Empresas investem não só em filantropia, mas em trazer retornos positivos de seus negócios para a sociedade
Por Ludmila de Azevedo
A adoção de políticas sociais tem sido um movimento cada vez mais comum para as organizações, aderindo a um movimento natural de mercado. E, para o mercado, o fato é que a agenda ESG chegou para ficar. A partir daí, as empresas têm apoiado projetos sociais não só para não perder espaço para a concorrência, mas sim com uma consciência cada vez mais clara da importância de realmente fomentar a igualdade de oportunidades.
Um aspecto a se destacar, segundo afirma a diretora de ESG na Universidade Exame, Renata Faber, é que a parte social extrapola os limites da firma e vai ao encontro aos stakeholders,que são os indivíduos e organizações impactados pelas ações da empresa.
“É um erro associar a parte social do ESG com filantropia. Na verdade, o objetivo é que as empresas consigam causar um impacto social positivo na sociedade. As organizações bem-sucedidas nesse campo são as que constroem laços fortes com seus clientes, empregados e fornecedores, ao mesmo tempo em que ajudam a comunidade onde estão inseridas”, esclareceu a especialista.

A ArcelorMittal Tubarão, por exemplo, abre editais anualmente para apoiar ações sociais nas comunidades em torno da usina, na Serra, e em outros municípios do estado. O próximo edital de apoio a ONGs está previsto para o primeiro semestre de 2024.
Há também apoios por meio das leis de incentivo ao esporte e à cultura. O gerente de Comunicação e Relações Institucionais da ArcelorMittal Tubarão, Bernardo Enne, reforçou que a empresa leva a sério o compromisso de responsabilidade social com a população capixaba.
“Apoiando uma série de projetos, o nosso objetivo é formar novos cidadãos e facilitar o acesso à cultura, lazer e esporte. A empresa quer impactar positivamente as comunidades que habitam o nosso entorno e também nos demais municípios capixabas. Nosso objetivo é cultivar uma relação mais estreita com as comunidades e buscar o desenvolvimento do Espírito Santo. E não existe sociedade desenvolvida sem acesso à cultura, lazer e esporte”, comentou.
Ações da indústria
No Espírito Santo, a Federação das Indústrias do Estado (Findes) admite a urgência de adesão às iniciativas sociais e, por isso, formou o Conselho de Responsabilidade Social (Cores) para discutir as melhores formas de implementar essa agenda por aqui.
“Temos o objetivo de criar renda para que as pessoas vivam de forma digna e tenham acesso aos bens de consumo.
Por meio do Cores, a Federação está desenvolvendo um inventário que reúne informações sobre projetos sociais variados, listados de acordo com o escopo, como educação, esporte ou saúde, para gerar blocos de informação. Assim, as empresas poderão encontrar rapidamente o projeto que estiver mais alinhado aos seus objetivos e investir nele”, explicou o consultor em ESG da Findes, Paulo Cezar Souza.
O inventário auxilia especialmente os novos negócios que chegam ao estado sem conhecimento das iniciativas que estão sendo realizadas em terras capixabas. Entretanto, o especialista admite que ainda há desafios para alcançar esse objetivo. “É preciso entender que esses temas são importantes para as empresas. Esse é o primeiro obstáculo: ‘vender’ essa ideia do papel social para as lideranças das organizações e para os fornecedores”, relatou.
Ele acrescentou que cadastrar informações é uma tarefa demorada, mas que trará efeitos positivos: “Dá trabalho, mas estamos focados nisso. A ideia é que essas informações sejam atualizadas com frequência”.
Investimentos estão em alta e visam à reputação institucional
Apesar de as empresas observarem os impactos positivos que os investimentos sociais trazem para as comunidades, indicadores apontam que as preocupações são frequentemente voltadas para o mercado. Uma pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2020 demonstrou que 59,4% das empresas que investem em responsabilidade social têm como maior objetivo melhorar a reputação institucional.
Mariana Klein, diretora e consultora em ESG na KICk, empresa capixaba de comunicação socioambiental, comenta que, realmente, investir na agenda social potencializa a imagem das companhias. Mas esse não é o único benefício.
