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Crises, STF e eleições redesenharam cenário político de 2025

Desdobramentos de acusação de trama golpista deram ritmo aos debates no país, reverberando no estado, onde grupos políticos ainda estão em indefinição para 2026

Por Luciene Araujo

O universo político de 2025 foi marcado por forte movimentação nacional, que reverbera no Espírito Santo. A sucessão de desdobramentos relacionados sobretudo aos julgamentos no Supremo Tribunal Federal (STF) de processos por tentativa de golpe de Estado em 2023 mantiveram o debate político em ebulição.

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), apontado pela Polícia Federal como possível mentor do que foi classificado como plano golpista, entre outros crimes que lhe foram imputados pelas autoridades, foi julgado e preso este ano. Isso fortaleceu o embate entre bolsonaristas e petistas no Congresso, com reflexos no STF.

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Ex-presidente Jair Bolsonaro foi preso em definitivo após violar tornozeleira eletrônica

“O julgamento e a prisão de Bolsonaro deixaram sequelas na democracia brasileira”, destaca o sociólogo e cientista político André Pereira César.

Isso porque, por um lado,
a direita e a centro-direita encerram o ano com o desafio de ­encontrar a melhor alternativa para o próximo ano; e, por outro lado, “o atual presidente tem pouco a comemorar”,
uma vez que tudo segue indefinido “como mostram as pesquisas mais recentes”, aponta o sociólogo.

Ele enumera ainda mais quatro eventos de 2025 que, segundo ele, terão maior impacto sobre as eleições de 2026. “O tarifaço de Donald Trump, a COP30 de Belém, os problemas na área de segurança pública e o escândalo do Banco Master”, diz.

Vale lembrar que, diferentemente do Executivo estadual, cuja chefia será obrigatoriamente substituída – uma vez que Renato Casagrande (PSB) está em seu segundo mandato consecutivo –, no comando da nação existe a possibilidade legal de reeleição do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

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A indefinição no cenário nacional se estende à disputa pelo Governo do Estado. “O cenário permanece completamente aberto. Não há, neste momento, um ­favorito consolidado”, afirma o consultor em Marketing Político e professor Darlan Campos.

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Pazolini é um dos nomes cotados para o Palácio Anchieta

Ele reconhece que o grupo do governador Renato Casagrande (PSB) entra na disputa com vantagens decorrentes das entregas da gestão e do apoio dos prefeitos, o que garante “um impulso adicional” a um possível sucessor. Ainda assim, ressalta o porquê dessa indefinição.

“A oposição chega mais organzada e disposta a elevar a competitividade, o que pode tornar o confronto um dos mais equilibrados e imprevisíveis dos últimos anos”, explica Campos.

A avaliação é compartilhada pelo consultor de Crises de Imagem e Marketing Político Fernando Carreiro. Para ele, o debate eleitoral já ganhou as ruas antes mesmo da apre­sentação de projetos.

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Como ponto positivo do atual governo, ele destaca a consistência e a consolidação de Casagrande como um dos gestores que mais entregou obras ­estruturantes, com investimentos relevantes em ­agricultura, cultura, infraestrutura e ­logística. “Não é espetáculo, é método. E o método, quando funciona, acumula confiança”, afirma.

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O vice-governador Renato Ferraço; o prefeito de Vila Velha Arnaldinho Borgo; o governador do ES Renato Casagrande e outros nomes da política capixaba | Foto: Reprodução

Por outro lado, Carreiro aponta o surto fúngico no Hospital Santa Rita como um episódio que expôs falhas na gestão da crise e na comunicação pública, lembrando que “o tempo dos laudos não é o mesmo tempo da opinião pública”.

O surto fúngico, iniciado no fim de outubro, só foi confirmado oficialmente em novembro, após mais de 30 casos graves registrados entre profissionais da saúde, levando à interdição de setores da unidade.

