22.1 C
Vitória
sexta-feira, 12 agosto, 2022

Infectologista explica tudo sobre a varíola do macaco

esbrasil-eduardo-pandini-infectologista
Infectologista Eduardo Pandini explica tudo sobre a varíola do macaco - Foto: Acervo pessoal

Em 2022, na África foram registrados cerca de 1.500 casos da varíola de macaco com 66 óbitos. No Espírito Santo, um novo caso suspeito está sendo investigado pela Sesa 

Por Wesley Ribeiro 

Na última quarta-feira, 22 de junho de 2022, a Secretaria de Estado de Saúde (Sesa) divulgou o registro de mais um caso suspeito de Monkeypox, a varíola do macaco, no Espírito Santo. Trata-se de um homem, na faixa etária 30 a 39 anos, com histórico de viagem a diversos países com casos já confirmados da doença.

Segundo o órgão, o homem se encontra em isolamento domiciliar, com início de sintomas, relatado pelo mesmo, em 13 de junho. O paciente apresenta lesões cutâneas em diversas partes de seu corpo, sintoma sugestivo e característico da doença. Seus contatos estão sendo monitorados pelo município.

As amostras do paciente já estão em análise relacionadas as doenças que apresentem características semelhantes, tais como herpes, sarampo e sífilis (diagnóstico diferencial). Mas quais sãos os sintomas da varíola do macaco e qual a letalidade da doença? Corremos o risco de viver uma pandemia da doença? Por que nos Estados Unidos a população LGBTQOA+ está sendo mais afetada?

Para responder a essas e outras perguntas, o Portal ES Brasil entrevistou com exclusividade Eduardo Pandini, infectologista do Hospital Maternidade São José, em Colatina. Confira a entrevista na íntegra abaixo.

Existe alguma relação entre a varíola do macaco com a erradicada varíola humana? O que se sabe sobre a origem dessa nova varíola?

O vírus da varíola do macaco, o Monkeypox, é um parente próximo do vírus causador da varíola humana, que afetava as pessoas desde milhares de anos atrás e foi erradicado em 1979. Este vírus, apesar do nome, tem como reservatórios animais como pequenos roedores do interior da África. Ele ganhou esse nome porque foi descoberto em macacos que estavam em um laboratório na Dinamarca, em 1958. Houve um surto desses macacos, todos eles na mesma jaula, então foi aí que descobriram o vírus e em 1970, constatou-se que ele causa doença em humanos também. Uma forma mais branda da doença em relação à varíola humana. Até então era considerado uma curiosidade médica, ‘um vírus que causa uma varíola branda’, enquanto nós estávamos tentando vacinar todo mundo contra a varíola humana. Desde então, ocorreram diversos surtos da varíola do macaco em países africanos, tais como a Nigéria e a República Democrática do Congo. Porém, até então o vírus nunca tinha saído de lá. Agora, em 2022, a novidade é que o vírus começou a circular fora do território africano. Anteriormente, somente pessoas que tinham ido à África e voltado para seus respectivos países apresentavam a doença. Agora, a doença está circulando fora da África.

esbrasil-monkeypox-viirus-variola-do-macaco
Monkeypox, o vírus da varíola do macaco – Foto: Reprodução

O que se sabe da letalidade da varíola do macaco? Seria comparável a quê?

A letalidade é muito menor do que a varíola humana. A humana tinha uma mortalidade, na sua forma mais grave, que beirava os 30%. Ou seja, a cada dez infectados, três morriam. A varíola do macaco tem dois subtipos desse vírus. O vírus da África Central, mais comum no Congo, que é mais agressivo. Nos surtos que ocorreram lá, chegou a alcançar uma mortalidade de 10% em alguns lugares, especialmente em pessoas com a imunidade baixa. Já o outro subtipo, da África Ocidental, especialmente na Nigéria, que parece o que originou esse vírus que circula fora do território africano, a letalidade gira em torno de 3%. Até então, fora da África, ainda não morreu ninguém vítima da varíola do macaco.

Que se sabe sobre o contágio?

