A colaboração entre o governo e os empreendedores é essencial para superar a burocracia e viabilizar o desenvolvimento do turismo no Espírito Santo
Por Kebim Tamanini
A indústria do turismo se apoia na base financeira e estrutural fornecida pela iniciativa privada. Para a construção e aprimoramento de grandes estruturas – como companhias aéreas, aeroportos, hotéis e centros de convenções-, inovações nos serviços, preparação e gerenciamento de eventos, organização de viagens, hospitalidade e criação de momentos memoráveis em locais aprazíveis ou de entretenimento – como bares, restaurantes e casas noturnas -, é essencial um suporte financeiro substancial, seja dos grandes ou dos pequenos investidores do setor.
Especialistas relatam, porém, que não adianta haver recursos para investimentos sem uma parceria da iniciativa privada com o setor público. Existem diversos impeditivos que dificultam movimentações e inovações, e sem a colaboração conjunta entre o primeiro setor e os empreendedores, o desenvolvimento das atividades turísticas se torna inviável diante dos numerosos entraves burocráticos presentes no Brasil.
“É preciso a colaboração do primeiro setor. Não existe turismo no Brasil sem o poder público. A iniciativa privada não consegue avançar com as leis vigentes e a burocracia que temos hoje. Querendo ou não, o Estado está presente em nossas vidas desde o momento em que nascemos até o momento em que morremos”, afirma o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Espírito Santo (ABIH-ES), Nerleo Caus.
O cenário capixaba é promissor ao considerar a visão de futuro, sendo um estado que possui belas praias, alta gastronomia, uma rede hoteleira consolidada e empresários empenhados em investir, contribuindo para o crescimento do setor turístico.
Conforme levantamento do Instituto Jones Santos Neves (IJSN), a atividade turística capixaba cresceu em 25,5% em 2022, com aumento de 42,9% na receita do setor. Os dados constam do Boletim Economia do Turismo, acessível no site da instituição. Esses números positivos são vistos pela iniciativa privada como um “sinal verde” para continuar avançando nos investimentos no setor.
“O turismo é um setor relevante que representa aproximadamente 7% de nossa economia e emprega cerca de 180 mil pessoas.
O bom desempenho do turismo se reflete também na economia capixaba”, explicou o coordenador de Estudos Econômicos do IJSN, Antonio Ricardo Freislebem da Rocha.
Há, no entanto, vários pontos a serem aprimorados. A escassez de espaços para eventos de grande porte, a falta de voos diretos para o Espírito Santo e a limitada divulgação do estado em âmbito nacional e internacional são alguns dos fatores que impedem o turismo capixaba de figurar entre os mais visitados do país.
Segundo a Embratur, sete estados concentram 72% do turismo no Brasil: Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Ceará, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Bahia. A reflexão que fica é: o que esses entes federativos fizeram e que o Espírito Santo ainda não realizou para figurar nesse ranking?
Vale destacar que, com o passar dos anos, os idealizadores do turismo capixaba avançam aos poucos nas etapas de crescimento. Essas contribuições são vistas nos investimentos que a iniciativa privada vem realizando, muitas vezes com o forte apoio do poder público.
“Diversas construções de pousadas e outros atrativos, como cervejarias, laticínios e restaurantes de alta gastronomia, são empreendimentos que fortalecem o turismo no estado. Atualmente, é possível observar um investimento muito maior do que há algum tempo em algumas regiões específicas. Por exemplo, a região das Montanhas tem atraído numerosos investidores na área de cervejaria e experiência turística”, pontua a diretora técnica do Sebrae-ES, Renata Vescovi.
Cenário do turismo capixaba
Para uma cidade ou estado se destacar no cenário turístico, é essencial possuir uma infraestrutura ampla e variada. Isso envolve desde opções diversificadas de hospedagem, que atendam a diferentes perfis de turistas e proporcionem uma multiplicidade de experiências, até a oferta de uma gastronomia sofisticada e um aeroporto com conexões diretas para várias localidades, além de garantir um ambiente seguro para os visitantes.
Não se pode deixar de mencionar a importância de realizar eventos e atividades diversas para tornar a estadia mais agradável e envolvente. Todos esses pilares são essenciais para consolidar a região como um ponto turístico de referência.