A opinião pública reagiu com críticas à gestão da crise, apontando que a demora na divulgação dos laudos e a comunicação pouco transparente reforçaram o medo e a desconfiança. Mesmo assim, o especialista considera que o estado mantém saldo positivo, com ambiente fiscal sólido e políticas estruturantes.

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Julgamento dos acusados por tentativa de golpe de Estado pela 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF)

Os nomes do prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (PSDB), e do vice-governador do Espírito Santo, Ricardo Ferraço (MDB) foram bastante ventilados nos bastidores e na imprensa como possíveis escolhas do grupo de Casagrande à sua sucessão.

Aumentando as especulações, no início de dezembro o prefeito de Vila Velha, que caminhava sem partido desde março, assumiu a presidência estadual do PSDB, a convite do presidente nacional da sigla, Aécio Neves. Arnaldinho havia afirmado que só se filiaria à sigla se fosse indicado candidato ao governo estadual.

Já pela oposição, um dos nomes mais comentados é o do prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), que teria a chancela do ex-governador Paulo Hartung – este, inclusive, se filiou ao PSD em maio deste ano, em evento com presença de Gilberto Kassab, presidente nacional da sigla, após seis anos afastado da atividade partidária.

Fato é que, de forma geral, mais políticos da esfera municipal ganharam peso no jogo de xadrez. “Prefeitos e vereadores empossados este ano se tornaram peças fundamentais para qualquer projeto estadual, especialmente na formação das chapas ao Senado e na disputa para o Palácio Anchieta”, diz Carreiro.

O analista prevê uma eleição capixaba também marcada pela forte polarização nacional, sobretudo a disputa ao Senado e às 10 cadeiras da Câmara dos Deputados. “Antipetismo de um lado, antibolsonarismo do outro. Um plebiscito emocional disfarçado de eleição”, avalia. Confira um ponto a ponto dos principais acontecimentos políticos em 2025, que movimentaram o país.

Bolsonaro e STF

No plano nacional, houve muitos desdobramentos do 8 de janeiro de 2023, quando manifestantes invadiram as sedes dos Três Poderes – Congresso Nacional, Supremo Tribunal Federal (STF) e Palácio do Planalto – vandalizando prédios, obras de arte e mobiliário.

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Ministro Alexandre de Moares, do STF, foi alvo de sanções norte-americanas

O STF classificou o evento como uma tentativa de golpe de Estado, sustentada por articulação organizada para impedir a posse e o exercício do governo eleito – Bolsonaro havia perdido nas urnas para Lula. A interpretação do Supremo foi reforçada por relatórios da Polícia Federal.

Por outro lado, sustentada por imagens vazadas e declarações de pessoas que estiveram no local, setores da direita mantiveram, ao longo de 2025, uma narrativa diferente, alegando que o episódio teria sido “armado” ou deliberadamente permitido por segmentos da esquerda para incriminar opositores e desmontar a base bolsonarista.
Também ganhou força entre os articuladores e militantes da direita o pedido de anistia para todos os envolvidos no episódio de 8 de janeiro de 2023, que, ­entretanto, não foi à frente.

Julgamento

Bolsonaro foi alvo de medidas cautelares e recebeu uma tornozeleira eletrônica, em julho. Pouco depois, em agosto, o ministro do STF Alexandre de Moraes decretou a prisão domiciliar do ex-presidente por considerar que ele descumpriu a restrição de uso de redes sociais por meio de terceiros.

Já no julgamento, realizado em setembro pela Primeira Turma do STF, Bolsonaro foi condenado a 27 anos e 3 meses por organização criminosa, tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito, dano qualificado pela violência e ameaça grave e deterioração do patrimônio tombado.

Também receberam condenações­ outros nomes fortes do governo bolsonarista, como o ex-ministro da Justiça Anderson Torres, o ex-diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Alexandre Rama­gem, e o ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) general Augusto Heleno.

