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domingo, 24 outubro, 2021

Roberto Shinyashiki fala sobre o conceito de “felicidade”

Um dos nomes mais requisitados no meio empresarial fala sobre a estreita relação entre felicidade e produtividade

Por Luciene Araújo

Médico psiquiatra e escritor, Roberto Shinyashiki é também empresário, palestrante e doutor em Administração de Empresas, pela Universidade de São Paulo (USP). Sua experiência como assessor empresarial inclui o suporte a governadores, ministros de Estado, empreendedores, atletas olímpicos, artistas e outros que buscam realização profissional e pessoal. Na área educacional, desenvolve há mais de 20 anos programas que visam à melhora dos relacionamentos entre professores, alunos e pais. Autor de vários livros, entre eles “Louco Por Viver”, “Os Segredos dos Campeões” e “Você a Alma do Negócio”, Shinyashiki enfatiza o impacto que o bem-estar do funcionário causa na produtividade da empresa.

É possível falar em um conceito de “felicidade”?

O conceito de felicidade só existe no dicionário. Felicidade é algo como a fé, que a gente sente, percebe, mas não define. É algo que não está no plano do racional, e sim no das emoções, do sentir, do desfrutar. Não é um estado durável, mas uma sucessão de momentos felizes que se somam. Definir felicidade, do modo como as pessoas buscam fazer, é algo que não faz muito sentido.

Medir a Felicidade Interna Bruta (FIB) é tão importante quanto medir o Produto Interno Bruto (PIB)?

O FIB é um conceito que nasceu como uma possível justificativa para críticas que eram feitas ao rei do Butão, na década de 1970. Algo assim como uma resposta do tipo “Nosso povo é pobre em termos materiais, mas muito rico em felicidade”. O PIB leva em conta basicamente o fator econômico, enquanto o FIB enxerga o desenvolvimento pleno como uma soma do desenvolvimento material com o desenvolvimento espiritual. Olhando-se sob esse ângulo, eu diria que medir o FIB é até mais importante do que medir o PIB, porque a avaliação é mais ampla, mais completa.
Minha única ressalva fica para o fato de que medir o FIB não é algo “tão simples” quanto medir o PIB. Tudo o que se define como parâmetros para avaliar o FIB não é ainda suficiente para chegar perto do que realmente seria “a quantidade de felicidade de um povo, ou de um indivíduo”.

Qual a relação entre felicidade e produtividade?

Uma relação matemática seria impossível de se estabelecer, e disso ninguém tem dúvida. Mas é inegável que um indivíduo feliz é muito mais produtivo que alguém que passe o dia reclamando da vida e contaminando todo o ambiente de trabalho com uma energia que não traz nenhum benefício a ninguém.

A felicidade que você tem quando faz algo influi diretamente na sua produtividade, além de influenciar positivamente a produtividade de pessoas que estão ao seu lado. Afinal, ninguém se sente bem e produtivo tendo que conviver com alguém de mal com a vida.

“É inegável que um indivíduo feliz é muito mais produtivo que alguém que passe o dia reclamando da vida e contaminando todo o ambiente de trabalho com uma energia que não traz nenhum benefício a ninguém”

Quais os “fatores geradores de felicidade” nas empresas? Há algum caso que possa “provar” essa relação?

Bom reconhecimento, respeito, um bom ambiente de trabalho, bons relacionamentos, boa liderança, uma boa equipe, um trabalho digno e valorizado. Todos esses fatores, além de outros, influem diretamente na probabilidade de as pessoas serem mais felizes trabalhando em uma empresa.

Eu não citaria um caso específico de empresa como exemplo, mas posso assegurar que é muito fácil perceber a influência desses fatores. Basta reparar no comportamento, na satisfação e nos resultados em termos de felicidade de uma pessoa ou de uma equipe que tenha um chefe justo, envolvido, que trabalhe lado a lado com seus liderados e que reconhece o valor de cada um, com o nível de felicidade e satisfação de quem trabalha com um líder egoísta, desleal e que procura trazer para si todas as glórias das conquistas e jogar para os outros as responsabilidades pelas derrotas.

Além de benefícios financeiros, quais os ganhos com a “felicidade” dos funcionários?

O principal ganho que vejo em uma empresa devido aos seus funcionários estarem felizes é a energia com que as pessoas executam suas funções. Isso gera dividendos maravilhosos para a empresa, em todos os sentidos: ambiente mais agradável de trabalhar, mais sinergia para tocar os projetos, mais união para buscar as metas, mais qualidade no trato com os clientes – sejam eles internos ou externos à empresa.

Talvez não seja fácil notar isso em determinadas áreas da organização, mas sem dúvida alguma é muito claro perceber essa diferença em departamentos que fazem atendimento direto ao cliente. Um funcionário feliz atende melhor o cliente e faz com que ele volte a comprar da empresa e a sentir prazer em ser seu cliente. Mais ainda: a felicidade no atendimento a clientes é um dos principais fatores que ajudam a transformar esses clientes em fãs da empresa e da sua marca.

A felicidade no trabalho depende das ações motivacionais ou do próprio funcionário?

Felicidade é algo muito pessoal. Ninguém pode fazer você ser feliz e nem obrigá-lo a ser infeliz. Mas é claro que existem fatores externos que influenciam a felicidade do indivíduo.

Quando o indivíduo não tem um elemento causador de infelicidade real (por exemplo, alterações na saúde que levem à depressão), ações motivacionais podem sim melhorar seu nível de felicidade. É sempre muito mais fácil ser feliz em um ambiente agradável e de boa convivência do que num local onde tudo tende a puxar você para baixo.

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