A Arte Para Ganhar a Vida

De materiais que seriam jogados no lixo, como palha de café e latas de alumínios, artesãos capixabas criam produtos que conquistam o Brasil e exterior

Fibra de bananeira, palha de café, latas de alumínio, conchas, barro… Citados assim, aleatoriamente, esses materiais podem parecer sem importância. Mas o que seria lixo, na verdade, torna-se luxo por meio de mãos habilidosas, como matéria-prima dos mais diferentes produtos do artesanato capixaba. Criações que geram dinheiro e ganham cada vez mais reconhecimento internacional.

Exemplo disso vem do trabalho da artista plástica Giovanna Rocha Barbosa. Por meio da fundição de conchas com alumínio, aço e palha, ela desenvolve peças de design inovador, hoje exportadas até para os Estados Unidos. As mais conhecidas de suas obras são as bailarinas, feitas do alumínio de latas recicladas, com saias de conchas de coloração natural.

“O trabalho com conchas sempre fez parte da iconografia cultural do Estado.
É um dos nossos símbolos, ao lado da panela de barro e da moqueca. Mas percebia que os produtos desenvolvidos eram muito simples, em formato de bibelôs. Busquei criar algo diferenciado, usando essa mesma matéria-prima, só que agregando design.
Daí surgiram as bailarinas, que fazem bastante sucesso nas feiras de que participo”, explica Giovanna, que também produz uma linha de utilitários, como porta-guardanapos e outros objetos mais voltados para o lar, unindo conchas a materiais diversos, como palha, sisal, etc.

Criatividade para transformar uma matéria-prima bastante utilizada, como as conchas, em algo inovador é um dos caminhos para se fazer sucesso como artesão, de acordo com especialistas do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).
“É importante fazer pesquisa de tendências, assistindo à TV, vendo revistas de decoração, caminhando em shoppings e olhando as vitrines. Assim dá para descobrir qual é a demanda do mercado, o que está na moda”, orienta Débora Paiva Magnago, gestora do Programa de Artesanato do Sebrae-ES. “Com isso, acabam surgindo produtos inovadores, algo fundamental para o artesão conseguir se destacar.”

Débora aponta três formas para que um artesanato se destaque: sendo ecologicamente correto, ou seja, produzido a partir de material reciclado e sem gerar resíduo na fabricação; sendo economicamente viável, tanto para quem está vendendo como para quem está comprando; e sendo socialmente justo. “Inovação é usar materiais reciclados ou abundantes na natureza, como as fibras”, completa.

Requisitos preenchidos com louvor por uma artesã do Sul do Estado. É na palha do café que Valdete Reis Almeida encontra a matéria-prima para criar a sua arte.
Com os restos do cultivo de uma das principais riquezas capixabas, ela produz jarros, mandalas, quadros e outros objetos decorativos.


“A palha do café era um lixo da plantação e sempre era queimada. Vi e pensei em aproveitar aquele material. Só que, no início, dava bolor e atraía insetos. Demorei seis anos para encontrar a técnica correta para transformar aquilo em artesanato”, conta Valdete.

Sua arte passou a fazer tanto sucesso que, há 13 anos, ela montou um ateliê na parte de baixo da própria casa, às margens da BR 101, em Rio Novo do Sul, onde conta com a ajuda de até 10 funcionários, de acordo com a demanda. “O dinheiro do artesanato me ajuda a cobrir as despesas do lar e até a pagar os gastos de duas filhas que cursam faculdade particular fora do Estado”, revela a artesã-empreendedora. “A arte é a minha paixão e também o meu sustento.”

Graças à participação em feiras e exposições, no Brasil e no exterior, os produtos de Valdete Reis tornaram-se conhecidos, o que permitiu à artesã capixaba firmar parceria com a loja Tok&Stok, que revende seu artesanato em todo o território nacional.
Tornar o artesanato capixaba ainda mais conhecido nacional e internacionalmente é um dos objetivos tanto do Sebrae-ES como da Secretaria de Estado de Trabalho, Assistência e Desenvolvimento Social (Setades).

“Com o apoio do Programa do Artesanato Brasileiro (PAB), do Governo Federal, o Estado vem investindo para tirar o artesão do anonimato e dar a ele uma carteira nacional, permitindo a participação em feiras nacionais e internacionais. É uma forma de reconhecimento”, destaca Fernanda Vescovi, gerente de Artesanato da Setades.

