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segunda-feira, 17 janeiro, 2022

Você nasceu para a política! E eu posso provar.

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A política é nossa capacidade de negociar o aumento de salário com o chefe, de explicar aos filhos sobre a importância dos estudos

Por Claudio Rabelo

Só não se envolve com política quem está morto. A expressão que deriva de um grego muito arcaico diz respeito a todas as formas de envolvimento, engajamento e participação em uma cidade. Negociar sentidos, estéticas e discursos, de forma simples ou complexa, no tecido da vida urbana, não deixa de ser um ato político. Discutir sobre a decisão de um juiz em um jogo de futebol, conversar no condomínio sobre a justiça da manutenção de uma piscina que nem todos usam ou até mesmo participar de um encontro de pais e mestres na escola não deixam de ser formas de exercício político. A tão demonizada palavra, confundida com um processo eleitoral que não nos diz respeito, dissuade suas reais intenções de forma a nos fazer crer que os políticos “são ladrões”. E isso nos afasta da participação efetiva nas deliberações e discussões que afetam a todos nós na polis, ou seja, os lugares que ocupamos ou habitamos.

Da mesma forma, nos persuadem para o sedutor caminho do (des)envolvimento. Nos dizem que isso é bom. Devemos torcer para a criação de tecnologias e processos tão (des)envolvidos a ponto de funcionarem sozinhos, sem participação, ou seja, sem envolvimento. É como se os eleitos dentro de uma democracia representativa dissessem: “pode ficar tranquilo…. já está tudo desenvolvido, não se envolva, pois nós tomaremos as decisões por você”.

Cansei de ouvir nos últimos anos os clichês “não tenho bandido de estimação”, “se errar a gente tira”, “todos roubam”, “meu voto não foi perdido”, “esse arrependimento eu não passo mais” ou “eu avisei”. Isso não é política. Isso é eleição. O eleitor confunde suas lamúrias nas redes sociais e seu voto disparado sob a orientação de algoritmos, como participação política. De outro lado, aquele que tapa os ouvidos para as informações dos veículos de comunicação, para os professores universitários e até mesmo para as conversas de bar se dizem “apolíticos”, de uma forma tão exacerbada, como seres mitológicos e superiores de um Olimpo, livres por escolha própria de problemas mundanos.

A política é nossa capacidade de negociar o aumento de salário com o chefe, de explicar aos filhos sobre a importância dos estudos, convencer os vizinhos sobre o respeito do espaço comum, desarmar aquilo que os teóricos de Frankfurt consideravam a comunicação instrumental, ou seja, aquela utilizada para atingir fins baseados em interesses pessoais e políticos. Ser político significa negociar estéticas de representatividade, respeito e defesa daquilo que você de fato acredita. Um mercado livre e com a mínima intervenção do Estado ou um Estado protetor, que garanta os direitos básicos referentes à alimentação, segurança, educação e mobilidade, por exemplo.

Você não precisa entender os ecossistemas que envolvem os governos, os ministérios, o STF, o STJ, as autarquias, os sindicatos, as petroleiras, as multinacionais, as empreiteiras, o senado, o congresso, as câmaras municipais, as prefeituras, as secretarias, as ONGs, a bolsa de valores, a mídia e nenhum aparelho ideológico ou repressor do estado para gostar de política. Você somente precisa gostar de duas coisas: de você mesmo e das outras pessoas. Não sendo um psicopata ou um sociopata, temos aí um bom começo! Precisamos de pessoas com vontade de viver bem, mas que considerem importante o bem estar de todos os outros. Somente assim poderíamos realizar a ação comunicativa proposta por Habermas e tentar buscar pontos de conexão, convergência e empatia por meio de conversas e circulação de discursos que cheguem ao consenso sobre as questões que são comuns até mesmo para aqueles que se consideram em lados opostos. Por exemplo, todos queremos paz. Mas o que é paz para você pode não ser pra mim. Todos acreditamos no respeito e na civilidade, mas sabemos que os conceitos de respeito e civilidade divergem entre ultraconservadores e muitos grupos sociais massacrados. O mesmo podemos dizer sobre a liberdade, o direito à educação e a propriedade privada.

Escrevi este artigo para concluir com duas perspectivas. Primeiro, para dizer que política ultrapassa o simplismo eleitoral. E que o eleitor deveria se libertar desse estigma, ao compreender que tudo na cidade diz respeito a ele e não somente a urna ou o grito de torcedor fanático. Em segundo lugar, reitero meu chamado aos profissionais de marketing político ou candidatos, para que parem de reduzir o termo às eleições. Políticos não deveriam aparecer apenas de quatro em quatro anos, mas conversar com/para/sobre as pessoas em um sentido lato e contínuo. O objetivo do marketing político, ao meu ver, não deve ser a eleição. Mas o gerenciamento de um ecossistema capaz de produzir valores para todos os envolvidos no processo.

E aí, você concorda? Concordar ou não já mostra que você nasceu para a política.

Claudio Rabelo é professor da Ufes, TedX Speaker, pós-doutor em Estudos Culturais pela UFRJ e autor do Livro “Faixa preta em publicidade e propaganda”

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