No Espírito Santo, houve avanços significativos em vários setores, na comparação com décadas atrás. Um exemplo claro dessa mudança está no cenário dos eventos musicais: os capixabas dispõem hoje de uma variedade de opções muito maior do que em anos anteriores. Especificamente na Região Metropolitana, é frequente haver até cinco shows musicais em locais distintos, todos no mesmo dia. Essa realidade contrasta com um passado não tão distante, quando essa miríade de opções era algo inimaginável para a população local.
A alta gastronomia capixaba não se restringe somente à região central, mas se estende por todo o estado. Restaurantes e bares tradicionais têm se destacado por sua culinária refinada. Empresários desse setor têm direcionado investimentos para reformas e abertura de novos estabelecimentos, além de modernizar locais antigos, oferecendo aos visitantes não apenas uma refeição, mas sim uma experiência cultural.
“Estamos expandindo a variedade de pratos oferecidos, não nos limitando apenas à nossa culinária tradicional, como a conhecida moqueca, o caranguejo e o peixe capixaba, mas incluindo diversas outras opções. Ao mesmo tempo, proporcionamos conforto tanto aos moradores locais quanto aos turistas que frequentam esses estabelecimentos”, explica o diretor-presidente do Sindicato de Bares e Restaurantes (Sindbares), Rodrigo Vervloet.
O diretor-presidente do Sindbares afirma que o setor é um dos maiores empregadores do estado, e contribui para fortalecer o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Espírito Santo. Rodrigo diz ainda que ao atrair turistas e visitantes, o setor turístico não apenas promove o desenvolvimento econômico, mas também desempenha um papel essencial na manutenção do sustento de muitas famílias capixabas, evidenciando a importância da atividade como vital para o progresso e a prosperidade da região.
Já o setor hoteleiro capixaba também tem experimentado dinamismo. Grandes marcas, como Sheraton, Atlântica, Accord, Slaviero, Louvre Hotels, entre outras, têm expandido suas instalações e serviços reconhecidos dentro e fora do país, contribuindo para a qualidade e diversidade de opções de hospedagem disponíveis aos visitantes. Essa diversificação contribui para a crescente projeção do estado como um destino turístico de excelência no país.
Para Nerleo Caus, a hotelaria capixaba é diversificada e acessível para todos os bolsos. “Temos desde hotéis cinco estrelas até albergues e com isso atendemos a todos. O turismo é para todos. Não importa quanto você venha a gastar, você é um turista. Temos uma rede hoteleira muito bem instalada aqui na capital e nas cidades mais importantes, incluindo novos hotéis e pousadas em diversos cantos do estado”, enfatizou o presidente da ABIH-ES.
As regiões montanhosas também têm recebido pousadas e hotéis de alto padrão. Esse movimento busca promover o desenvolvimento turístico local, para atender à crescente demanda por acomodações nas zonas rurais. Esses investimentos evidenciam o comprometimento da iniciativa privada com o turismo local, não só visando à expansão econômica, mas também oferecendo uma ampla variedade de experiências para os turistas que desejam explorar os diferentes rincões do Espírito Santo.
Dificuldade de integração no turismo do Espírito Santo
A falta de integração entre os vários atores do setor turístico pode ser um obstáculo significativo para o seu desenvolvimento pleno. Quando elementos do turismo, como agências de viagens, hotéis, serviços de transporte, guias turísticos, empresas locais e autoridades governamentais não estão alinhados, o resultado pode ser uma experiência desarticulada e frequentemente insatisfatória para os visitantes.
De acordo com o diretor-presidente do Sindicato de Bares e Restaurantes (Sindbares), Rodrigo Vervloet, uma integração bem-sucedida nesse cenário requer uma abordagem sistêmica, na qual todos os participantes do turismo compartilhem uma visão comum e se comprometam a trabalhar juntos para aprimorar a experiência dos visitantes.
Isso envolve comunicação eficaz, cooperação, coordenação de esforços e a busca por objetivos comuns que beneficiem a todos os envolvidos. A ausência desse alinhamento pode impactar negativamente a economia local, já que a insatisfação do turista pode levar a uma redução no número de visitantes, ocasionando uma diminuição na receita para a iniciativa privada e a comunidade em geral.
*Matéria publicada originalmente na revista ES Brasil 218, de outubro de 2023. Confira a edição completa aqui.

