
De um lado, a atração de investimento industrial com potencial de elevar produtividade e, de outro, a consolidação de uma estratégia de marketing
Raphael Rodrigues
Recentemente, foram divulgadas duas iniciativas importantes com potencial de alavancar o desenvolvimento econômico do Espírito Santo nos próximos anos: a assinatura de um termo de compromisso com a montadora chinesa GWM Motors para a instalação de uma fábrica no Estado e a divulgação do Plano de Marketing do Espírito Santo para o período 2026–2030.
No primeiro caso, vale destacar que, mesmo em um cenário internacional de elevada instabilidade, o Espírito Santo foi capaz de atrair investimento direto estrangeiro para um setor estratégico em qualquer economia: a indústria. Em geral, decisões empresariais desse tipo envolvem horizontes de longo prazo e exigem confiança em fatores como infraestrutura, ambiente de negócios, segurança jurídica e capacidade de articulação institucional, elementos que ajudam a explicar por que projetos desse porte são tão disputados entre estados e países.
Na literatura econômica, o setor industrial é compreendido a partir de um conjunto de capacidades que o diferencia dos demais. Uma delas é o chamado efeito transbordamento (spillover), segundo o qual a instalação e a operação de uma estrutura industrial geram impactos que extrapolam o território onde estão localizadas, disseminando conhecimento, práticas produtivas e inovações para empresas e trabalhadores. Outra é o efeito de encadeamento (linkage), no sentido de que a indústria demanda insumos, serviços e logística de diversos segmentos, do setor primário ao terciário, estimulando investimentos e a diversificação da base produtiva. Além disso, a indústria costuma estar associada a maiores níveis de produtividade, com ganhos derivados de economias de escala, e à incorporação e ao desenvolvimento tecnológico, sendo tipicamente mais intensiva em P&D.
Nesse sentido, a instalação da GWM Motors tem potencial para catalisar um arranjo produtivo local em seu entorno, ao ampliar a demanda por fornecedores, serviços especializados, logística e qualificação profissional. Também pode aprofundar dinâmicas já existentes na região de Aracruz e Linhares, reforçando cadeias já instaladas e abrindo espaço para novas empresas ao longo da cadeia, do fornecimento de insumos e componentes ao transporte, manutenção, tecnologia e serviços corporativos. Em termos práticos, isso pode significar mais oportunidades para pequenos e médios negócios locais, maior integração entre municípios e estímulos por melhorias de infraestrutura e formação de mão de obra.
No segundo caso, recordo dois momentos pessoais que ajudam a dimensionar a relevância do Plano de Marketing. Morei em Uberlândia (MG) entre 2018 e 2021 e era frequente ver, nos intervalos comerciais de televisão, campanhas turísticas de outros estados, especialmente de São Paulo. Vivi uma situação em São Paulo, em 2024, em que um motorista de aplicativo comentou que já tinha vindo ao Espírito Santo por influência familiar, mas que raramente via pacotes de viagem com destino ao Estado. Mais recentemente, no próprio Espírito Santo, observei em mobiliário urbano e na TV anúncios de Minas Gerais e de Santa Catarina. Esses exemplos ilustram como a disputa por atenção e fluxo turístico é intensa, e como presença de marca e estratégia de divulgação fazem diferença.
Com investimento previsto de R$ 26 milhões em 2026, mais de quatro vezes o valor investido em 2025, segundo o Governo do Estado, a iniciativa busca redefinir o posicionamento do Espírito Santo, organizando a oferta turística para uma atuação estratégica no âmbito nacional e internacional. Trata-se de um esforço articulado entre as secretarias de Comunicação e de Turismo, com participação da cadeia produtiva do setor, para ampliar visibilidade, estimular a permanência do turista, elevar o gasto médio e, no limite, transformar o turismo em um vetor mais robusto de renda e emprego.
Por fim, é importante destacar que ambas as iniciativas dialogam diretamente com diretrizes estabelecidas no plano de longo prazo vigente até 2035, o Plano ES 500 Anos. Na Missão 1, intitulada “Economia diversificada, inovadora e sustentável”, há um conjunto de diretrizes que converge com esses anúncios.
No caso do Plano de Marketing do Turismo, por exemplo, o setor aparece como área a ser potencializada, com diretriz explícita: “Promover o desenvolvimento do turismo inteligente e sustentável, nas suas diferentes modalidades, que valorize a diversidade capixaba por meio da implementação das Rotas Turísticas, de iniciativas de marketing e promoção em mercados emissores, de incentivo a investimentos em infraestrutura para eventos, estrutura hoteleira e de serviços, e de acesso aos pontos turísticos; bem como de qualificação e capacitação profissional e empresarial”.
Já no caso da fábrica da GWM, é possível associá-la ao Objetivo 2, que trata da atração de investimentos com o propósito de “Atrair investimentos que contribuam para a diversificação e o adensamento de cadeias produtivas, e para a integração competitiva no âmbito nacional e internacional”, com impacto esperado de “Crescimento do volume de investimentos nacionais e internacionais no Estado”. Além disso, o projeto sinaliza, em nível nacional e internacional, a capacidade do Espírito Santo de receber empreendimentos de grande porte, reforçando outro impacto esperado: a “Maior atratividade do Espírito Santo para negócios, transformando-o em destaque nacional, alinhado com a estratégia de desenvolvimento de mercado regional”.
A iniciativa também se alinha ao Objetivo 5, voltado à redução das desigualdades regionais, ao buscar “Promover o desenvolvimento mais equilibrado e sustentável das regiões”, com impactos esperados como “Redução das diferenças dos índices de desenvolvimento das regiões”, “Redução dos níveis de pobreza entre as regiões”, “Expansão, diversificação e fortalecimento das economias locais”, “Redução das distâncias das rendas médias entre as regiões” e “Desconcentração de investimentos, ampliando o acesso a recursos para regiões fora da capital”, além da linha de iniciativa “Desenvolvimento econômico regional”, cuja diretriz é “Atrair investimentos privados para o interior com foco nos Setores ES 500”.
Em síntese, os dois anúncios reforçam uma agenda positiva e coerente de desenvolvimento para o Espírito Santo, ao combinar, de um lado, a atração de investimento industrial com potencial de adensar cadeias produtivas, elevar produtividade e gerar oportunidades de trabalho em diferentes níveis de qualificação e, de outro, a consolidação de uma estratégia de marketing capaz de ampliar a visibilidade do Estado, organizar a oferta turística e dinamizar economias locais. Ao dialogarem diretamente com as diretrizes da Missão 1 do Plano ES 500 Anos, essas iniciativas sinalizam continuidade, coordenação e visão de futuro — elementos essenciais para que o Espírito Santo avance em direção a uma economia mais diversificada, inovadora e sustentável.
Raphael Rodrigues é Economista, doutor em Economia e conselheiro do Corecon-ES (Conselho Regional de Economia do Espírito Santo)

