André Akkari “A vida do jogador de poker profissional é muito mais online do que ao vivo”

Campeão no Word Series of Poker, André Akkari já acumulou milhões de dólares em sua carreira. Nesta entrevista, ele fala sobre a relação do poker com o mundo dos negócios

* Por Vitor Taveira

Em 2011, o paulista André Akkari sagrou-se campeão no Word Series Of Poker, o campeonato mundial de poker, realizado anualmente em Las Vegas, Estados Unidos. Os U$ 1500 investidos por ele para entrar no torneio se converteram em um prêmio de U$ 675 mil depois de ficar em primeiro lugar entre 2857 jogadores de todo o mundo. A efusiva festa da torcida brasileira presente no local marcou a entrada definitiva do Brasil no poker mundial. Reconhecido internacionalmente como esporte mental, jogo de cartas vêm conquistando cada vez mais adeptos no país, inclusive no meio empresarial, por gente interessada não só na diversão ou na remuneração, mas também nas habilidades que podem ser adquiridas a partir deste esporte que envolve administração de patrimônio, investimentos de riscos, análise de comportamento e outras habilidades.

Corintiano fanático, apaixonado por cachorros e apegado à família, o bem-humorado André Akkari concedeu entrevista exclusiva à ES Brasil, no qual fala de sua carreira e da relação do poker com o mundo dos negócios. Com uma gestão rigorosa de sua carreira, o jogador de 38 anos já acumulou milhões de dólares em prêmios. Atualmente, ele participa de torneios online duas vezes por semana em jornadas entre 10 e 15 horas em cada dia. Também viaja o mundo em torneios internacionais e ainda se dedica a cursos no Centro de Treinamento que criou em Cabreúva, interior de São Paulo.

ESB – Por que depois se formar em Publicidade e entrar como sócio em uma empresa, você acabou deixando esta carreira para jogar poker profissionalmente?
A primeira vez que tive contato com o poker foi em 2005. Trabalhava numa empresa pequena de tecnologia que montei com dois amigos. Fazíamos sites e estávamos começando. Tínhamos um cliente que era de Nova York que sempre mandava serviços para fazer aqui no Brasil, e um deles foi a de fazer um site de poker. Eu era o responsável por esse projeto e comecei a me interessar pelo jogo. Abri uma conta e comecei a brincar no modo play Money [aposta apenas com dinheiro virtual fictítcio]. Comecei a me divertir e a gostar do jogo. Na mesma época os torneios já estavam sendo transmitidos pelo canal ESPN e comecei a assistir também. Assim que tudo começou. Depois comecei a jogar com dinheiro real e em 2006 eu já estava mais preparado, estava ganhando regularmente mais do que ganhava em minha profissão. Aí eu resolvi conversar com minha esposa e meus sócios para virar jogador profissional de poker e graças a Deus deu certo.

ESB – Por que se tornou o jogador mais famoso do país? Trabalha seu marketing pessoal?
Desde quando comecei a jogar poker e as coisas começaram a dar certo, eu sabia que existiam outras oportunidades paralelas, além do jogo. Oportunidades de negócios, de sites, e de minha própria imagem que podia gerar outros benefícios não só no lado financeiro mas também do prazer de trabalhar em torno do poker. Aí comecei a investir no meu marketing pessoal, fazer meu blog e Facebook, que atualizo todos os dias. Foi por prazer e por detectar que existia uma oportunidade paralela ao que eu estava fazendo.

ESB – Você se destacou jogando inicialmente pela internet, depois jogando em torneios presenciais em vários países. Como é sua rotina?
A vida do jogador de poker profissional é muito mais online do que ao vivo. É a Internet que dá a amostragem para o jogador, você joga 20 telas ao mesmo tempo durante 12 horas por dia. Isso faz com que todas suas decisões que sejam corretas reflitam a médio e longo prazo com resultado positivo. Os campeonatos ao vivo vêm como um bônus dos bons resultados na internet. Cada vez que seu bankroll cresce e você tem condição de investir num torneio ao vivo, que têm prêmios maiores. Numa dessas que eu fui campeão mundial. Já tive várias outras grandes premiações, outros títulos não tão expressivos, mas meu grande momento foi o título mundial em 2011.