Foi assim que Giovanna Barbosa conseguiu conquistar novos mercados para o seu artesanato de conchas. “As feiras ajudam o artesão a colocar a cara no mundo. Sem esse apoio, não conseguiríamos tornar nossos produtos conhecidos”, admite Giovanna. “Hoje, 95% do que produzo é vendido para fora do Estado, inclusive para os Estados Unidos. Para 2018, minha meta é tocar um projeto de exportação, para outros mercados fora do país.”
Para poder participar de feiras e exposições e ter outros benefícios, como vender seus produtos sem pagar imposto, é preciso antes possuir a Carteira Nacional de Artesão. Para obter esse documento, emitido no Estado pela Setades, o artista deve passar por um teste de habilidade, sob avaliação de técnicos especializados, dentro dos critérios do PAB. Hoje, o Espírito Santo já tem cerca de 9 mil artesãos cadastrados dessa forma.

“Com esse cadastramento, queremos aumentar o nível do artesanato capixaba, para que possa ser visto como uma indústria. E, assim, dar ao turista e aos demais clientes a garantia de que está levando um produto bom”, explica Fernanda Vescovi, da Setades.
De fato, o artesanato integra uma indústria em plena expansão: a da economia criativa. Na última década, no Brasil, houve um crescimento de 70% nesse setor, formado por uma série de atividades que dependem da criatividade e do talento individual, como o design, a moda, a arquitetura, a tecnologia da informação e as artes em geral, entre outras. Reunida, a riqueza gerada pela indústria criativa representa 2,7% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.

De acordo com levantamento do Instituto Jones dos Santos Neves, tendo como base dados da Pesquisa Nacional de Amostragem em Domicílio (Pnad), que abrange os mercados formal e informal, o Espírito Santo tem 144,3 mil pessoas ocupadas em atividades criativas, conforme números do quarto trimestre de 2016. Esse valor equivale a 8,2% do total de pessoas ocupadas no Estado.

Quando se leva em consideração apenas o mercado formal, conforme dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho, a indústria criativa no Espírito Santo era formada, em 2015, por 1.330 empresas. Houve um crescimento de 24% em relação a 2010, bem acima da média da economia tradicional, que foi de 14,9%, de acordo com levantamento do Instituto de Desenvolvimento Industrial do Espírito Santo (Ideies), em parceria com o Serviço Social da Indústria (Sesi) e com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

Com esse crescimento, aumenta também a preocupação para que essa atividade se torne financeiramente viável para quem a exerce. Por isso, tanto o Sebrae como a Setades defendem uma maior profissionalização dos artesãos. Ao mesmo tempo, desenvolvem novas formas para que eles possam expor e comercializar os seus produtos.

No fim do ano passado, foi inaugurada, no Shopping Vitória, a loja “Artesanato Capixaba”. O espaço reúne a produção de 128 artesãos. Estão à venda, além das tradicionais panelas de barro, peças em cerâmica e em madeira, acessórios e objetos de decoração. “É um local para servir de referência na venda de produtos artesanais capixabas. Em breve, queremos ter também um catálogo digital, para que os artesãos do Estado possam expor e comercializar suas criações via internet”, planeja Fernanda Vescovi, da Setades. “Nosso papel é criar um ambiente para esse setor se desenvolver ainda mais e da melhor maneira possível.”

NEM SÓ DE MOQUECA VIVE A PANELA DE BARRO
Quando o assunto é artesanato, há um produto que se destaca acima dos demais no Espírito Santo: a panela de barro. O símbolo máximo da cultura capixaba tem seus segredos para resistir ao tempo e não perder espaço nos fogões. Não só como utensílio para cozinhar a tradicional moqueca capixaba, mas também para preparar outros pratos da gastronomia.

“Hoje em dia a panela de barro não é usada só para fazer moqueca. Ela vai muito além do peixe. Diversos pratos diferentes estão sendo feitos usando as nossas panelas, que caíram no gosto de grandes chefs de cozinha”, afirma a presidente interina da Associação das Paneleiras de Goiabeiras, Berenice Nascimento.

Qualidade garantida por uma tradição milenar, que tornou a panela de barro capixaba o primeiro bem material tombado no Brasil, com reconhecimento até internacional. Uma arte que é passada há séculos de pais para filhos. “É uma arte. Primeiro tem de retirar o barro, que vem do Vale do Mulembá, situado em Joana D’Arc, Vitória. Depois tem de moldar até criar o formato de uma panela, que sirva para cozinhar alimentos sem deixá-los amargos. É uma atividade trabalhosa, 100% artesanal, feita à mão, à beira de uma fogueira, seja no calor de verão, seja durante um temporal”, detalha Berenice.

Só em Goiabeiras cerca de 80 pessoas trabalham nesse artesanato, produzindo em torno de mil panelas por mês. E tão saboroso como uma boa moqueca feita na panela de barro é o reconhecimento a esse produto tipicamente capixaba. “Não há nada igual no mundo. Podem tentar imitar, mas ninguém faz (panelas) iguais às nossas”, garante Berenice.

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