Essa doença parece ter duas fazes. Começa com um quadro de febre, dor de cabeça, dor no corpo, mal-estar, como tantas outras viroses, e ínguas, especialmente no pescoço, uma característica que chama muito a atenção, e que outras doenças parecidas não causam. As ínguas aparecem pelo corpo durante cerca de três dias. A partir do terceiro dia de febre, começam a surgir manchas pelo corpo, como se fossem picadas de mosquito. Em seguida, tornam-se bolhas, enchem-se de pus, e com o passar do tempo, elas vão se desprendendo da pele podendo deixar cicatrizes.

Durante esse processo, que pode durar até 21 dias, o doente transmite a doença. Nos primeiros dias, de febre e mal-estar, o paciente transmite a doença por via respiratória através de gotículas. O contágio por gotículas pode acontecer com até dois metros de distância. O que é diferente da Covid-19 cujo paciente, em um ambiente fechado, pode transmitir o vírus para todos os presentes no local. A varíola do macaco vai ser transmitida às pessoas do entorno.

As lesões na pele são extremamente infectantes ao contato. Se a pessoa estiver com essas lesões e outra pessoa encostar, pode contrair o vírus, uma vez que o pus está cheio de vírus. Esse autopoder de contágio vai durar até o desaparecimento completo dessas lesões na pele do paciente.

Existe vacina para a Monkeypox? Existe tratamento?

Existe uma vacina para a varíola do macaco em pequenas doses. Poucos países possuem porque até então era uma doença que era negligenciada. Parece que os Estados Unidos compraram o estoque completo, então dificilmente o Brasil terá acesso à essas vacinas, até que outros fabricantes comecem a produzir as vacinas. Porém, trata-se de um processo que demora um pouco. Existe também a vacina da varíola humana que tem uma proteção de 85% contra a varíola do macaco. Porém, a vacina para a varíola humana tem estoque pequeno, já que a doença foi erradicada. É muito provável que não tenhamos vacina para toda a população. O que muitos países devem fazer é tentar vacinar as pessoas que tiveram contato com vítimas da doença. Existe até uma medicação que se chama Tecovirimat SIGA, porém, aqui no Brasil não está disponível ainda. Então, como lidar com a doença aqui no Brasil? É tentar identificar os casos, isolar os pacientes, e evitar que transmitam a doença. Existe vacina, existe tratamento, mas é pouco provável que nós tenhamos acesso a isso em curto e médio prazo.

Quais as chances de virar uma pandemia com a proporção da Covid-19?

A varíola do macaco é uma doença muito diferente da Covid-19. A transmissão dela é muito menor. A Monkeypox em uma taxa de transmissão menor. Provavelmente, haverá transmissão comunitária no Espírito Santo e no Brasil. Mas é muito difícil que chegue no nível da Covid-19. Existem algumas razões para isso. O vírus da varíola do macaco, assim como o vírus da varíola humana, tem material genético de DNA, que sofre muito menos mutação do que o RNA, que faz o material genético do vírus da Covid-19 e da gripe, que vivem sofrendo mutações. Tais mutações fazem com que os vírus escapem. Estamos vivendo várias ondas da pandemia de Covid-19.

Um dos fatores que estar colaborando para a Monkeypox estar circulando agora é que, como a varíola humana foi erradicada e a vacina tem uma proteção contra a varíola do macacão, acreditamos que, conforme as gerações mais novas vão nascendo, e não estão sendo vacinadas contra a varíola humana porque o vírus foi extinto, elas não estão recebendo essa proteção cruzada contra a varíola do macaco.

Devem existir outros fatores, mas ainda é um mistério porque ele começou a circular em 2022. É difícil fazer previsão. Todos estamos sujeitos a errar. No entanto, considerando as características do vírus e a não ser que sofra uma mutação muito bizarra, ele será transmitido, mas nada nas proporções da Covid-19. Acredito que não vamos chegar ao ponto do mundo se fechar por causar da varíola do macaco, não vamos chegar a esse ponto.

O Brasil apresenta condições favoráveis para a propagação da varíola do macaco?

