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A revolução tecnológica africana

A África é um centro de inovação tecnológica, com hubs de startups florescendo em países como Quênia, Nigéria e África do Sul

Por Ricardo Paixão

A África é frequentemente retratada pela imprensa e por órgãos internacionais de forma negativa, com ênfase nos problemas, obstáculos e desafios, como conflitos, pobreza e instabilidade política. No entanto, essa visão distorcida ignora os avanços significativos em modernidade e desenvolvimento que estão ocorrendo no continente. A África é um centro de inovação tecnológica, com hubs de startups florescendo em países como Quênia, Nigéria e África do Sul, impulsionando fintechs e soluções digitais que têm transformado a economia.

Investimentos em infraestrutura, energia renovável, educação e saúde também estão mudando a paisagem do continente. Há uma crescente classe média, cidades modernas em expansão e um dinamismo econômico que não recebe a atenção devida. Essa narrativa limitada não faz justiça ao potencial e às realizações da África, que se consolida cada vez mais como um continente de oportunidades e resiliência.

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Em 2007, foi lançado no Quênia, pela empresa Safaricom, o “M-PESA” que consiste num dos sistemas de pagamentos móveis mais inovadores e influentes do mundo. A sigla “M-PESA” vem de “mobile” e “pesa”, que significa “dinheiro” em suaíli, língua tradicional falada na costa oriental e em ilhas da África. Esse sistema foi desenvolvido inicialmente para permitir que pessoas sem acesso a serviços bancários tradicionais pudessem realizar transações financeiras usando seus telefones celulares. Hoje, o M-PESA é muito mais do que um simples serviço de transferências; é um ecossistema financeiro completo que facilita pagamentos, poupança, crédito e acesso a uma gama de serviços financeiros.

O sistema opera basicamente como uma carteira digital acessível por celular. Para usar o serviço, os usuários devem se registrar em uma agência M-PESA ou em uma loja autorizada da Safaricom, onde recebem um cartão SIM habilitado. Com uma conta ativa, os usuários podem: depositar dinheiro; enviar e receber dinheiro; sacar dinheiro; pagar contas e serviços e contratar serviços de empréstimos e poupança.

Esse meio de pagamentos operacionaliza um volume impressionante de recursos. Em 2023, estima-se que ele tenha movimentado cerca de 50 bilhões de dólares apenas no Quênia, onde quase metade do PIB do país passa pelo sistema. A plataforma possui mais de 51 milhões de usuários ativos em sete países africanos, incluindo o Quênia, Tanzânia, Moçambique, Lesoto, Gana, República Democrática do Congo e Egito.

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O M-PESA foi criado principalmente para atender a população desbancarizada, isso inclui, moradores de áreas rurais, trabalhadores informais, e pequenos empreendedores. Antes dele, essas populações enfrentavam dificuldades para realizar transações financeiras básicas, como enviar dinheiro para familiares ou pagar contas. Micro e pequenos negócios também se beneficiam com esse sistema, pois podem receber pagamentos sem a necessidade de dinheiro físico, o que reduz o risco de assaltos e facilita o fluxo de caixa. O sistema simplifica operações e amplia o alcance dos negócios, que podem vender para clientes em qualquer parte do país.

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Essa nova tecnologia proporciona um impacto social significativo, especialmente entre mulheres e jovens, que costumam ter menos acesso a serviços financeiros. Com ele, as mulheres podem administrar melhor suas finanças, economizar e investir em pequenos negócios, contribuindo para a redução das desigualdades de gênero. Os agricultores, situados em áreas remotas, agora podem receber pagamentos por suas colheitas diretamente pelo celular, sem precisar viajar longas distâncias até um banco. Além disso, eles podem comprar insumos agrícolas e pagar serviços diretamente pelo celular.

Portanto, o M-PESA não é apenas um serviço financeiro, ele é um modelo de inclusão social e econômica que tem transformado a vida de milhões de africanos. Ele proporciona acesso a serviços que antes estavam fora do alcance de muitas pessoas e tem promovido a formalização de uma grande parte da economia informal. A simplicidade, segurança e acessibilidade dessa tecnologia são exemplos de como a inovação tecnológica pode gerar impacto profundo na sociedade, criando um sistema financeiro mais inclusivo e eficiente para todos.

Ricardo Paixão é economista, mestre em Economia e doutorando em Educação – UFES

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