ESB – Há cada vez mais empresários buscando o poker como uma ferramenta para sua carreira. Quais os benefícios que este jogo pode trazer?
Os benefícios para os empresários são muitos. O poker traz um monte de coisas positivas, cria proatividade, força a se mexer de acordo com o patrimônio que você tem. Ao iniciar uma partida de poker cada jogador recebe uma mesma quantidade de fichas e cada um vai administrar seu patrimônio de uma forma diferente. Não tem a ver com dinheiro, mas com as fichas que você tem para ser campeão no final ou ser eliminado no começo, tudo pode acontecer. Proatividade é fundamental e o conhecimento econômico é muito grande, você tem que ter uma bela percepção de análise de riscos, saber em que momento a situação é arriscada e em que momento é de oportunidade, se vale a pena correr aquele risco. O poker é muito dinâmico, além de exercitar a mente.

Para treinar uma equipe, por exemplo, o poker é ótimo para fazer as pessoas entenderem que tem que sair de um ponto para chegar no outro. Para que não sejam só planejadoras e também saibam executar . No poker é muito importante planejar e estudar, mas se você não tiver coragem para atacar e fazer o que tem que ser feito as coisas não acontecem. A administração de riscos é muito importante também, é preciso saber avaliar quais os perigos que tem que assumir para chegar ao objetivo que você quer. No poker, cada mão jogada tem que avaliar a possibilidade de ganhar aquela mão com menor risco possível. Se você tiver que se arriscar tem que valer a pena o benefício por vir. São coisas fundamentais que o jogo pode trazer para o mundo empresarial.

ESB – Também serve para ajudar a entender os padrões de comportamento?
Na mesa de poker, em cada mão que você não está jogando, está recebendo informações gratuitas das outras pessoas jogando entre elas. Você deve acumular o máximo da biblioteca de informações dos oponentes para usar contra eles. Então prepara as pessoas para agirem com criatividade. Claro que quanto mais você vai evoluindo no jogo e enfrentando profissionais melhores, mais criativos eles vão sendo e mais difícil vai ficar o jogo. A brincadeira é essa, o jogo é esse.

ESB – Os jogos de azar são proibidos no Brasil, porém o poker foi reconhecido internacionalmente com Esporte de Mente. O poker não é um jogo de azar?
Para ter uma ideia, 76% das mãos que são jogadas no poker não vão até o final, então os jogadores sequer sabem quem tinha um melhor jogo. Jogadores profissionais têm gráficos extremamente positivos em toda sua carreira. Até 2010 havia uma discussão grande se o poker era ou não era um jogo de azar. A gente que joga poker colocava nossa opinião e esperávamos que fosse ouvida. Há estudos feitos no mundo inteiro em universidades como a de Harvard e de Tel Aviv. Toda essa discussão resultou na aprovação do poker pela International Mind Sports Association (IMSA), que é o órgão reconhecido mundialmente, que considerou o poker como um esporte mental em 2010. Daí para frente não tivemos mais esse problema.

ESB – Universidades importantes têm colocado o poker em sua grade curricular. É possível que isso aconteça no Brasil também?
Isso já existe na Unicamp, que foi a primeira universidade brasileira a colocar o poker em seu currículo. Foi a aula recorde de inscrições na Unicamp. É uma tendência, já estão inserindo também numa faculdade de Indaiatuba e a Fundação Getúlio Vargas (FGV) também está fazendo esse processo. Então vai acontecer aqui como já acontece em Harvard e várias outras universidades, pois há muitas habilidades que podem ser desenvolvidas a partir do poker.

ESB – O estudo, a disciplina e o uso da estatística são fundamentais para fazer um bom jogador…
São bases importantes para se formar boas pessoas em geral, empresários e empreendedores. Empreender é isso, às vezes você ao abrir alguma coisa está correndo o risco de perder dinheiro pela possibilidade de ganhar bastante dinheiro mais à frente. O poker ensina bastante disso. O bom jogador se vê a longo prazo através do seu gráfico de desempenho. Mais do que os títulos, meu maior mérito é ter ficado apenas um mês no negativo em toda minha carreira.

