Levantamento brasileiro revelou que 14% da população, o equivalente a 22 milhões de pessoas, utilizam aplicativos de jogos como Tigrinho e Blaze
Por Kebim Tamanini
Na última semana, um caso chocou o Brasil: uma mulher de 22 anos foi presa suspeita de desviar R$ 179 mil da conta bancária do próprio avô, no Paraná, para jogar no “Jogo do Tigrinho”, uma versão virtual de cassino conhecida como Fortune Tiger. Um levantamento conduzido pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), em parceria com o Instituto Datafolha, revelou que 14% da população brasileira, o equivalente a 22 milhões de pessoas, utilizam aplicativos de apostas como Tigrinho e Blaze.
Esses jogos são promovidos por influenciadores e páginas na internet, frequentemente impulsionados por perfis falsos, os chamados bots, em comentários, atraindo principalmente pessoas de menor renda. A pesquisa também indica que 40% dos jogadores buscam “ganhar dinheiro rápido em momentos de necessidade”.
Esses aplicativos, conhecidos como “bets”, prometem grandes ganhos em curtos períodos com investimentos iniciais mínimos, semelhantes às máquinas caça-níqueis tradicionais, porém em uma versão virtual intensificada. Oferecem incentivos iniciais, como “baixe o jogo e ganhe cinco reais para começar a jogar”, funcionando como uma amostra grátis para atrair os jogadores.

No entanto, o que começa como um pequeno ganho inicial muitas vezes leva a um ciclo vicioso. “Os jogadores são atraídos pela promessa de ganhos fáceis, gerando uma memória de sucesso que alimenta a compulsão por mais jogos”, explica o psicólogo Eduardo Miranda, especialista em jogos eletrônicos e adolescentes.
Miranda ainda afirma que os jogos de azar online ativam processos neurológicos, liberando dopamina no cérebro dos jogadores, causando sensações de prazer e excitação. Ele esclarece que a estimulação cerebral pode aumentar o envolvimento no jogo, tornando difícil perceber o tempo passar e o dinheiro sendo gasto, o que agrava o problema para os jogadores.
“Esses jogos são projetados para criar dependência”, alerta o psicólogo. “Estamos vendo um aumento preocupante no número de pessoas viciadas em jogos eletrônicos e similares”, acrescenta.
Entre as Crianças
Diante dessa realidade alarmante, os pais e responsáveis precisam ter conversas francas sobre finanças, economia e o uso responsável do dinheiro com crianças e adolescentes. Além disso, é fundamental desencorajar o uso desses aplicativos e apresentar alternativas saudáveis de entretenimento, como jogos de tabuleiro e atividades ao ar livre.
“Monitorar sinais de vício é essencial. Quando o uso desses jogos começa a interferir nas atividades cotidianas e essenciais, como estudo, sono e interações sociais, buscar ajuda profissional é a melhor medida. Não há vergonha em pedir apoio para lidar com essa questão complexa”, relata o psicólogo.

Como Identificar o Vício em Jogos
O vício em jogos de azar e eletrônicos pode ser devastador, tanto para o indivíduo quanto para sua rede de apoio. Especialistas afirmam que os sintomas do vício em jogos costumam ser evidentes, principalmente para familiares e amigos próximos. Aqui estão os principais sinais a serem observados:
- Dedicar muitos recursos (energia, tempo ou dinheiro) ao jogo;
- Priorizar o jogo acima de outras atividades, chegando a negligenciar completamente outras esferas da vida para continuar jogando;
- Necessidade de passar mais e mais tempo jogando para se sentir bem;
- Dificuldades de concentração;;
- Aumento da impulsividade;
- Dores musculares por passar horas em postura inadequada enquanto joga;
- Criação de dívidas;
- Pensar sobre o jogo com muita frequência, podendo influenciar a capacidade de funcionar no momento presente em que não está jogando;
- Sentimentos de ansiedade ao não estar jogando;
- Jogar para aliviar sentimentos negativos e desagradáveis;
- Mentir sobre a quantidade de tempo que passa jogando;
- Isolamento social.