“Esse é um caminho para um negócio mais seguro, com maior previsibilidade dos riscos e maior preparo para lidar com eles de maneira eficaz. Esses negócios têm mais chances de conseguirem investimentos em bancos e instituições que exigem indicadores ESG, como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento”, ressaltou Mariana.
Ou seja: é preciso investir receita no social, mas, ao fazer isso, mensurar esse retorno. “É importante medir investimento X retorno. Em ESG, nada é feito sem envolver as partes interessadas, estudar, prever e medir. Todas essas variáveis, possibilidades de gastos e previsão de resultados, devem constar no relatório de sustentabilidade das empresas, seguindo as diversas diretrizes e normas que existem para relatar esses dados”, orientou a diretora e consultora na KICk.
Estudos já demonstram que a agenda ESG tem movimentado bilhões no país. O relatório da Aspen Network of Development Entrepreneurs (Ande), divulgado em maio deste ano, registra que o volume de ativos investidos em negócios de impacto social e ambiental no Brasil alcançou R$ 18,7 bilhões em 2021.Foi verificado um crescimento superior a 60% em relação a 2020, que registrou R$ 11,5 bilhões.
O documento aborda o cenário em números, o perfil dos investidores, o que buscam e como investem e a tendência de investimentos e áreas de atuação.
O levantamento global é realizado há pouco mais de uma década pelo Aspen Institute, uma organização sem fins lucrativos sediada em Washington (EUA).

Dados do Censo ajudam empresas a identificar vulnerabilidades sociais
Além de fazer um balanço sobre o território brasileiro e os hábitos da população, as informações divulgadas pelo novo Censo do IBGE vão apontar os principais desafios da década no planejamento público e privado.
As autoridades acreditam que essas informações serão primordiais para que as empresas entendam os principais gargalos sociais no Brasil e, assim, invistam em melhorias.
A diretora de Investimento Social na Vale e conselheira do Grupo de Institutos Fundações e Empresas (Gife), Flávia Constant, disse que a maior expectativa é pelos indicadores de dados sobre migração, desigualdades, taxas de escolarização, Índice de Desenvolvimento Humano e Municipal para a priorização de investimentos em territórios mais vulnerabilizados.
“Munidas dessas informações, as grandes companhias terão um panorama mais claro, por exemplo, sobre as principais questões de saúde pública e em quais locais ela é mais vulnerável, bem como sobre o tamanho da exclusão escolar em cada município”, exemplificou a executiva. “A iniciativa privada poderá auxiliar as secretarias municipais na articulação intersetorial e no endereçamento das questões mais críticas indicadas pelo Censo”.
Pesquisa aponta que empresas priorizam o S do ESG
A consultoria global ManpowerGroup, especializada em recursos humanos, concluiu que 42% das empresas no Brasil estão priorizando o pilar social do ESG. Considerando um contexto mundial, já que a consultoria ouviu mais de 40 mil empregadores em 41 países, esse número equivale a 37%. Depois dele, o pilar do meio ambiente é a segunda prioridade, seguido pela governança.
A diretora de gestão estratégica de pessoas da ManpowerGroup, Wilma Dal Col, aponta a importância na hora de a empresa escolher as iniciativas em que quer investir.
“Os consumidores estão atentos à forma com que as empresas se posicionam socialmente, valorizando a colaboração e lembrando que ações sociais podem ser relevantes financeiramente para a atração e retenção de talentos e valorização da marca, pois, hoje, a geração Z está exigindo mais das marcas. Os empregados devem ser encorajados a adotar uma postura responsável e consciente em suas próprias ações diárias”, concluiu a diretora.
E se o assunto é a Geração Z, as empresas que investem em sustentabilidade também têm maior potencial para atrair talentos mais jovens, de acordo com o especialista em ESG e Governança Corporativa e professor da Fucape, Poliano Bastos da Cruz. “Os trabalhadores dessa geração procuram se inserir em ambientes que seguem valores em que acreditam, como a diversidade e as políticas de apoio às comunidades marginalizadas”, concluiu.
*Matéria publicada orginalmente na revista ES Brasil nº 215, de agosto de 2023. Leia a edição completa do Anuário Verde aqui.
