Palco eleitoral à espera dos protagonistas

Com Lula fora de combate e dentro da prisão, pré-candidatos tentam manter posição de destaque na disputa eleitoral. As cenas dos próximos capítulos serão decisivas

Um protagonista que sai de cena, novos personagens em busca de uma melhor imagem diante do público e figuras já conhecidas no enredo eleitoral dispostas a ganhar cada vez mais os holofotes pontuam os capítulos recentes da corrida presidencial. Até o ato final – o anúncio do resultado das urnas em outubro –, o desenrolar da trama marcada por decisões nos tribunais com grande audiência e por filiações partidárias de última hora terá de desbaratar alguns nós: o inflamado discurso pré-prisão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vai unir a ala progressista em torno do que considera um gesto de “resistência”? Como serão os passos dos setores mais conservadores? Conseguirá o atual grupo no poder permanecer no comando do Planalto?

Na outra ponta desse palco e nos bastidores, o dilema é sobre a conduta que os segmentos mais à direita adotarão, entre o “ser ou não ser” agressivo no discurso. Ignorar o avassalador fator Lula ou bradar apontando os “descaminhos” petistas durante os mais de 12 anos de gestão federal do partido? “No caso de Jair Bolsonaro (PSL), cujo crescimento se baseou na postura anti-PT, essa combatividade deve ocorrer, sim. Em São Paulo, já se vê João Doria (PSDB), candidato ao governo paulista, fazendo isso ao chamar o governador Márcio França, do PSB, de Márcio ‘Cuba’, tentando, com isso, dizer que o sucessor de Geraldo Alckmin no Executivo local é de uma esquerda radical – algo que simplesmente não tem base na realidade. Já Alckmin (agora presidenciável) deve ter uma postura mais conciliadora na campanha visando ao Planalto, inclusive porque isso combina mais com seu perfil. Vide as críticas que recebeu quando reagiu em discurso aos tiros dados no ônibus da caravana de Lula. Na ocasião, o tucano teve uma postura um tanto agressiva que não lhe caiu bem”, observa o sociólogo.

“A disputa está aberta. O atual governador saiu em vantagem por estar com a máquina na mão. Ela é um elemento importante numa disputa majoritária, entretanto há espaço para crescimento da oposição e oportunidades de embaralhar ainda mais o cenário. Que comecem os jogos!” – Darlan Campos, consultor em marketing político e diretor executivo da República MP

No “jogo dos tronos” brasileiro, um novo personagem desembarca. Joaquim Barbosa, ex-presidente do STF e agente símbolo do Judiciário no caso do mensalão, voltou à cena em abril ao anunciar sua filiação ao PSB: sai o homem da toga que foi o principal notável da Corte máxima, entra o novo político que pode atrair votos progressistas por já ter marcado posição contra o impeachment de Dilma Rousseff (PT). “É um nome, sim, competitivo. Porém, teríamos que vê-lo em ação num processo eleitoral, que é outra coisa. De todo modo, também tem uma postura muito inconstante, vide o modo como presidiu o STF, e isso pode ser muito prejudicial a um governo que precisa construir uma base ampla no Congresso Nacional.

Em 2018, o presidente deve sair eleito das urnas com uma das menores bases de sustentação legislativa da história recente do Brasil. Então, a capacidade de compor, ainda por cima com um Congresso que provavelmente será ainda mais conservador que o de 2014, é uma variável-chave. E, aqui, o ex-ministro tem sérios problemas”, comenta De Angelo.

Outro enigma a ser desvendado é sobre a indicação do MDB. Tudo leva a crer que o partido vá mesmo de Michel Temer, atual presidente da República. Mas há mais de uma dezena de pré-candidatos na lista, entre eles Henrique Meirelles, recém-filiado à sigla, que saiu da equipe ministerial por pretensões eleitorais – o ex-titular da Fazenda garante que não pensa em se lançar vice de cargo algum. “A candidatura de Temer seria meramente por vaidade e que, em meio à divisão da direita, apostaria na sorte. Vaidade por se tratar do governo mais mal avaliado da história da República e com chance zero de reeleger. Porém, há um elemento de aposta, aqui, que é o de, à direita, acabar prevalecendo como a melhor candidatura nesse campo.”

