Tensões no Oriente Médio e retomada do comércio EUA-China elevam o valor do frete marítimo, geram gargalos e desafiam o planejamento de empresas no Brasil
Por Maxieni Muniz
As recentes tensões geopolíticas no Oriente Médio e os desdobramentos da trégua comercial entre China e Estados Unidos estão impactando diretamente a logística internacional e, por consequência, a economia brasileira. O aumento dos custos de transporte, como o frete, e os gargalos operacionais globais já afetam cadeias produtivas inteiras, gerando incerteza no planejamento de empresas e pressionando os preços de insumos essenciais.
O fechamento parcial do espaço aéreo em zonas de conflito e os riscos crescentes no Estreito de Ormuz — por onde circula cerca de 20% do petróleo mundial — elevaram os custos de frete e seguros, mesmo sem paralisação efetiva nas principais rotas. A Associação Brasileira de Logística (Abralog) estima que o frete aéreo pode sofrer reajustes entre 15% e 25%, especialmente para produtos perecíveis, eletrônicos e fármacos. A oscilação nos preços do petróleo não tem sido suficiente para aliviar a pressão sobre os custos logísticos.
Para Breno Sasso, coordenador do Comitê de Logística do SINDIEX, o atual cenário global exige das empresas uma abordagem estratégica para enfrentar um ambiente de instabilidade prolongada. “A escassez de contêineres, os congestionamentos nos portos e a incerteza cambial impõem uma complexidade inédita à cadeia de suprimentos. Já não basta negociar preço: é preciso garantir previsibilidade e segurança na entrega”, afirma.

Sasso ressalta que a retomada da demanda entre EUA e China, após a trégua comercial firmada no início do ano, agravou o desequilíbrio no fluxo global de cargas. “A antecipação das compras americanas fez com que armadores priorizassem esse eixo, reduzindo a disponibilidade de navios e equipamentos para o trade Brasil-Ásia. Estamos enfrentando rolagem de carga mesmo com reserva confirmada”, destaca.
A perspectiva é de que o segundo semestre de 2025 mantenha a volatilidade. O acúmulo de embarques na primeira quinzena de julho, somado ao início do ciclo de compras para o Natal, tende a gerar nova pressão sobre os espaços disponíveis.
“A expectativa de uma normalização só se confirma se houver alívio nas tensões geopolíticas e melhoria na infraestrutura global”, aponta Sasso. Para ele, a única resposta possível é o investimento em planejamento logístico de médio prazo, uso de múltiplas rotas e monitoramento contínuo das tendências do comércio exterior.