Empresas investem não só em filantropia, mas em trazer retornos positivos de seus negócios para a sociedade
Por Ludmila de Azevedo
A adoção de políticas sociais tem sido um movimento cada vez mais comum para as organizações, aderindo a um movimento natural de mercado. E, para o mercado, o fato é que a agenda ESG chegou para ficar. A partir daí, as empresas têm apoiado projetos sociais não só para não perder espaço para a concorrência, mas sim com uma consciência cada vez mais clara da importância de realmente fomentar a igualdade de oportunidades.
Um aspecto a se destacar, segundo afirma a diretora de ESG na Universidade Exame, Renata Faber, é que a parte social extrapola os limites da firma e vai ao encontro aos stakeholders,que são os indivíduos e organizações impactados pelas ações da empresa.
“É um erro associar a parte social do ESG com filantropia. Na verdade, o objetivo é que as empresas consigam causar um impacto social positivo na sociedade. As organizações bem-sucedidas nesse campo são as que constroem laços fortes com seus clientes, empregados e fornecedores, ao mesmo tempo em que ajudam a comunidade onde estão inseridas”, esclareceu a especialista.

A ArcelorMittal Tubarão, por exemplo, abre editais anualmente para apoiar ações sociais nas comunidades em torno da usina, na Serra, e em outros municípios do estado. O próximo edital de apoio a ONGs está previsto para o primeiro semestre de 2024.
Há também apoios por meio das leis de incentivo ao esporte e à cultura. O gerente de Comunicação e Relações Institucionais da ArcelorMittal Tubarão, Bernardo Enne, reforçou que a empresa leva a sério o compromisso de responsabilidade social com a população capixaba.
“Apoiando uma série de projetos, o nosso objetivo é formar novos cidadãos e facilitar o acesso à cultura, lazer e esporte. A empresa quer impactar positivamente as comunidades que habitam o nosso entorno e também nos demais municípios capixabas. Nosso objetivo é cultivar uma relação mais estreita com as comunidades e buscar o desenvolvimento do Espírito Santo. E não existe sociedade desenvolvida sem acesso à cultura, lazer e esporte”, comentou.
Ações da indústria
No Espírito Santo, a Federação das Indústrias do Estado (Findes) admite a urgência de adesão às iniciativas sociais e, por isso, formou o Conselho de Responsabilidade Social (Cores) para discutir as melhores formas de implementar essa agenda por aqui.
“Temos o objetivo de criar renda para que as pessoas vivam de forma digna e tenham acesso aos bens de consumo.
Por meio do Cores, a Federação está desenvolvendo um inventário que reúne informações sobre projetos sociais variados, listados de acordo com o escopo, como educação, esporte ou saúde, para gerar blocos de informação. Assim, as empresas poderão encontrar rapidamente o projeto que estiver mais alinhado aos seus objetivos e investir nele”, explicou o consultor em ESG da Findes, Paulo Cezar Souza.
O inventário auxilia especialmente os novos negócios que chegam ao estado sem conhecimento das iniciativas que estão sendo realizadas em terras capixabas. Entretanto, o especialista admite que ainda há desafios para alcançar esse objetivo. “É preciso entender que esses temas são importantes para as empresas. Esse é o primeiro obstáculo: ‘vender’ essa ideia do papel social para as lideranças das organizações e para os fornecedores”, relatou.
Ele acrescentou que cadastrar informações é uma tarefa demorada, mas que trará efeitos positivos: “Dá trabalho, mas estamos focados nisso. A ideia é que essas informações sejam atualizadas com frequência”.
Investimentos estão em alta e visam à reputação institucional
Apesar de as empresas observarem os impactos positivos que os investimentos sociais trazem para as comunidades, indicadores apontam que as preocupações são frequentemente voltadas para o mercado. Uma pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2020 demonstrou que 59,4% das empresas que investem em responsabilidade social têm como maior objetivo melhorar a reputação institucional.
Mariana Klein, diretora e consultora em ESG na KICk, empresa capixaba de comunicação socioambiental, comenta que, realmente, investir na agenda social potencializa a imagem das companhias. Mas esse não é o único benefício.