ESB – O poker está crescendo no Brasil? Por quê?
O poker está bombando lá fora. No Brasil temos a tendência de refletir o que tá rolando na Europa e Estados Unidos, dificilmente uma tendência sai daqui para lá, quase sempre vem de lá para cá. O poker é uma febre enorme. Na Europa nos últimos três anos aconteceu este processo de crescimento, tem muita gente jogando, os grandes jogadores são estrelas. No Brasil está começando a acontecer também, mais pessoas estão envolvidas, mais gente jogando torneios e pela internet e algumas pessoas despertam tendência a ser profissional. O nível técnico está aumentando demais, tem muita gente boa jogando.

ESB – Jogando ou torcendo, o brasileiro atua de maneira diferente em relação aos os países? Existe um brazilian way of poker?
Jogando acho que no geral ainda temos um nível técnico inferior ao de fora, porque lá começou há muito mais tempo. Mas no torcer a gente já é famoso no mundo inteiro por se relacionar com o poker como a gente se relaciona com o futebol. Isso é muito legal, é uma forma bastante diferente de ver o jogo a nível mundial. A galera hoje em dia torce mesmo, as finais têm torcida organizada, fazendo cantos e tudo mais, como aconteceu comigo em 2011, que acho que foi o grande momento de quebra dessa rotina do poker de ser um pouco mais fechado, mais contido. De repente isso mudou a partir do meu título e a galera continua levando isso para outros torneios.

ESB – As empresas também estão investindo no patrocínio ao poker?
Há mais empresas querendo divulgar suas marcas relacionadas ao poker à medida que esse preconceito vai sendo quebrado, então vão vendo que é um mercado consumidor muito grande, um público alvo bom, que inclui classe A, B e C. Inclui uma classe consumidora que viaja para Las Vegas, Montecarlo e para o Uruguai jogar, então é um belo público consumidor. Relacionar-se com mundo do poker é um negócio que agrega valor às marcas. Também há empresas que estão vendo que é um jeito de criar dinamismo entre os seus departamentos de RH, algumas empresas organizam torneios de poker entre seus funcionários, por exemplo.

ESB – Por que decidiu criar um Centro de Treinamento para jogadores de poker?
Uma coisa importante no poker é a formação de times, a gente educa pessoas para jogar e somos patrocinadores e investidores deles. Ninguém faria isso num jogo de azar. A gente faz porque sabe que passando pelo treinamento apropriado, conseguimos formar um time lucrativo e ganhar mais dinheiro com isso. Então eu montei um centro de treinamento onde preparamos esses garotos, geralmente entre 23 e 28 anos de idade, de uma forma lucrativa, com conceito técnico bem avançado para eles poderem ganhar torneios online, torneios ao vivo. Eles treinam o dia inteiro e jogam todos os dias. De 30 em 30 dias colocamos 10 novos jogadores lá. Na última participaram 4800 pessoas para 10 vagas, é mais concorrido que a Fuvest! Depois dos 30 dias de treinamento eles saem e são indicados para outros times maiores ou seguem carreira própria. Tambem há um curso que eu ministro, que é dado uma vez por mês durante um final de semana e é aberto a todos, mediante o pagamento de um valor. Já estão lotados os cursos de novembro, dezembro e janeiro e só tem vaga em fevereiro.

ESB – Que recomendações daria para quem quer começar a jogar poker?
Recomendo que se não tiver a definição profissional jogue o poker junto com os amigos em casa, com valores simbólicos, jogar se divertindo e dando risada porque é um jeito muito bacana de se brincar com os amigos. Pela internet também é seguro jogar, os principais sites possuem certificações e há uma grande seriedade neste mercado.

Se tiver interesse profissional, foque 90% de seu tempo em estudo, leitura de livros, assista vídeos na internet, faça cursos, procure na sua região um profissional que faça treinamento ou coaching, busque formas de melhorar seu lado intelectual no jogo. É claro que o emprenho sozinho de jogar e pensar o jogo vai fazer diferença , mas tem que estudar, tem que batalhar bastante.

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