Estamos no mesmo nível que outros países da Europa, da Ásia, do continente Americano. Temos núcleos urbanos, cidades grandes nas quais as pessoas convivem, circulam, gente chegando da Europa, gente viajando para vários cantos do mundo, então temos condições favoráveis para a propagação como qualquer outro país do mundo. Nós ainda não entendemos muito bem porque essa pandemia está acontecendo agora, quais sãos os fatores, além dessa perda de imunidade com o passar dos anos em relação à varíola humana, mas temos risco por causa de aglomerações urbanas.

Quais são os sintomas?

Já citamos os sintomas nos comentários anteriores, mas vale ressaltar que esse vírus tem um período de encubação variando de cinco a 21 dias. Existe uma fase que precede as manchas e em seguida, acontece a fase das lesões da pele. As lesões de pele evoluem da mesma forma, começando como manchinhas e depois tornam-se purulentas, diferentemente da catapora em que cada lesão está em um estágio diferente. Depois que as lesões se desprendem, existe o risco de ficarem cicatrizes.

Quando é preciso buscar ajuda médica? Qual a forma mais grave da doença?

Quando ocorrerem as preocupações da varíola do macaco. As lesões de pele podem se infectar com bactérias. Isso pode evoluir para uma infecção bacteriana. Quando os vírus atacam as vias aéreas, com aquelas ínguas no pescoço, isso pode evoluir para uma pneumonia pelo próprio vírus. O vírus vai atacar o pulmão. Não é sempre que isso acontece, a não ser nas formas mais graves, especialmente nas pessoas com imunidade baixa, crianças e o vírus pode afetar gestantes e causar problemas no feto. Tais pessoas têm mais chance de desenvolver complicações e precisar de hospitalização, respiração por aparelhos e ainda podem sofrer infecção generalizada.

Em raríssimos casos, o vírus pode afetar o cérebro e causar encefalite (inflamação do cérebro). Além disso, o que a gente via na varíola humana e que podemos ver na varíola do macaco também, é que essas pústulas não ficam restritas à pele e podem pegar também mucosas, inclusive a conjuntiva dos olhos e a córnea. O que posteriormente podem causar cegueira no paciente. Uma complicação bastante temida.

Por que nós EUA afirmam que a doença acomete mais a população LGBTQIA+? Qual a relação?

Essa relação é meio circunstancial. O vírus da varíola do macaco não é de transmissão sexual. Isso tem que ficar bem claro. A Monkeypox não é uma DST. Mas envolve contato próximo. Então se pessoa tem contato de pele pode favorecer a transmissão. Alguns casos foram registrados em pessoas de população LGBTQIA+ e como elas relacionam-se entre si, acabou transmitindo a doença uma para as outras. Mais ou menos o que aconteceu no início da epidemia da Aids, no início da década de 1980, em que começou a se detectar na população LGBTQIA+, mas também começou a acometer a população heterossexual também. Não é que gays, lésbicas ou bissexuais tenham um risco maior, porém, alguns grupos envolviam pessoas homossexuais e como elas se relacionam entre si, gerou-se alguns grupos. Na África não existe essa relação. Os surtos aconteceram de forma generalizada.

A população capixaba pode ficar tranquila sobre essa nova doença?

A varíola do macaco tem uma capacidade de transmissão bem menor do que a Covid-19, então a chance de acontecer uma pandemia é muito pequena. Recomendamos é vigilância. Observar se aparecem sintomas. É verdade que os sintomas iniciais são parecidos com os de outras doenças. O que chama a atenção são as ínguas e a partir do terceiro dias, surgem as lesões de pele, a partir de então a pessoa deve se isolar para não transmitir a doença para outras pessoas e informar às demais, que também devem observar se começarão a apresentar sintomas. Se não aparecer sintomas no período de 21 dias elas não precisam se isolar.

Usar máscaras em locais fechados pode proteger. Se a pessoa observar complicações mais sérias, deve procurar ajuda médica. Já os casos mais leves podem ser tratados em casa. Recomendamos vigilância. Em 2022, na África foram registrados pouco menos de 1.500 casos de varíola de macaco com 66 mortes.

Entre para nosso grupo do WhatsApp

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Entre para nosso grupo do Telegram

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

- Publicidade -

Matérias relacionadas

Continua após publicidade

Fique por dentro

Vida Capixaba

Continua após publicidade