo, empresas capixabas estão de olho no mercado de créditos de carbono em expansão.
A Pesquisa Descarbonização e Eficiência Energética realizada com 200 empresas em parceria entre Bandes e Observatório da Indústria da Federação das Indústrias do Estado (Findes) mostrou que 80% delas demonstram grande interesse em adotar medidas de descarbonização e que para 72% dessas empresas as linhas de crédito acessíveis seriam o principal tipo de apoio que precisam.

“Nesse sentido, iniciativas que promovam a redução dos custos para implementação de medidas de descarbonização são fundamentais para transpor uma das principais barreiras identificadas e facilitar o acesso a linhas de crédito e financiamento poderia fortalecer o suporte necessário para que as medidas de descarbonização e eficiência energética sejam adotadas”, afirma a gerente de Inteligência de Dados e Pesquisas do Observatório Findes, Suiani Febroni.
Entre as ações que colocam o Estado na dianteira dessa corrida está o ES Carbono Neutro: Programa de Incentivo a Projetos de CCS (Carbon Capture and Storage, ou em português, Captura e Armazenamento de Carbono) da Indústria, uma iniciativa da Findes, Petrobras e Governo do Estado que aposta em um novo mecanismo de captura e armazenamento de CO2 e produção de hidrogênio de baixo carbono em larga escala para criar um hub estratégico de captura de carbono. Esse mecanismo possui potencial de mitigar a emissão de 10 milhões de toneladas anuais de carbono até 2050.
De acordo com informações da Findes, essa solução ambiental consiste em capturar o dióxido de carbono gerado em processos industriais, transportá-lo por meio de dutos ou outros modais e armazená-lo em formações geológicas subterrâneas. O objetivo é impedir que o CO2 chegue à atmosfera. O programa é a primeira entrega do acordo de cooperação firmado em agosto de 2024.
Nos próximos meses, o ES Carbono Neutro vai avançar com ações-chave, incluindo o direcionamento de recursos para projetos de CCS, a participação na elaboração de legislações ambientais e o início da qualificação de profissionais, como agentes ambientais, engenheiros e jornalistas. Até dezembro de 2027, o foco será a regulação do mercado de carbono e a reserva de áreas para novos projetos de CCS no Estado.

Guilherme Barbosa, CEO e fundador da plataforma de conteúdo e tecnologia climática ECO55, avalia que o grande desafio da agenda descarbonização da economia mundial é que ela seja justa. “No contexto regional brasileiro e capixaba, essa transição pode levar muita gente para a linha da pobreza, seja por substituição ou disrupção tecnológica. Então para que a transição para uma economia de baixo carbono seja justa do ponto de vista social, ela precisa ser inclusiva e gerar oportunidades. Mas para isso é fundamental a transparência, a contabilidade de emissões e o envolvimento das pessoas com medidas compensatórias para minimizar os efeitos climáticos e físicos”, conclui o especialista.
CCUS, a nova fronteira da descarbonização indsutrial
CCUS é a sigla para Carbon Capture, Utilization and Storage — em português, Captura, Utilização e Armazenamento de Carbono. O conceito é uma evolução do CCS (Captura e Armazenamento de Carbono), com um diferencial importante: o foco na reutilização do CO2 capturado, antes — ou em vez — de simplesmente armazená-lo de forma permanente.
Entre as principais aplicações do CO2 capturado estão:
- Transformação em combustíveis sintéticos;
- Utilização em processos industriais, como a produção de bebidas carbonatadas;
- Aplicações em materiais de construção, como cimento e concreto com capacidade de absorção de CO2.
A tecnologia é considerada estratégica para reduzir as emissões em setores de difícil descarbonização, como a indústria pesada e o setor de energia.
*Matéria publicada orginalmente na revista ES Brasil nº 227, de junho de 2025. Leia a edição completa do Anuário Verde aqui.