Tornozeleira violada e prisão

Depois, a prisão domiciliar de Bolso­naro foi convertida por Moraes em prisão preventiva, em novembro, diante do que foi considerado um risco concreto de fuga – o ex-presidente violou a tornozeleira eletrônica com um ferro de solda.

O processo da trama golpista passou a ter o trânsito em julgado em 25 de novembro, ou seja, a condenação se tornou definitiva, com cumprimento imediato na Superintendência da Polícia Federal.

Enquanto isso, com Bolsonaro inelegível, incomunicável e preso, a direita debatia quem seria o presidenciável de 2026 do grupo político. Tarcísio de Freitas (Republicanos) era o principal nome apontado, até que, em dezembro, Flávio Bolsonaro (PL) comunicou publicamente que o pai o escolheu para concorrer ao Planalto, mas a reação do centrão foi negativa e o mercado fechou em baixa, deixando a candidatura ainda em suspenso.

Em dezembro, o grupo da direita, em novo movimento, começou a buscar a aprovação do PL da Dosimetria, projeto de lei que prevê a redução das penas dos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023. A proposta pode diminuir a pena de Bolsonaro em 25%. A Câmara aprovou o projeto, que, até o fechamento deste texto, tramitava no Senado.

Protagonismo do STF

O debate sobre o papel do STF na cena política ganhou força. O tribunal ampliou seu protagonismo com decisões relacionadas à segurança pública e institucional, às acusações de tentativa de golpe e à regulação de plataformas digitais.

Enquanto aliados do governo defenderam tais ações como indispen­sáveis à proteção da democracia, setores ­con­ser­vadores passaram a acusar o Supremo de extrapolar suas competências e ferir a independência dos Poderes, sobretudo em relação à postura e às decisões do ministro Alexandre de Moraes, relator do processo da chamada trama golpista.

Tarifaço e sanções

O tarifaço anunciado pelo presidente norte-americano Donald Trump foi mais um evento de grande impacto no Brasil e no Espírito Santo – de onde são exportados produtos muito comprados pelos norte-americanos, como café e rochas naturais. Embora a sobretaxa de 50% sobre os produtos brasileiros, anunciada em julho, tenha atingido em cheio a economia, as razões apresentadas tiveram cunho político.

Na ocasião, por meio de carta, Trump justificou as medidas adotadas contra o Brasil como uma resposta ao tratamento dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, acusando autoridades brasileiras de perseguição. Na esteira dessa movimentação, a Lei Magnitsky foi aplicada contra Moraes.

A legislação norte-americana prevê sanções que podem ser impostas a agentes que reprimem denúncias de corrupção, cerceiam liberdades fundamentais ou atuam contra eleições democráticas.

Tudo isso, inclusive, teria sido produto de articulação de Eduardo Bolsonaro (PL) junto ao governo norte-americano. O deputado federal pediu licença do Parlamento no início do ano e foi com a família para os EUA – onde permanece até o momento com a licença parlamentar vencida.

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Lula e Trump se encontraram após tarifaço de 50% dos EUA sobre sobre produtos exportados pelo Brasil. Depois disso, os norte-americanos recuaram em parte das taxações

Desde então, Eduardo tornou-se réu no Supremo Tribunal Federal em ação por suposta tentativa de coação ao Judiciário e passou a ter suas atividades parlamentares restringidas, incluindo a proibição de apresentar emendas ao orçamento.

A ausência prolongada no exterior, somada ao indiciamento pela Polícia Federal, fragilizou seu mandato e alimentou especulações sobre risco de prisão preventiva caso retorne ao Brasil.

Diante dos movimentos de Trump, o governo brasileiro tentou negociar e, por muito tempo, disse ter encontrado a “porta fechada”. Mas, em setembro, Lula e Trump se encontraram rapidamente na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e combinaram de conversar. Posteriormente, voltaram a se reunir e, aos poucos, as tensões se afrouxaram. Em novembro, o governo dos EUA retirou a sobretaxa de centenas de produtos brasileiros.

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