“O nome de Joaquim Barbosa é, sim, competitivo. Porém, teríamos que vê-lo em ação num processo eleitoral, que é outra coisa. De todo modo, também tem uma postura muito inconstante, vide o modo como presidiu o STF” – Vitor de Angelo, coordenador do programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da UVV

O professor, porém, não descarta por completo a confirmação da chapa puro-sangue Temer-Meirelles, tendo o primeiro como cabeça. Seria a aliança dos perfis técnico e político, que implementaram uma agenda liberal na economia, ressalta. “Mas acho difícil que a sorte lhes sorria, pois há nomes igualmente interessantes no campo da direita para os simpatizantes dessas ideias. Cito, por exemplo, João Amoêdo (Partido Novo) e Flávio Rocha (PRB), além do próprio Alckmin e, no pior cenário, Bolsonaro. Este representaria o chamado ‘fascismo de mercado’. Uma espécie de boia de salvação do mercado, em que pese o discurso algo fascista do candidato. O quanto isso seria sustentável politicamente, é outra história.”

HERANÇA BENDITA

Logo após a prisão de Lula, o PT assegurou que manterá seu nome como candidato. De Angelo analisa que até há cenários com brechas para essa cartada, mas tomar tal medida seria jogar o nome da legenda num buraco ainda mais profundo. “No limite, ele até pode concorrer, mas ter seus votos cancelados, fazendo, então, com que, artificialmente, o vitorioso seja eleito com menos votos ainda. Seria uma contribuição às avessas ao nosso regime político, mas uma posição compreensível para quem se considera injustiçado por esse mesmo sistema e busca espaço – nas eleições, inclusive – para se defender.”

A pesquisa Datafolha divulgada em 14 de abril, a primeira já com ex-presidente na cadeia, mantinha Lula em primeiro lugar, com 31% da preferência (antes eram 37%), seguido de Bolsonaro (PSL), com 15%, e Marina Silva, com 10%. Num outro cenário, sem Lula, o levantamento apontava empate técnico entre Bolsonaro (17%) e Marina (15%). Ciro Gomes (PDT) e Joaquim Barbosa (PSB) vinham em seguida, com 9% cada. Haddad, o nome petista, surgia com apenas 2%, tendo à frente Alckmin (PDSB, 7%) e Alvaro Dias (Podemos, 5%), e empatado com Manuela D’Ávila (PCdoB, 2%).

Fonte: Vitor de Angelo, sociólogo (UVV) e pesquisa Datafolha

“O PT necessariamente lançará um candidato para proteger suas posições, pois Ciro, Manuela e Guilherme Boulos (Psol) não ficarão a defender as posições do PT e de seus governos, dos quais são críticos – críticos à esquerda. O candidato deve ser Fernando Haddad. Mas Dilma, concorrendo ao Senado por Minas, pode ter um protagonismo na campanha presidencial também. De qualquer forma, o cenário é muito adverso para o PT, tanto nacionalmente como nos estados. O Espírito Santo é um exemplo claro disso.”

Sobre Ciro, que com Marina herda dois dos três votos de Lula no cenário sem o ex-presidente, o pedetista deverá buscar o meio-termo. “Ciro buscou marcar posição. Criticou a prisão de Lula, mas não avalizou a ‘leitura’ do PT e do ex-presidente acerca do processo que culminou em sua prisão. Com isso, acena à esquerda e à direita. Mas pode acabar não funcionando para nenhum dos lados, numa eleição tão radicalizada.”

