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quarta-feira, 17 abril, 2024

A política pós-Queiroz

O ex-assessor foi encontrado justamente no momento de maior baixa do governo, com incontáveis reveses

É inegável que a prisão temporária de Fabrício Queiroz, ex-assessor do hoje senador Flávio Bolsonaro (Republicanos/RJ) e amigo da família presidencial, é um divisor de águas na política brasileira, muito mais do que foi a demissão do até então super ministro Sérgio Mouro, que caiu atirando. Agora, as investigações em torno do esquema das “rachadinhas”, com todas as suas ramificações, ganharão um novo rumo. O governo pode estar em xeque.

O ex-assessor foi encontrado justamente no momento de maior baixa do governo, com incontáveis reveses. Supremo Tribunal Federal fechando o cerco contra Bolsonaro e aliados, Tribunal Superior Eleitoral julgando ações da campanha de 2018, demissão de colaboradores, pandemia se espalhando pelo país, agravamento da crise econômica e boa parte da imprensa (nacional e estrangeira) criticando duramente as políticas implementadas. Uma tempestade perfeita se forma sobre o Planalto.

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Queiroz, como se sabe, é um arquivo vivo. Pode-se até mesmo compará-lo ao notório PC Farias, ex-tesoureiro e uma das principais peças no afastamento do ex-presidente Fernando Collor (PROS/AL), então no nanico PRN. Assim, todas as medidas para manter a integridade física do ex-assessor não são exageradas.

Um elemento importante no caso é o advogado do presidente, Frederick Wassef, dono do sítio em que Queiroz foi encontrado. De passado nebuloso, ele é outra peça chave no episódio. Sua proximidade com Bolsonaro o transforma em uma figura tóxica.

Os apoiadores do presidente certamente estão incomodados com a questão, a começar os evangélicos e católicos. Esses grupos, até agora fiéis e importantes aliados do titular do Planalto, dificilmente aceitarão o fato do advogado de Bolsonaro, que goza da intimidade familiar da primeira família, ter sido vinculado a uma suposta seita satanista – tudo uma questão de dogma. Esse fato joga uma mancha na relação deles com o presidente, e possivelmente deixará sequelas.

Igualmente o Centrão poderá rever sua aproximação com o presidente. A depender da evolução das investigações, o custo político desse apoio subirá de maneira exponencial. Tanto que nenhuma importante liderança emitiu qualquer tipo de manifestação em solidariedade ao presidente Jair Bolsonaro ou a seu filho Flávio. O silêncio foi a regra.

O potencial de dano é tão grave que a ala militar do Planalto cogita até mesmo da criação de um ministério de notáveis para melhora da imagem presidencial, nos mesmo moldes do acontecido em 1992, no finalzinho, quando Collor já enfrentava sérias denúncias de corrupção que acabaram por levar à abertura do processo de impeachment e à sua consequente renúncia.

Esse movimento tem explicação. A intimidade da família Bolsonaro com Queiroz, poderá influenciar diretamente a opinião pública com o aumento exponencial da rejeição ao governo. Até mesmo os fiéis 30% de apoio que Bolsonaro ainda mantém, poderá vir a ser corroído. As próximas pesquisas deverão mostrar a dimensão do impacto que essa prisão teve para o presidente.

Um último e importante efeito colateral diz respeito às reformas estruturais do ministro da Economia, Paulo Guedes. Em tese, elas seriam retomadas tão logo a pandemia passasse. Por si só, proposições como a reforma tributária e as mudanças no Pacto Federativo são politicamente delicadas e de difícil tramitação. O agravamento da crise em torno de Fabrício Queiroz torna esse quadro ainda mais complexo e dramático. No limite, Bolsonaro terá de decidir entre defender seu mandato ou apoiar as reformas. Pior para todos.

O governo nada tem a comemorar. Na verdade, ele deve temer por seu destino.

André Pereira César é Cientista Político e sócio da Hold Assessoria Legislativa

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