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sábado, 2 julho, 2022

A invisível mãe África

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O continente africano é o maior em número de países, 54

Apesar da pandemia do novo coronavírus ser a mais grave crise sanitária de nossa geração, está longe de ser a primeira. Especialmente na África, um continente que enfrentou severas epidemias de malária, tuberculose, cólera, HIV, sarampo e ebola. Todas essas doenças tiraram vidas, mas também forçaram a comunidade científica e médica africana a inovar.

A população africana está acostumada a reagir rapidamente, a recorrer aos irmãos voluntários no meio rural. Acho que isso lhes permitiu circular informações sobre medidas de prevenção e aplicá-las a tempo. A recente epidemia de ebola que atingiu a África Ocidental, com maior intensidade entre 2014 e 2016, causou estragos em países como Guiné, Libéria e Serra Leoa e deixou mais de 12 mil mortos, ensinando aos africanos como conter surtos.

O continente africano é o maior em número de países, 54. Região do mundo com mais países em que a língua oficial é o nosso português. Em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, São Tomé e Príncipe falam, com as variações linguísticas de cada local, o mesmo idioma que nós brasileiros. Local de onde vieram brutalmente escravizados, parte expressiva da população formadora do nosso país.

Nada disso parece ser suficiente, para que grande parte da mídia brasileira, e mundial, adotem outra postura sobre a pandemia do novo coronavírus na África, que não seja o silenciamento, entendido aqui como uma política de produção de sucessivos silêncios, indicando uma interdição, um “não poder dizer” injustificável.

Se sobram conteúdos sobre números de infectados, mortos e ações de governo de países como Estados Unidos, Alemanha, Itália, Espanha e China, e o próprio Brasil, por exemplo, há uma invisibilização sobre o que se passa no continente africano, em que atualmente vivem mais de 1 bilhão e 200 mil pessoas e que, segundo estimativas da ONU – Organização das Nações Unidas, abrigará em 2050 –  21% da população mundial.

Mesmo deixando as cifras oficiais em quarentena, pela escassa capacidade de diagnóstico em alguns países, vive a África um problema que não devemos mascarar. A experiência na gestão de outras epidemias, como a tuberculose, o sarampo e o ebola, o intenso envolvimento comunitário em questões de saúde pública e a juventude de sua população permitiram, até agora, evitar o colapso.

Entretanto, as perspectivas não são boas. O continente tem os sistemas sanitários mais fracos do mundo, faltam respiradores, leitos de UTI e pessoal. Por isso a OMS – Organização Mundial de Saúde estima que haverá 200 mil mortos africanos por covid-19, nos próximos 12 meses.

Além da crise sanitária, o pior golpe foi o econômico. As populações, sobretudo nas grandes cidades, como Johanesburgo e Lagos, viram-se submetidas a duros confinamentos, a toques de recolher e à impossibilidade de se deslocarem com normalidade. Em um continente onde duas em cada três pessoas vivem com dinheiro contado, tendo o comércio informal como fonte de sustento, a interrupção das rotas comerciais internas foi um suplício insuportável.

Pela primeira vez em um quarto de século, a África subsaariana enfrenta uma recessão. Para tratar de amortecer os estragos na economia, as fronteiras estão sendo gradualmente reabertas em plena aceleração da pandemia. Os movimentos forçosos da população africana se intensificarão. Assim como demorou mais a chegar, as previsões apontam que o vírus também levará mais tempo para ir embora, do continente africano. Tal qual em “terras brasilis”.

Manoel Goes Neto é presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha e diretor no Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo

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