Enquanto o país ainda repercute a megaoperação mais letal da história do Rio, líderes estaduais articulam uma frente política em torno do tema da segurança pública
Por Denise Miranda
O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), participou de uma reunião virtual emergencial com alguns governadores das regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste, nesta quarta (29), sobre segurança pública após a operação que deixou mais de uma centena de mortos. Deste encontro on-line, uma comitiva de gestores estaduais está sendo formada para uma reunião presencial no Rio de Janeiro, nesta quinta-feira (30).
No entanto, segundo apuração da ES Brasil, o governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), não havia sido oficialmente convidado. A informação foi confirmada pela assessoria do gestor capixaba.
O encontro, liderado por Castro, marca uma nova movimentação política de governadores de perfil conservador que buscam alinhar um discurso de endurecimento no combate ao crime organizado e, ao mesmo tempo, fazer frente à política de segurança do governo federal. O clima é de tensão e cobrança — tanto sobre a atuação da União quanto sobre as responsabilidades dos estados.
Entre os nomes confirmados estão Romeu Zema (Novo-MG), Ronaldo Caiado (União-GO), Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Jorginho Mello (PL-SC). Também foram convidados Eduardo Leite (PSD-RS), Mauro Mendes (União-MT), Ratinho Jr. (PSD-PR) e a vice-governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP). O grupo deve discutir ações conjuntas de cooperação policial, intercâmbio de informações de inteligência e a possibilidade de pressionar o governo federal para ampliar a presença das Forças Armadas nas fronteiras e nas áreas dominadas por facções.
A expectativa é que cerca de dez governadores participem do movimento. A reunião está prevista para acontecer entre 17h30 e 18h, no Palácio Guanabara, e terá como principal pauta a criação de um plano integrado de combate ao tráfico de drogas, armas e contrabando entre os estados do Sudeste e do Centro-Oeste.
Mudança de tom
Em março deste ano, o governador do Rio de Janeiro havia afirmado que o Rio “não precisava de reforço federal” e que sua polícia estava “estruturada”. “Eu não preciso que ninguém entre com polícia nova no Rio. A minha polícia está estruturada”, disse à época. Sete meses depois, o discurso é outro. Após a operação que terminou com 132 mortos, Castro passou a afirmar que enfrenta o crime “sozinho” e acusou o governo Lula de negar apoio militar. Segundo ele, o Planalto teria recusado três pedidos de empréstimo de blindados das Forças Armadas, o que, segundo sua avaliação, teria prejudicado o avanço das tropas estaduais nas comunidades dominadas.

O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, negou as declarações do governador fluminense e afirmou que não houve solicitação formal de equipamentos ou apoio operacional. O Planalto, por sua vez, classificou o episódio como uma “tentativa de politização da segurança pública” e reforçou que o governo federal “mantém canais abertos de cooperação com todos os estados”.
Enquanto governadores se movimentam politicamente em torno do tema, a ausência de Renato Casagrande, que governa um estado diretamente afetado pela divisa com o Rio gera questionamentos, sobretudo porque o tema da segurança pública será o principal eixo das eleições de 2026, com potencial para dividir o país em torno de dois discursos: o da “lei e ordem”, defendido por governadores conservadores, e o da “inteligência e prevenção”, sustentado pelo governo federal e aliados.