“Esse é um caminho para um negócio mais seguro, com maior previsibilidade dos riscos e maior preparo para lidar com eles de maneira eficaz. Esses negócios têm mais chances de conseguirem investimentos em bancos e instituições que exigem indicadores ESG, como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento”, ressaltou Mariana.
Ou seja: é preciso investir receita no social, mas, ao fazer isso, mensurar esse retorno. “É importante medir investimento X retorno. Em ESG, nada é feito sem envolver as partes interessadas, estudar, prever e medir. Todas essas variáveis, possibilidades de gastos e previsão de resultados, devem constar no relatório de sustentabilidade das empresas, seguindo as diversas diretrizes e normas que existem para relatar esses dados”, orientou a diretora e consultora na KICk.
Estudos já demonstram que a agenda ESG tem movimentado bilhões no país. O relatório da Aspen Network of Development Entrepreneurs (Ande), divulgado em maio deste ano, registra que o volume de ativos investidos em negócios de impacto social e ambiental no Brasil alcançou R$ 18,7 bilhões em 2021.Foi verificado um crescimento superior a 60% em relação a 2020, que registrou R$ 11,5 bilhões.
O documento aborda o cenário em números, o perfil dos investidores, o que buscam e como investem e a tendência de investimentos e áreas de atuação.
O levantamento global é realizado há pouco mais de uma década pelo Aspen Institute, uma organização sem fins lucrativos sediada em Washington (EUA).

Dados do Censo ajudam empresas a identificar vulnerabilidades sociais
Além de fazer um balanço sobre o território brasileiro e os hábitos da população, as informações divulgadas pelo novo Censo do IBGE vão apontar os principais desafios da década no planejamento público e privado.
As autoridades acreditam que essas informações serão primordiais para que as empresas entendam os principais gargalos sociais no Brasil e, assim, invistam em melhorias.
A diretora de Investimento Social na Vale e conselheira do Grupo de Institutos Fundações e Empresas (Gife), Flávia Constant, disse que a maior expectativa é pelos indicadores de dados sobre migração, desigualdades, taxas de escolarização, Índice de Desenvolvimento Humano e Municipal para a priorização de investimentos em territórios mais vulnerabilizados.
“Munidas dessas informações, as grandes companhias terão um panorama mais claro, por exemplo, sobre as principais questões de saúde pública e em quais locais ela é mais vulnerável, bem como sobre o tamanho da exclusão escolar em cada município”, exemplificou a executiva. “A iniciativa privada poderá auxiliar as secretarias municipais na articulação intersetorial e no endereçamento das questões mais críticas indicadas pelo Censo”.
Pesquisa aponta que empresas priorizam o S do ESG
A consultoria global ManpowerGroup, especializada em recursos humanos, concluiu que 42% das empresas no Brasil estão priorizando o pilar social do ESG. Considerando um contexto mundial, já que a consultoria ouviu mais de 40 mil empregadores em 41 países, esse número equivale a 37%. Depois dele, o pilar do meio ambiente é a segunda prioridade, seguido pela governança.
A diretora de gestão estratégica de pessoas da ManpowerGroup, Wilma Dal Col, aponta a importância na hora de a empresa escolher as iniciativas em que quer investir.
“Os consumidores estão atentos à forma com que as empresas se posicionam socialmente, valorizando a colaboração e lembrando que ações sociais podem ser relevantes financeiramente para a atração e retenção de talentos e valorização da marca, pois, hoje, a geração Z está exigindo mais das marcas. Os empregados devem ser encorajados a adotar uma postura responsável e consciente em suas próprias ações diárias”, concluiu a diretora.
E se o assunto é a Geração Z, as empresas que investem em sustentabilidade também têm maior potencial para atrair talentos mais jovens, de acordo com o especialista em ESG e Governança Corporativa e professor da Fucape, Poliano Bastos da Cruz. “Os trabalhadores dessa geração procuram se inserir em ambientes que seguem valores em que acreditam, como a diversidade e as políticas de apoio às comunidades marginalizadas”, concluiu.
*Matéria publicada orginalmente na revista ES Brasil nº 215, de agosto de 2023. Leia a edição completa do Anuário Verde aqui.