CENÁRIO LOCAL

O desenrolar da cena política também já movimenta o panorama local. Pesquisas eleitorais apontam para o baixo interesse pelo pleito estadual. Uma delas, promovida pelo Instituto Futura/A Gazeta e divulgada no último dia 14 de abril, indica que 57% dos entrevistados (menção espontânea) não “sabem ou não responderam” quando perguntados sobre quem será seu escolhido para comandar o Executivo.

Mas, entre aqueles que decidiram, Paulo Hartung (MDB) se mantém na liderança, com 36,9% da preferência (menção estimulada), empatado tecnicamente com o ex-governador Renato Casagrande (PSB), com 36,1% – a margem de erro é de 2,6 pontos percentuais para mais ou para menos.  A senadora Rose de Freitas (Podemos) vem na terceira posição, com 7,2%, seguida do advogado André Moreira (Psol), com 2,3%.

Ilustração: Andrea Espindula – Fonte: Vitor de Angelo, sociólogo (UVV), e pesquisa Datafolha

O percentual tão expressivo de indecisos demonstra que o eleitor ainda não foi seduzido pelos apelos da pré campanha, avalia o professor Darlan Campos, consultor em marketing político e diretor executivo da República MP. “A disputa está aberta. O atual governador saiu em vantagem por estar com a máquina na mão. Ela é um elemento importante numa disputa majoritária, entretanto há espaço para crescimento da oposição e oportunidades de embaralhar ainda mais o cenário. Que comecem os jogos!”

Na análise do especialista, o emedebista tende mesmo a ser o candidato palaciano, diante da dificuldade em encontrar uma outra opção competitiva para defender o legado de sua administração. No campo oposicionista, Casagrande é o desafiante, reeditando a disputa de 2014. “O PSB também não tem outro quadro combativo. A surpresa foi a movimentação de Rose, que anunciou sua saída do MDB e a chegada ao Podemos. A partir disso, ela garante uma legenda para disputa de 2018”, ressaltou.

O placar tão parelho também fortalece a possibilidade de ocorrer algo inédito nas urnas em quase duas décadas: o Espírito Santo pode conhecer, pela primeira vez no século 21, o que é uma briga pelo cargo de mais alto comando do Espírito Santo em dois turnos. O cenário de largada, observa, não é ruim para o atual governador, pois já era esperada uma baixa avaliação da administração, assim como ocorrem com os prefeitos em mandato, salvo exceções.

“Vale a lembrança que na eleição passada (2014), em fim de abril ou início de maio, havia também um empate técnico entre Hartung e Casagrande. Será fundamental para a candidatura do governador um vice e dois pré-candidatos ao Senado que avancem no eleitorado de Casagrande, que dialoguem com a juventude e com a classe C, especialmente no interior. Com uma estratégia de comunicação efetiva, é possível uma melhora na imagem da gestão, inclusive com diminuição da rejeição (22,8%) do atual governador.”

Do outro lado, os dados animam a militância, pois demostram um forte recall do ex-governador, salienta o professor, que também citou o efeito Rose nesse embate. “A candidatura da senadora é fundamental para as aspirações de Casagrande. Contar com Rose no jogo pode significar levar a eleição para o segundo turno e ter o terceiro colocado nas pesquisas apoiando-o. A presença da parlamentar na eleição fortalece o campo oposicionista. Vale lembrar que teremos apenas 35 dias de campanha na TV. Para a oposição, é importante que a eleição chegue ao segundo turno, uma vez que terá mais tempo para fazer a desconstrução do adversário e suas propostas. O tempo de TV de ambos os candidatos se iguala.”

Campos atenta, ainda, para a necessidade de se adaptar às mudanças nas regras, vigentes desde 2016, que determinaram contas mais enxutas e menos tempo de propaganda eleitoral. “Será preciso que o candidato planeje ações eficazes e eficientes pra ter sucesso nas urnas, considerando tempo escasso e orçamento curto”, alerta o consultor.

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